Os segredos da produção musical


Nunca foi tão fácil dominar os “segredos” da produção musical e de áudio. Porque, na verdade, não são segredos, e sim técnicas aprendidas com a experimentação prática e depois sedimentadas com a experiência, além de muito estudo. Em outras palavras, é mais uma questão de ‘vontade’ do que de ‘capacidade’. Até porque talento pode ser desenvolvido com estudo e prática.

As novas tecnologias simplificaram o acesso tanto ao conhecimento quanto aos bens de produção musical. Hoje, todos os músicos, sejam eles profissionais, iniciantes ou amadores de qualquer classe social e estilo musical têm plenas condições de montar e operar um estúdio e de realizar gravações e mixagens de alto nível.

Com a absorção dos antigos equipamentos pelo computador, a queda nos custos e a facilidade de obtermos informações e estudar com a Internet o que parecia há poucos anos um sonho distante é agora uma realidade óbvia até para quem não queria ver.

Tornar-se produtor é parecido com aprender a tocar um instrumento, que depende 99 por cento de transpiração e um por cento de inspiração, como dizem os mestres. Só que, temos que admitir, é bem mais rápido aprender a dominar as técnicas de gravação e de produção musical do que aprender a tocar bem a maioria dos instrumentos.

O primeiro passo é entender que a produção musical precisa de conhecimentos ou noções de áudio, música, informática, inglês, marketing e até de psicologia. Outras matérias também ajudam, como direito, história e eletrônica, mas não são as principais.

Assim como ninguém precisa estudar telecomunicações para falar num celular, o produtor que usa uma mesa de som não é obrigado a entender de eletrônica. Quem precisa mais disso são os técnicos de manutenção, os projetistas de equipamentos e os desenvolvedores de programas.

O melhor é o produtor musical estar atualizado na maior variedade possível de assuntos, acompanhar o seu tempo.

No entanto, é importante ter alguma noção do que se passa nos computadores, já que eles passaram a ser o próprio sistema de gravação. Quem vai montar ou comprar um computador para gravar tem que saber escolher todas as peças e os programas, sob pena do sistema simplesmente não funcionar.

Nossos estúdios, hoje, têm quase todos os componentes em forma de software. Já não são apenas programas gravadores, mesas de mixagem e efeitos, mas instrumentos musicais muito complexos com enormes coleções de timbres de altíssima qualidade, simuladores de amplificadores, de microfones, de ambientes acústicos, ferramentas revolucionárias para produção de música eletrônica e programas de edição de vídeo, a mídia para onde tantas outras estão convergindo. Os computadores que suportam todos esses recursos são bem mais sofisticados do que aqueles montados para escritórios.

Para realizarmos gravações e mixagens de instrumentos e vozes em pequena quantidade, em muitos casos, podemos usar um mesmo sistema por muito tempo, escapando do consumismo desenfreado que leva alguns produtores a trocar de computador todo ano.

É claro que todo mundo quer ter sempre a última versão do seu programa favorito. Mas isto não é o mais importante. O importante, como diz o jargão, é usar o programa que você sabe usar. Enquanto ele estiver resolvendo, ninguém precisa se culpar por não estar com o sistema de gravação atualizado se não tiver condições para isto.

O mercado de trabalho

A diversidade dos equipamentos e programas encontrados nos home studios reflete a variedade de talentos e aptidões que temos no meio musical. Mesmo em casa ou em sistemas móveis, músicos de todos os gêneros e estilos gravam e mixam muitos canais de áudio, masterizam CDs e ainda divulgam e comercializam suas obras na Internet, produzem música eletrônica e todo tipo de música utilizando samplers, sintetizadores e gravando áudio ao mesmo tempo, mixando e masterizando todo o material.

Com isso, fazem álbuns, trilhas, jingles e demonstrações. Muitos também sonorizam vídeos ou mesmo produzem seus próprios, apresentando seu trabalho na Internet e autorando DVDs seus e dos seus clientes.

Esses produtores atendem diretamente ou através de agências a um mercado crescente e diversificado.

Além dos clientes tradicionais, como gravadoras, artistas e bandas independentes, emissoras de rádio e TV, agências de publicidade e produtoras de cinema, vídeo e teatro, temos hoje empresas produtoras de multimídia, web designers e clientes diretos de todo tipo, como grandes e médias empresas com seus vídeos institucionais e de treinamento, igrejas, políticos, DJs e as múltiplas emissoras de TV digital que surgirão a partir de agora.

Isto sem contar o público em geral que solicita transferência de áudio de mídias antigas para as novas como cópias de fitas e discos para CDs e arquivos MP3.

