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Alternativas ao Pro Tools para home studios

Sérgio Izecksohn

Só Pro Tools salva? Existe uma grande confusão entre os usuários de programas e placas para gravação de áudio em computadores. Quase todos já ouviram falar no Pro Tools. Muitos ouviram dizer que “tem que ter Pro Tools ou a gravação vai perder qualidade”. Proprietários de placas multimídia “on board” ou SoundBlaster, esses usuários tendem a crer e a reforçar esta mentalidade. E o Pro Tools virou uma espécie de BomBril, sinônimo de gravação de áudio em computador. Só que o Pro Tools custa um bocado de dinheiro. E existem vários sistemas concorrentes que estão em níveis equivalentes de qualidade sonora e de eficiência, embora custando muito mais barato. Têm sido menos divulgados por políticas de marketing do fabricante e das importadoras, numa tentativa de monopólio. Esta situação exclui milhares de produtores musicais, muitos deles talentosos, do processo produtivo da criação brasileira. Um país tão pobre e tão musical quanto o Brasil precisa conhecer e dominar as ferramentas que permitem preservar sua diversidade artística e cultural.

A marca Pro Tools

O produto da canadense Digidesign revoluciona o mercado desde fins dos anos 80, quando foi um dos pioneiros em gravação em hard disk através de software. Tem sido, desde então, referência em gravação por computador e um dos trunfos da marca Macintosh. O sistema também roda em Windows, mas é notória a predileção dos fabricantes pelas máquinas da Apple.

Existem, basicamente, três níveis de Pro Tools: profissional, básico e shareware.

O Pro Tools HD é um sistema robusto, composto de um computador, o programa Pro Tools TDM (que só roda em hardware próprio), os plug-ins e o hardware dedicado, que inclui interfaces de áudio analógico e digital e placas aceleradoras. Existem as versões Pro Tools HD 1, básica, Pro Tools HD 2 Accel e Pro Tools HD 3 Accel, todas nas opções “Music” ou “Post”. No mercado internacional, os custos dos sistemas básicos, não expandidos, começam, respectivamente, em oito mil, onze mil e quatorze mil dólares, fora o computador, os plug-ins, as expansões das entradas e saídas de áudio, as placas aceleradoras, as superfícies de controle... Um investimento variável, na casa das dezenas de milhares de dólares, ideal para grandes produtoras, emissoras de TV, estúdios comerciais de médio e grande porte e usuários de alto poder aquisitivo que podem atualizar o sistema quase todo ano.

Esta é a versão atual na revolucionária trajetória do Pro Tools, responsável pelo bom nome do sistema no mercado corporativo. Nesta faixa de mercado, tem deixado os concorrentes comendo poeira.

O Pro Tools LE é a versão light. Surgiu da demanda dos home studios, dos milhões de músicos que, de um instante para outro, começaram a gravar em seus computadores e a divulgar seus trabalhos através de CDs feitos em casa e pela internet. Ainda é um sistema relativamente caro. É vendido junto com uma das três interfaces da Digidesign, chamadas Digi002, Digi002Rack e Mbox. Uma custa 2.500 dólares, outra custa 1.300 e a menor sai por quinhentos dólares no mercado internacional.

O Pro Tools LE só roda com uma dessas placas e tem sérios problemas de compatibilidade na área de mercado a que se destina. O programa não se baseia nos processadores DSP das placas aceleradoras que caracterizam o sistema TDM do Pro Tools HD. Usando plug-ins RTAS, tem o processamento do áudio e dos efeitos totalmente dependente do computador, o que exige uma máquina também cara, já que o programa é pesado e tem uma grande lista de incompatibilidades com hardware. O próprio conceito da empresa de se começar o projeto em casa e concluí-lo no grande estúdio fica, de certo modo, comprometido, devido à incompatibilidade da versão básica com os plug-ins TDM. Afinal, transportar as pistas gravadas de um software para outro (o que chegou a ser enaltecido no marketing da Digidesign) é uma simples operação de exportar e importar arquivos. E assim, qualquer um pode gravar em qualquer bom software e depois exportar o material para mixar em qualquer outro programa e em qualquer outro estúdio.

O Pro Tools LE só roda os plug-ins RTAS e não compartilha o uso do computador com os outros programas de áudio. Assim, os usuários ficam privados do uso de importantes aplicativos das áreas de gravação, mixagem, edição de áudio, masterização, seqüenciamento MIDI, sintetizadores virtuais e muitos outros, a não ser que adquiram outro computador e outra placa de áudio. Para muitos, esse conceito não combina com a sua realidade econômica..

