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Música e computadores, revoluções por minuto


Nossos estúdios se tornaram totalmente dependentes dos computadores. Pode-se dizer que, agora, o computador é o estúdio. Mas o uso dessas máquinas para a produção de música vem de muito tempo. As etapas desta revolução vieram se sucedendo num ritmo vertiginoso, especialmente nos últimos trinta anos.

Música e computador não quer dizer, necessariamente, música eletrônica. O computador é o estúdio de gravação, é o instrumento musical de todo tipo de música. É a partitura e o caderno de música. É a sala de música de cada um de nossos ouvintes e também é a nossa própria emissora de rádio e TV. A internet aposentou as nossas coleções de CDs.

A música e o computador estão associados na gravação e na edição do áudio, na criação e na produção de música, com o sequenciador MIDI, e nos instrumentos musicais virtuais e eletrônicos de modo geral. Música e PCs se encontram ainda nas mesas digitais, na automação de instrumentos musicais e equipamentos de áudio e, claro, na música eletrônica, alguns gêneros musicais que dependem da criação ou realização artística através do computador.

Computador Atari ST com MIDI onboard, 1986

Desde o século XIX, quando se começou a pensar numa máquina de analisar, já se vinha tentando fazer barulho com ela. Na verdade, instrumentos musicais automáticos (mecânicos), como o órgão hidráulico que usava água para regular a pressão do ar, datam de antes de Cristo. Depois, vieram as caixinhas de música, o realejo e as pianolas automáticas com piano-roll, que era um rolo de papel perfurado parecido com as telas dos sequenciadores MIDI de hoje, só que movidas a corda. A ideia de pôr as máquinas para tocar sozinhas é quase tão antiga quanto a própria música.

Através de todo o século XX, durante o desenvolvimento dos computadores, houve muitas iniciativas para se produzir música através dessas estranhas (naquela época, estranhíssimas) máquinas. Em 1958, Max Mathews, da Bell Labs, desenvolveu o MUSIC4, primeiro programa comercial de síntese de sons.

Daí para a frente, foram aparecendo programas para sequenciar melodias e escrever partituras.

A ideia de pôr as máquinas para tocar sozinhas é quase tão antiga quanto a própria música

Os sintetizadores foram evoluindo lado a lado com os computadores. Uns e outros eram monstrengos enormes montados por nerds pioneiros. Nos anos 60, surge o Moog, primeiro sintetizador realmente comercial, do tamanho de um pequeno guarda-roupa de duas portas. Na década de 1970, brilha o sintetizador portátil Minimoog e, no final, os sintetizadores polifônicos e as baterias eletrônicas.

MIDI, um divisor de águas. Esta súbita fama dos teclados eletrônicos e o advento dos microcomputadores pessoais, como o Apple II, em 1978, levaram ao grande salto nesta história. Com a tecnologia digital alcançando os sintetizadores, surge em 1983 a Musical Instrument Digital Interface, ou simplesmente MIDI.

Piano-roll

A partir daí, todos os sintetizadores, samplers, baterias e outros instrumentos eletrônicos de todas as marcas passaram a se comunicar, entre si e com os computadores, integrando um eficiente sistema de produção, que podia ser comercial ou caseiro.

Nos anos 1980, computadores como o Apple II e o Commodore 64 já usavam placas MIDI e programas sequenciadores. O áudio era todo gravado em fitas analógicas, mas os instrumentos MIDI entravam na mixagem tocados ao vivo pelo sequenciador.

Com o sequenciador MIDI e o sampler, com suas novas técnicas de loops e amostragem digital dos sons, desenvolveu-se a música techno e suas ramificações, mais europeias e asiáticas, e a nova música negra norte-americana, como o rap, o hip-hop e o próprio rhythm and blues, que se renovou ali.

A música de cinema e a criação de trilhas sonoras para TV e publicidade se aproveitaram da sincronização entre som e imagem, também muito facilitada pelos programas que usam MIDI.

Programar as baterias e outros instrumentos sequenciando samplers se tornou uma prática natural no trabalho dos arranjadores de todos os gêneros.