Todos esses clientes se voltam cada vez mais para a negociação direta com os produtores musicais. Paradoxalmente, quanto mais se torna uma atividade caseira, mais a produção de áudio e música expande seu mercado e, com isso, se estabelece como atividade econômica de massa e não mais somente de ponta. Não podemos esquecer as grandes produtoras e muitas outras empresas que absorvem diversos produtores, mas é espantosa a multiplicação dos estúdios caseiros com atividade comercial permanente atuando em todos os municípios do país.

O que é preciso estudar?

Um músico, o tempo todo, produz áudio. É fundamental para todo músico conhecer as propriedades do som e certas técnicas de utilização de recursos de áudio para ele conseguir soar adequadamente. Como, por exemplo, saber captar e equalizar o som de seu instrumento para que ele soe natural numa gravação ou numa apresentação ao vivo.

Também é fundamental o operador e o produtor de áudio conhecerem música para que o resultado do seu trabalho tenha musicalidade. Parece óbvio, mas, sem isso, o seu som fica estranho.

Sem um certo treinamento musical de sua audição, eles podem deixar passar erros de interpretação ou de harmonia dos músicos que gravam e terão mais dificuldade em compreender as funções dos instrumentos e vozes dentro de um arranjo, o que comprometerá a mixagem e o produto final.

O produtor musical é, antes de tudo, um músico. Ao produzir um CD ou compor uma trilha, ele vai realizar da forma mais completa o fazer musical. Vai reunir todas as idéias musicais de forma equilibrada num projeto, o que requer conhecimento de música. Para garantir a qualidade sonora do seu trabalho, ele também precisa conhecer o áudio e as suas ferramentas.

Vários novos produtores (infelizmente, alguns nem tão novos assim) julgam compensar suas deficiências de conhecimento utilizando presets dos plug-ins de áudio. Essas programações são feitas pelos fabricantes para mostrar os recursos e a versatilidade dos seus programas. Mas foram desenvolvidas para outras músicas, outras gravações. Nada garante que sejam adequadas ao que se está gravando ou criando.

É muito importante conhecer a prática e a teoria musical, saber ler, saber escrever música. Porque quem sabe ler e escrever, sabe ouvir. Enquanto o músico precisa conhecer áudio para saber fazer soar aquilo que concebeu, o profissional de áudio precisa entender que ele também é um músico e buscar dominar também as ferramentas musicais. Mais de noventa por cento do que se grava e do que se sonoriza é música.

Quem pretende seguir a carreira de produtor musical precisa conhecer música a fundo, além do áudio. É este ‘maestro’ moderno quem faz a música acontecer, nem que seus “músicos” sejam programas de computador.

Embora gravar tudo sozinho seja hoje um hábito de muitos, os pioneiros causaram estranheza em 1968 e 1973 quando gênios como a tecladista Wendy (Walter) Carlos e o multiinstrumentista Mike Oldfield lançaram, respectivamente, “Switched-On Bach” e “Tubular Bells” tocando todos ou quase todos os instrumentos, fossem eletrônicos, elétricos ou acústicos.

O costume nas sessões da época era todos os músicos serem gravados ao mesmo tempo. Essa foi uma conquista da gravação multipista e uma nova fronteira na produção musical, que deve ser vista sem preconceitos.

O estudo da música deve priorizar o aprendizado do instrumento favorito da pessoa, além de um instrumento harmônico como o teclado ou o violão, a teoria e a prática da percepção musical, harmonia popular e “tradicional”, arranjo e noções de contraponto. Reserve uma hora por dia, pelo menos, pelo resto da vida. Música leva muito tempo e cada vez temos mais o que aprender e praticar, mesmo quando não desejamos nos profissionalizar como instrumentistas ou cantores.

O estudo do áudio inclui conhecimentos sobre a física do som, captação, conversão do sinal analógico em digital, cabos e conectores, microfones, mesas de som, efeitos, equalizadores, compressores, redutores de ruídos, endereçamento dos sons, monitores, acústica, técnicas de gravação, edição, mixagem e masterização, MIDI, programação de sintetizadores e samplers, programas e plug-ins de gravação e configurações de computadores.

Sem esses conhecimentos, mesmo que básicos, o senso crítico acaba, o conhecimento e a experimentação são substituídos por procedimentos-padrão. Todo mundo gravando igual, com o mesmo equipamento, regulado do mesmo jeito. Quando a arte vira indústria, é grande a chance de ela deixar de ser arte.