O terceiro Pro Tools é uma antiga versão shareware chamada Pro Tools Free, que era gratuita e tinha só oito pistas, sem plug-ins, nem mesmo um reverberador. Mas aí já é brinquedo! Só que tem muita gente que deixa de usar programas fantásticos para rodar o brinquedo velho, na certeza de estarem levando vantagem, simplesmente por usar Pro Tools. Assim como existem usuários que, atraídos pela força da marca, adquirem velhos computadores Mac G3, de performance semelhante a um Pentium II, ou modelos ainda mais antigos e lentos, só para rodar antigas versões do Pro Tools!

Histórico

E qual é a razão da força desta marca? No Brasil, no fim dos anos 90, a marca mais difundida entre os home studios era a Cakewalk. O Pro Tools tinha uma boa reputação, mas era visto como produto caro e mais voltado para a área corporativa. De 2000 a 2003, as importadoras, pressionadas pelas metas monopolistas do fabricante, passaram a divulgar somente o Pro Tools no mercado. Embora elas próprias importassem uma grande variedade de produtos concorrentes, sua propaganda passava a impressão de que o Pro Tools era o único programa de gravação, escondendo as outras marcas em seus stands de vendas e parando de anunciar produtos tradicionais como o Cakewalk e o Sound Forge. Afinal, o Pro Tools representa uma venda casada, enquanto muitos outros programas são copiados por aí e rodam até em placas de multimídia on board, o que significa prejuízo.

Um imenso contingente de usuários entrou no mercado neste período, devido às facilidades trazidas pela expansão da base de computadores, pensando, naturalmente, que o Pro Tools seria a única ferramenta viável e, muitas vezes, desistindo de ter seu home studio, por falta de capital para investir num sistema Pro Tools.

Ainda por cima, no mesmo momento, os técnicos de gravação veteranos, experientes em gravação analógica em fitas de rolo, vendo-se na iminência de migrar para a gravação em hard disk, deram de cara com o rolo compressor do marketing da Digidesign. Com o respaldo da alta qualidade dessa linha de produtos, criou-se facilmente o estúpido equívoco que diz que “quem não tem Pro Tools está por fora!”, como chegou a ser publicado numa revista do Rio. Podia querer dizer que todos têm que gravar em hard disk e largar as fitas, entrando o termo Pro Tools apenas como referência, mas o estrago já estava feito.

Se eu perguntar ao Michael Schumacker que carro ele me recomenda para eu ir ao shopping, é possível que ele me indique uma Ferrari. Mas, para eu ir ao shopping, ainda prefiro um Golzinho ou um Corsa, porque gasto menos gasolina, estaciono com mais facilidade e tenho menos chances de ser assaltado.

O que está em jogo quando falamos em home studios é a relação custo/benefício dos equipamentos e programas, que garante a uma grande parcela de usuários o acesso aos bens de produção cultural.

Os sistemas abertos

Existe uma grande variedade de programas e interfaces para gravação de áudio e produção musical, desenvolvidos tanto para Windows quanto para Macintosh. Vários deles têm a relação sinal/ruído e a taxa de distorção equivalentes às do Pro Tools. Também operam em 16 ou 24 bits e alcançam as taxas de amostragem de 96 ou 192 kHz. Ou seja, qualidade de som equivalente.

Quanto aos recursos, vários desses programas também têm uma janela com as pistas, ou track view, e outra com uma mesa de som virtual, ou console view. Têm compatibilidade com um grande número de plug-ins e sintetizadores virtuais, além do recurso Re-Wire que os sincroniza (tanto áudio quanto MIDI) a programas como o Reason. Algumas dessas placas de som, além de ótimos conversores AD/DA, têm DSP para acelerar o processamento do áudio, conectores digitais e analógicos multicanais, interfaces em rack, sejam PCI, USB ou Firewire e aceitam expansões.

Placas e programas

Essas interfaces e esses programas são totalmente compatíveis entre as diversas marcas. Há muitas fábricas e modelos dessas placas, dentre os quais a Aark24 e a Direct Pro 24/96 da Aardvark, a CardDeluxe da Digital Audio Labs, a Layla24, a Mona e a Gina24 da Echo, a Dakota, a Montana e a WaveCenter da Frontier Design, a 2408 e a 828 da Mark of the Unicorn, a Delta 1010, a Delta 66 e a Audiophile da M-Audio, a Prodif 96 Pro e a Siena da SEK’D, a EWS 88 MT e a EWS 88 D da Terratec e a Yamaha DSP Factory.

Há placas ou interfaces de som com dois canais, com quatro e com oito canais, de acordo com as necessidades e o orçamento de cada um, mas elas aceitam expansões ou outras placas, se você quiser gravar uma big band ao vivo para mixar depois em casa, por exemplo. E o custo delas, no Brasil, fica entre 200 e mil dólares. Os programas também têm custo acessível. Você encontra todos eles nas boas lojas de música.