Editar as partituras no computador foi outra prática que surgiu nos anos 80, um ponto final na tradicional profissão de copista, substituído depois pelas impressoras a jato de tinta. Nessa época, aparece o “CD-ROM” com os recursos de multimídia.

Com o MIDI e o sampler, desenvolvem-se o techno, o rap, o hip-hop e o próprio rhythm and blues, que se renovou ali.

No meio da década de 1980 chegam novos computadores, como Apple Macintosh, Atari ST e Commodore Amiga, que já usam janelas e mouse, viabilizando programas que já continham toda a essência dos recursos que usamos hoje. Nascem as primeiras versões do Cubase, do Finale, do Logic e do Pro Tools. Logo adiante, os IBM-PC e seus clones receberiam as primeiras versões do Cakewalk, ainda rodando em MS-DOS, sem janelas.

Enfim, o áudio. Esses programas eram editores de partituras ou sequenciadores MIDI para a produção de arranjos com teclados e racks eletrônicos. A gravação de áudio multipista (com vários canais simultâneos) em disco rígido através dos programas de computador só começou a ser levada a sério pelo mercado na virada para os anos 1990.

Os pioneiros foram o computador Macintosh e o programa Pro Tools, depois seguido por Logic e Cubase. No início, o sistema funcionava com pouquíssimos recursos e canais de áudio. O primeiro álbum gravado em computador só foi lançado em 1997. A produção de gravadores de fita analógica de rolo se encerrou em 1999.

Músicas sequenciadas em piano-roll

Nos PCs, a gravação de áudio se popularizou a partir do Windows 95, com a migração do Cubase, do Logic e do Pro Tools e a transmutação do sequenciador MIDI Cakewalk Professional for Windows no gravador de som multipista Cakewalk Pro Audio, hoje chamado Sonar.

Nesta fase, os programas permitiam gravar várias pistas de áudio, mas os discos rígidos e os processadores não tinham velocidade suficiente para trabalhar com muitas pistas e plug-ins ao mesmo tempo. Era comum a mixagem dessas pistas ser feita fora do computador, na mesa de som, com os efeitos e os instrumentos MIDI em racks. O sinal entrava e saía por muitos canais através de interfaces de áudio.

Plug-ins para processar o áudio. No final da década de 1990, os plug-ins de efeitos sonoros encontraram computadores com velocidade suficiente para rodar uma boa quantidade deles ao mesmo tempo. Foi a senha para a popularização das mixagens virtuais. Dezenas de canais de áudio podem ser mixados com ótimos efeitos, compressores, equalizadores paramétricos, auto-afinação de vozes, redutores de ruídos, modeladores de imagem estéreo ou surround.

Internet. Outro surto, e de todos o mais literalmente revolucionário, que ocorreu no período foi o advento do áudio “líquido”, representado pelos arquivos de áudio comprimidos, como o MP3, o WMA e o OGG. A prática de baixar arquivos musicais da internet passou a ser uma das atividades mais comuns (e polêmicas) da rede. A consequência de tanta avidez por música, aliada à inabilidade da indústria em lidar com mudanças tão profundas, fez gerar uma nova e poderosa ferramenta tecnológica: o P2P (peer to peer), ou o ato de trocar arquivos na internet.

Sem conseguir vencê-lo na justiça, a indústria comprou o Napster e o destruiu. Mas as pessoas aprenderam a trocar músicas

Um minuto do arquivo WAV em “qualidade CD” ocupa cerca de 10MB. Naquele tempo, banda larga era uma novidade ou uma promessa. O MP3, muito menor, tornou a internet musical de um instante para o outro. E foi proibido!

Essa troca de arquivos musicais virou prática diária de muita gente, hábito demonizado por uma campanha de mídia nunca vista, promovida pela indústria fonográfica, que dava sinais de exaustão. De repente, todo mundo virou “pirata”.

Moog

No vácuo deixado pela indústria fonográfica, surge o Napster, criado por um rapaz de 19 anos, e o mundo aprende a trocar músicas. Às gravadoras, só restou chamar a polícia.