Antonio Guerreiro de Faria (foto) é compositor, arranjador, produtor musical, pianista, mestre em música e professor de harmonia da UNIRIO, musicólogo com trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Ele afirma: “O produtor musical é um produtor de música. Se o produtor vai produzir música, ele tem que saber música, porque senão ele não será um produtor musical.”

“Existem produtores que ficaram famosos”, continua. “Verificando o perfil de George Martin, a gente vai ver que é um músico erudito que estudou composição a sério e que, além disso, ele produziu o som dos Beatles. Na realidade, é um produtor musical porque também ele é um compositor e arranjador. Se a gente pegar o Sargent Peppers, que é um disco premiado, um dos ícones da década de 1960, que foi fundamental para mudar todo o panorama musical do mundo, vai ver que foi produzido até a medula por um cara chamado George Martin."

"Porque nem o John Lennon, nem o Paul McCartney, nem o Ringo Starr nem o George Harrison orquestravam coisíssima alguma. É um disco orquestral, que foi orquestrado pelo George Martin. Ou será que você pensa que o trompete e as trompas foram produzidos pelo John Lennon? Tá na cara que foi um cara que escreveu tudo aquilo. Esse cara se chamava George Martin. Então, havia o conceito de que o produtor musical também era um arranjador e compositor.”

“Um grande produtor musical aqui no Brasil, por exemplo, foi Cesar Guerra-Peixe (professor durante décadas do próprio Guerreiro e de Rildo Hora, o produtor de Zeca Pagodinho, entre outros nomes)."

"Quando saiu do Recife e foi para São Paulo em 1953, uma das coisas que ele fez foi produzir discos para a (gravadora) RGE – Fermata. Era uma época em que os produtores musicais não eram somente técnicos de informática ou técnicos de som, eles eram, fundamentalmente, músicos. Por serem músicos, por terem conhecimento musical, eram capazes de fazer os arranjos dos seus produzidos, de conceituar o som dos seus produzidos. Isso faz uma grande diferença, o camarada que sabe música e faz o produto acontecer e conceitua esse produto.”

“Outro produtor muito conhecido e admirado chamava-se Thom Bell. Nem era americano, ele era jamaicano. Começou tocando piano erudito, conhecia o repertório inteiro, estudou composição, e foi morar na Filadélfia (Estados Unidos). Lá ele criou o “Philly Sound” ou o “Som da Filadélfia”, com todo aquele colorido harmônico de todos os arranjos característicos que marcaram até hoje a década de 70.

Ele era fundamentalmente um músico, compositor, em parceria com a letrista Linda Creed (“Stop, Look, Listen”, “You Are Everything”, “You Make Me Feel Brand New” e muitos outros sucessos) e produziu o famoso grupo de soul The Stylistics. Depois, fez a disco music e os Bee Gees o contrataram como arranjador. Fizeram a trilha sonora de “Saturday Night Fevers” (“Os Embalos de Sábado à Noite”) e criaram uma nova febre que tomou o mundo.

Thom Bell, nascido na Jamaica em 1941, mudou-se ainda criança para a Filadélfia (Estados Unidos), onde transformou-se no principal arquiteto da Philadelphia soul, subgênero da soul music norte-americana nos anos setenta e uma das vertentes mais populares e influentes daquela época.

Estudou piano clássico quando jovem e entrou no grupo hamônico The Romeos, em 1959. Aos 19 anos, trabalhava como compositor e arranjador do filho favorito da Filadélfia, Chubby Checker. Logo depois, Bell assinou com a Cameo Records como pianista de estúdio.

Seu primeiro trabalho foi com o grupo de soul Delfonics. Na nova gravadora Philly Groove, em 1968, Bell tornou-se produtor. O trabalho de Bell com os Delfonics tornou-se imediatamente reconhecido por sua delicadeza e pela doçura de suas composições e arranjos.

Em 1971, ele fundou seu próprio selo musical, a Philadelphia International Records (PRI), onde o estilo Philly Soul rapidamente tomou forma, e assumiu os Stylistics. Ele formou com Linda Creed uma das duplas de compositores mais importantes da história da música norte-americana, marcada por letras e arranjos imortalizados pelo falsetes do vocalista Russell Thompkins Jr.

Bell ainda produziu artistas como Johnny Mathis e os grupos The Spinners e The O’Jays, outros ícones daquele período.

“George Martin (The Beatles) na Inglaterra, Guerra-Peixe e Radamés Gnattali (30 anos na Rádio Nacional) no Brasil e Thom Bell (Stylistics) nos EUA são caras que fizeram os sons, que construíram novas estéticas. Eles eram produtores musicais, não eram só produtores técnicos. Isso faz toda a diferença.”