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Gravação e Edição no PC

X. Gravação do baixo, violão e guitarras

Sérgio Izecksohn


Nesta série, estamos produzindo a gravação de uma canção em todas as etapas, do esboço inicial até a distribuição. Para o seqüenciamento MIDI e a gravação multipista estamos usando como exemplo o programa Cakewalk Pro Audio. A partir deste artigo, vamos gravar as pistas de áudio, começando aqui pelo baixo, violão e guitarras.

Nas últimas edições, seqüenciamos primeiro as pistas guia e depois os instrumentos eletrônicos em definitivo. A bateria e o piano podem ser suficientes para que gravemos o baixo, a guitarra base ou o violão, um por um, em qualquer ordem. Assim, embora já tenhamos seqüenciado um baixo MIDI, vamos desligar seu som clicando em <Mute> na pista correspondente. Abrimos uma nova pista para registrar o áudio do baixo elétrico. Depois, gravaremos o violão e as guitarras.

Por que não gravamos todos ao mesmo tempo? Não seria uma economia de tempo? Gravar em separado não tiraria o calor da interpretação ao vivo? Como os músicos vão ouvir uns aos outros?

É claro que podemos gravar tudo junto. Para isso, precisamos de uma placa de som com vários canais de entrada. Endereçamos cada canal da mesa para uma diferente entrada da placa e no programa gravamos em cada pista o sinal de uma das entradas da placa, simultaneamente. Só que temos alguns inconvenientes.

O primeiro é o vazamento do áudio. Com vários instrumentos microfonados numa mesma sala, é inevitável que cada microfone capte os sons do instrumento à sua frente e também os sons dos outros. Depois, na mixagem, teremos problemas para controlar o volume e o timbre de cada um, já que em cada canal teremos uma “repetição” dos sons de outros canais.

O segundo inconveniente é dividirmos nossa atenção entre a captação e o registro (gravação) de todos esses sons ao mesmo tempo. Gravando um por um, temos controle total do processo, alem de eliminarmos os vazamentos dos sons. Ou seja, na mixagem, teremos cada som num canal.

Para garantirmos o suingue da interpretação coletiva, podemos primeiro gravar uma pista guia. Até mesmo com um só microfone, podemos captar toda a banda tocando junto. Depois, gravando individualmente, cada instrumentista ou cantor ouve no fone aquela pista e busca repetir a sua performance, como se estivesse tocando em grupo. Esta técnica não se aplica a alguns gêneros de jazz ou de música erudita, mas é bastante eficaz na maioria dos gêneros populares, inclusive MPB e rock. E já que gravamos em nossos próprios estúdios, a economia de tempo é uma prioridade menor. Até porque, com os canais “limpos”, pouparemos tempo na mixagem.

Portanto, as técnicas que vamos utilizar aqui para gravar um instrumento de cada vez podem ser praticadas simultaneamente, mandando cada canal para uma entrada da interface de áudio.

Captando os sons.
A partir do registro (áudio ou MIDI) de uma bateria e um instrumento de harmonia, como piano ou violão, podemos gravar logo o baixo elétrico. Ele pode ser plugado direto a um canal da mesa ou ser primeiro pré-amplificado, mas sempre ligado “em linha”, isto é, não microfonado. O volume do baixo fica no máximo.

O violão usará o mesmo microfone com que o estúdio capta voz, plugado a um canal da mesa, de preferência por cabo balanceado e conector Canon (ou XLR). Dependendo do porte do estúdio, pode ser um microfone dinâmico, como o Shure SM58, ou a condensador, como o AKG C414. Que ninguém se engane: a boca do violão é uma saída de ar e não de som. Quem produz o som, pondo o ar do ambiente para vibrar, como uma membrana, é o tampo do instrumento. Portanto, é o tampo que vamos microfonar, geralmente atrás do cavalete, talvez um pouco para baixo. Cada violão tem um som, afetado pela temperatura, umidade e outros fatores. Então, aproveitamos a folga de tempo que só um estúdio próprio fornece e experimentamos a posição ideal do microfone cada vez que vamos gravar um instrumento. Alguns captam o braço do violão com um segundo microfone, na vã tentativa de realçar o som das cordas. Tudo o que conseguem é cancelar a fase em algumas freqüências, ou, em bom português,  deformar o timbre. Repetindo: quem faz o som sair é o tampo do instrumento.