Em 2000, enquanto as novas empresas eletrônicas da bolsa Nasdaq foram falindo em série como dominó no famoso estouro da “bolha” da internet, o Napster, respeitando a cultura de gratuidade da comunidade internauta, cresceu até aterrorizar a grande indústria fonográfica. Estraçalhado por ações judiciais de gravadoras e artistas como Madonna e a banda Metallica, foi vendido para a Roxio e praticamente destruído ao virar um serviço pago.

Depois, milhões e milhões de usuários se espalharam por centenas de ferramentas sucessoras, como o Audiogalaxy, o Kazaa, o Emule ou o RapidShare. Todo mundo passou a baixar música. E as gravadoras, ainda tentando inibir a prática em vez de torná-la lucrativa, nunca mais se encontraram com o mercado. Não ia dar mesmo para prender todas as pessoas.

Só muito depois, a Apple conseguiu passar a vender música online para um nicho do mercado através da loja iTunes. Isto foi à custa de muita negociação com artistas e empresas e aproveitando o formidável bloqueio norte-americano aos sites de compartilhamento, além de um enorme esforço de marketing. Mas, para a maioria, o hábito de pagar pela música online já não fazia mais sentido.

O timing fora perdido, talvez para sempre.

Hoje, ouvimos a música diretamente da internet, sem necessidade de armazenar arquivos em nossas máquinas. Cantarole uma melodia em seu celular e, em instantes, ele estará tocando o MP3 com a versão original da canção, diretamente de algum lugar da rede. Vários aplicativos fazem isso.

Instrumentos virtuais. Com o novo milênio, as expressões artísticas eletrônicas, especialmente os loops percussivos e os timbres sampleados, contagiaram quase todos os gêneros de música.

Podemos produzir com um tablet, mas um desktop é muito mais poderoso

A primeira década do novo século vê uma explosão de estilos, DJs e produtores de música eletrônica realizando eventos com milhares de pessoas.

Agora, samplers, sintetizadores e baterias também tinham se tornado programas de computador. Em pouco tempo, os racks e teclados foram sumindo dos estúdios que, no entanto, passaram a contar com muito mais instrumentos, sonoridades e recursos.

As bibliotecas de sons para samplers se tornaram muito populares. Surgem novas técnicas de edição de áudio, como o áudio elástico e os corretores de afinação Auto Tune e Melodyne. E os computadores se tornaram portáteis, com suas placas de áudio e MIDI com conectores FireWire ou USB para os notebooks.

Uma penca de penduricalhos como os HDs externos, a interface de som, um controlador, um microfone, um par de monitores e outro de fones, mais alguns cabos, as fontes de energia, o mouse e uma chave USB (iLock) para ativar o programa (Pro Tools, Cubase e outros), pode se chamar um sistema portátil?

Os tablets como o iPad são a sensação do momento, como os smartphones. É claro que podemos produzir com eles, como, aliás, também já se produziu muito em fita cassete. Os computadores de mesa continuam a ser mais baratos, poderosos e rápidos, mantendo toda a sua versatilidade. Só não são decorativos ou portáteis.

Hoje. A nova década encontra o ambiente mais estável. Em 2012, os programas estão mais amadurecidos e os computadores, mais duráveis. Com as CPUs de múltiplos núcleos, como o Core i7 e o Core i5 da Intel, o processamento de efeitos e instrumentos se tornou mais seguro e eficiente no Mac e no Windows. A tendência de sistemas abertos, com peças e software de diversos fabricantes, veio para ficar.

Instrumentos virtuais

A sonoridade da maioria das gravações melhorou muito. As músicas, nem tanto. As pessoas estão mais informadas. Infelizmente, ainda não é tudo. A fronteira atual é a da educação, do conhecimento. Teremos uma nova revolução no campo do ensino à distância? Ou isso vai robotizar ainda mais as mentes das pessoas? A história anda para a frente. E compartilhar informação já tem sido um grande passo.

Com tantos recursos para a produção musical à disposição de todos e tanta informação artística e técnica circulando como nunca, os criadores ainda estão devendo ao público uma nova música com mais densidade.

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