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Estúdios Pessoais para os Guitarristas

Sérgio Izecksohn

Se você acordar no meio da noite com uma idéia musical inteiramente nova, como fará para não esquecê-la quando voltar a dormir? Todo guitarrista, nos momentos de estudo e criação, se depara com uma necessidade: como dispor de uma banda permanente, que toque as bases rítmicas e harmônicas, para viabilizar sua prática de composição, arranjo e improvisação? A resposta está nos home studios: um conjunto de equipamentos e/ou programas de computador que substituem a presença de uma banda nos momentos de estudo e servem também para a gravação de demonstrações e até de produções mais profissionais. Muitos CDs e trilhas sonoras com sucesso no mercado têm sido produzidos inteiramente em home studios.
 
O guitarrista brasileiro, especialmente o dos grandes centros urbanos, tem hoje muitas opções para montar o seu home studio. As lojas de música e de informática oferecem diferentes tecnologias, todas apresentadas como sendo a última palavra em gravação. Áudio gravado em fita analógica ou digital? MIDI? Gravação no computador? Em meio a tantas variáveis, nem sempre é fácil escolher o melhor caminho. E depois de escolhido o meio de gravação, ainda restam muitas opções de cada item, até chegar o momento de apertar as teclas PLAY e REC. Neste e nos próximos artigos desta seção, estaremos buscando ajudá-lo a escolher e operar os equipamentos e programas de gravação do seu estúdio.
 
Montar um home studio implica em equilibrar uma série de fatores. De acordo com os objetivos, capital, espaço, clientela ou necessidades pessoais, surgem inúmeras opções de equipamento e de projetos de tratamento acústico para quem vai “se equipar”. Nada é pior que constatar erros de planejamento depois de realizado o investimento, como uma obra de isolamento acústico que não isola, ou a compra de aparelhos desnecessários ou obsoletos. Antes de comprar, devemos colocar na balança todas as necessidades e possibilidades, e aí fazer uma lista de todos os itens, com modelos e preços compatíveis.
 
Para facilitar as coisas, vamos definir três níveis de home studios:
 
O básico pode começar usando um porta-estúdio (gravador de 4 ou 8 pistas com mesa de som) em cassete ou MD, como os modelos da Yamaha, Tascam, Fostex ou Sony, uma mesa de som de 8, 12 ou 16 canais (Behringer, Mackie ou Soundcraft), um ou dois microfones Shure SM57 ou SM58 e pedestais, reverberador (pode ser o seu rack de efeitos ou pedaleira), deck cassete ou MiniDisk, amplificador e caixas acústicas (geralmente a solução inicial é o aparelho de som doméstico, se for de boa qualidade). O estúdio MIDI deste nível usa um seqüenciador (no PC, como o Cakewalk, ou em hardware, como os da Roland ou Yamaha) e um sintetizador multitimbral. Este pode ser um rack, da Roland, Yamaha ou Korg, ou um teclado com ou sem seqüenciador (workstation). A sua guitarra ganhará um captador/conversor MIDI (Roland ou Yamaha) para que você possa tocar o sintetizador e seqüenciar as músicas sem precisar usar sempre o teclado. Este estúdio custa entre 4 e 6 mil dólares e você pode ir adquirindo os equipamentos aos poucos, usando o que já possuir. Se for só de áudio ou só MIDI, custa cerca da metade.
 


O estúdio intermediário usa um sistema de gravação de áudio digital em oito ou 16 pistas, em fita de vídeo (Alesis ADAT-XT ou Tascam DA-88) ou em hard disk. Neste caso, pode ser via computador, um Pentium ou Pentium II com pelo menos 64 megabytes de memória e HD de 2 gigabytes com um gravador em software (Cakewalk, Cubase, Logic, Sound Forge) e uma boa interface de áudio ou placa de som (Layla, Gina, Audiomedia 3); ou você pode gravar num HD sem um computador, num gravador físico (Roland, Fostex, E-Mu). A gravação em HD é mais cara que os gravadores de fita, trazendo contudo muitos recursos de edição. A sua guitarra agora é gravada muito bem amplificada, sendo que pode ser microfonada ou ligada em linha através de um pre-amp  a válvula, de preferência da Mesa Boogie ou da Marshall. Outros investimentos, neste nível, são módulos de som (sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas), interface MIDI/Sync para ligar os teclados ao computador e para sincronizar o computador ao gravador multipista, uma mesa de 16 ou 24 canais com conectores XLR (Canon), da Behringer, Mackie, Tascam ou Yamaha, microfones para vozes e instrumentos (AKG C-3000 e Shure SM-57), reverberadores (Lexicon, Yamaha, Alesis), compressores (Dbx, Alesis), noise gate, equalizador, DAT ou MiniDisk, amplificador e monitores de estúdio Yamaha, Alesis ou JBL. Um projeto de isolamento e tratamento acústico melhora a gravação e a mixagem. Estes recursos permitem boas gravações para CDs independentes ou publicidade, com um custo em torno dos 10 mil dólares.

O home studio avançado, apto a oferecer qualquer serviço de gravação profissional, adiciona uma mesa de gravação (Mackie, Soundcraft, Tascam, Yamaha) com 32 ou mais canais de entrada/saída e oito submasters, automação e patch bay, um sistema de gravação digital (24 pistas) em fita de vídeo (ADAT, DA-88) ou computador (Power Mac com Pro Tools), dois sistemas de monitoração com amplificadores e caixas profissionais para gravação e mixagem, processadores (equalizadores, compressores Dbx, reverberadores Lexicon e Yamaha, multi-efeitos, Vocalist, enhancers etc.), distribuidores para uns 10 headphones, vários microfones (Neumann U87, AKG C-414, Shure SM-57, SM-94, Audio Technica 4049, Sennheiser MD 421U, Eletro Voice RE 20) e cabos de qualidade. O sistema MIDI se  expande com uma interface de oito portas (8 Port SE, MIDI Time Piece, Studio 5 etc.) para o Pentium ou o Mac, teclado controlador Kurzweil ou Ensoniq, sintetizadores Korg Trinity, Kurzweil K2500, Roland JV-2080, Ensoniq, samplers (Akai, E-Mu, Roland, Yamaha). A bateria pode ser acústica (microfonada) e/ou trigada ao sampler. Este estúdio é o sonho de consumo de todo músico e todo produtor. Sonho realizado por aqueles que podem desembolsar entre 25 e 50 mil dólares para montá-lo. Daí para cima, saímos da categoria de home studios. Os maiores estúdios brasileiros chegam a custar mais de 10 milhões de dólares!

Conclusões. São muitas opções em cada item do estúdio, e todas são boas, dependendo só de suas necessidades e possibilidades. O que importa é fazer um projeto coerente, dosando as reais necessidades de acordo com suas condições e metas. Vale começar com um estúdio mais simples e depois ir evoluindo de acordo com a sua trajetória. 
 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na revista Guitar em 1998