A guitarra é um caso mais complexo. Ela é um dos instrumentos mais difíceis de captar. Ligada à mesa em linha, muitas vezes soa artificial, como um zumbido. O som de um guitarrista é produzido pela guitarra, pedaleira de efeitos, amplificador e alto-falantes. Então, captamos um dos falantes com um microfone dinâmico, como o Shure SM57. Ele fica meio inclinado, apontado para o meio de um raio do cone. A posição ideal do microfone será aquela que soar melhor após experimentarmos várias opções e ouvi-las. Uma boa prática é gravar a guitarra sem o efeito de reverberação, deixando para incluí-lo na mixagem.

O amplificador da guitarra pode ficar isolado, por exemplo, num outro cômodo da casa. O guitarrista pode tocar na sala de controle (técnica), ouvindo o som da guitarra misturado aos outros pelos monitores do estúdio. Primeiro, ele ajusta o timbre no amplificador. Depois, na sala de controle, ajustamos os equalizadores do canal de entrada para que a guitarra tenha o mesmo timbre (ou o mais parecido possível) nos monitores.

Passando o som.
Alguns instrumentos e microfones têm mais nível de saída que outros, por isso ajustamos o ganho (trim) do canal da mesa para cada gravação. Com o volume ajustado no fader em zero decibel, movemos o controle de ganho para a direita enquanto o instrumentista toca o trecho mais forte da música até que o LED atinja o seu ponto mais alto, sem deixar distorcer o som. Atenção para o fato desta operação ser feita com os olhos e os ouvidos. O objetivo é encher o canal de som, aproveitando ao máximo sua dinâmica e evitando ruídos da captação.

Ajustado o nível do instrumento na entrada da mesa, agora vamos controlar a saída para gravação. Podemos controlar o volume de entrada no Cakewalk com o mouse, através de um fader virtual. Ou então, nas mesas que têm subgrupos de canais (os grupos, bus ou submasters), controlamos este nível através de um fader real, o que, convenhamos, é bem mais confortável. Vejamos os dois casos.

Nas mesas mais simples, escolha um canal com saída direta, conecte ali um plugue banana ou P10 (1/4”) e a outra ponta do cabo é ligada a uma entrada da placa de som. Se os formatos forem diferentes, solde o conector apropriado em cada extremidade do fio. Na pista do Cakewalk, escolha na coluna <Source> a entrada da placa de som por onde o som vai entrar. Então, clique no botão <Arm> ou <R> para preparar a pista para a gravação. O botão ficará vermelho. Abra a mesa virtual clicando em <View> e em <Console>. Nesta tela, cada pista já gravada ou seqüenciada tem a aparência de um canal. Nos canais à esquerda, localize aquele que tem um LED ao lado do fader. Confira que é o canal do instrumento a gravar. Com o músico executando o trecho mais forte da canção, ajuste o nível ideal arrastando o mouse sobre o fader. Jamais tente ultrapassar o nível de zero dB em sistemas digitais, devido ao desagradável ruído produzido.

Numa mesa feita para gravação, podemos enviar o som do instrumento através de um submaster. Endereçamos o som do canal de entrada para o submaster 1, por exemplo, apertando o botão 1-2 ao lado do fader do canal e girando o botão de pan todo para a esquerda. Ligamos a saída direta do submaster 1 à entrada 1 da placa de som. Observamos o movimento do LED do canal da mesa virtual do Cakewalk, deixando o fader em zero dB e controlamos o volume pelo submaster da mesa física.

Ajustado o nível durante a passagem de som, não devemos mexer nesses controles durante a gravação. Se algum deles precisar de novo ajuste, faremos isto primeiro e só depois realizaremos o registro definitivo do instrumento.

Monitorando.
O som de cada pista que gravamos tem que retornar à mesa para ser enviado às caixas de som. Na janela <Track>, na coluna <Port> da pista desejada, escolhemos uma saída da placa de som. Também conectamos esta saída da interface à entrada de um canal na mesa, enviando seu som para os canais master. Podemos mexer à vontade nos níveis deste canal, já que seus controles só afetam nossa monitoração.

Gravando.
Aqui, agimos com já foi visto nos artigos anteriores. Usamos as teclas <R> para gravar, <Espaço> para parar e ouvir e <W> para voltar ao início. Podemos gravar a música toda de uma vez ou uma parte de cada vez, com o auxílio dos marcadores. Gravamos separadamente cada guitarra: base numa pista, solo em outra, acréscimos em outras, passando o som todas as vezes.

Por enquanto, não precisamos nos preocupar com compressão, equalização e efeitos. Deixemos estas etapas para a edição e a mixagem. No próximo artigo, vamos gravar as vozes. 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2000