Os programas que fazem gravação, edição e mixagem são, entre outros, o Cool Edit da Syntrillium (PC), o Cubase da Steinberg (PC/Mac), o Logic da Emagic (Mac), o Performer da MOTU (Mac), o Samplitude da Magix (PC), o SAW da IQS (PC), o Sonar da Cakewalk (PC) e o Vegas da Sonic Foundry (PC). Estes fabricantes podem ser visitados na Internet através da página “Links” do site <www.homestudio.com.br>.

Além de suportarem todos esses programas, muitas das interfaces citadas acima rodam os incríveis samplers e sintetizadores virtuais GigaStudio da Tascam e Reason da Propellerhead, programas de edição de loops e produção de música eletrônica como o ACID da Sonic Foundry, conversores de MP3 e centenas de programas de edição de áudio, masterização, seqüenciadores MIDI, web rádios e queimadores de CD. E de quebra, se você fizer muita questão, elas ainda rodam os seus jogos, o que não aconselho.

A questão que se coloca é a opção, para um pequeno estúdio, entre um sistema fechado, com “um programa para uma placa e uma placa para um programa” e um sistema aberto, em que o usuário tem mais liberdade de escolha. Pode experimentar diversos programas concorrentes, bastando instalá-los, sem ter que substituir o seu hardware a cada mudança. A placa de uma marca, o programa de gravação de outra, os plug ins de outras, todos rodando sem problemas, parecem combinar mais com as necessidades de compatibilidade e adequação ao caso específico de cada usuário de computadores de hoje em dia.

O discurso da exclusão

Quem investiu centenas de milhares de dólares num estúdio e sofre a súbita concorrência de centenas de milhares de novos estúdios mundo afora tem mesmo que tentar se defender. Para ele atualizar seu equipamento, levará uns bons anos até tudo se pagar, enquanto os pequenos atualizam seu software quase todo dia. Quando encontra um novo produtor, alguém que está se equipando pela primeira vez, ele não hesita e manda: - você tem que ter Pro Tools, tratamento acústico, microfones caríssimos, mesa Neve ou SSL, senão seu CD não vai vender.

Ou seja, se não gastar tanto dinheiro quanto eu, não vai adiantar nada você investir na profissão.

Porém, até mesmo dirigentes da indústria da comunicação, como o vice-presidente da SET - Sociedade de Engenharia de Televisão - e da Rede Record, Roberto Franco, têm reconhecido que "as fronteiras entre as soluções domésticas, institucionais e para o mercado broadcaster já não são tão claras e muitas vezes são imperceptíveis. Soluções de baixo custo e ao alcance de todos são capazes de atender demandas que antes exigiam soluções complexas e de alto custo."

- Para muitas aplicações, ensina ele, a tecnologia deixou de ser um diferencial competitivo. Neste momento, as barreiras para o lançamento e sustentação de uma aplicação ou negócio não são mais tecnológicas, mas dependem do conhecimento e do talento humano. A tecnologia parece ter chegado aonde a imaginação estava.

Perto de uma visão tão realista e atual como essa, observações do tipo "para ter estúdio tem que gastar muito dinheiro", ou "quem não tem Pro Tools tá por fora" soam totalmente ultrapassadas. Mas não podemos menosprezá-las: são mais que opiniões, são parte de um discurso que visa preservar um mercado.

O Discurso da Exclusão é praticado por gente das gravadoras e de grandes estúdios, mas é reproduzido principalmente por músicos e técnicos de som como nós. E o pior é que tem gente que acredita.

Quando tem como pagar, menos mal. Os de menor poder de compra é que são as maiores vítimas desse discurso. E até alguns que se apossam do discurso das empresas onde trabalham, como se as dificuldades delas se manterem no novo mercado fossem deles, também. Mas é o contrário: os novos estúdios chegam para expandir o mercado de trabalho dos bons técnicos, aqueles cuja opinião sempre será importante, num grande estúdio ou num home studio. Porque tem espaço pra todo mundo.

A música brasileira e o acesso aos bens de produção

A concentração da produção fonográfica nas mãos de algumas grandes gravadoras teve como resultado mais nefasto o afunilamento de toda a classe artística, chegando-se ao ponto de só serem gravados três ou quatro gêneros musicais num país de cultura tão plural como o Brasil. A produção independente liberta o compositor, o instrumentista, o intérprete e o técnico das amarras culturais a que nos vêm submetendo. Com o barateamento dos bens de produção cultural, entra em cena um exército de produtores musicais até então excluído do sistema das gravadoras tradicionais. Cada um gravando o seu próprio disco, criam a expectativa de um mercado bastante pulverizado nas mais diversas formas de expressão musical. Daí pra frente, é o talento de cada um.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na revista Áudio & Vídeo Digital em 2004