A Escola | Cursos | Professores | Artigos | Links
 


SEQÜENCIADORES MIDI

Sérgio Izecksohn

As múltiplas utilidades da interface MIDI têm nos seqüenciadores sua mais completa tradução. Em forma de aparelhos dedicados, programas de computador ou como integrantes de teclados workstations, os seqüenciadores, em pouco tempo, tornaram-se tão imprescindíveis quanto os gravadores multipista. Os softwares evoluíram tanto que passaram a incorporar os próprios gravadores entre seus recursos.

Um seqüenciador registra ao longo do tempo os comandos MIDI executados pelo músico num instrumento controlador. Assim, ele pode executar esses mesmos comandos (notas e outros) no mesmo ritmo em que foram tocados, funcionando como uma mão invisível que toca os sintetizadores, todos de uma vez.

O seqüenciador não grava os sons, mas apenas comandos musicais. Quando “gravamos”, ou seqüenciamos, tocamos num controlador, que pode ser um teclado ou outro. O seqüenciador registra todos os movimentos do músico no instrumento, como notas, dinâmica, pedais e outros controles. Esses comandos são armazenados em pistas MIDI, exatamente como em um gravador de áudio. Cada pista costuma ser associada a um canal MIDI. Tocando a pista, o seqüenciador executa a música no sintetizador que estiver recebendo aquele canal.

Como o que é registrado são comandos e não sons, podemos executar a música num sintetizador diferente daquele usado na gravação. Ou seja, gravamos com um timbre e, querendo, ouvimos outro. Também podemos facilmente mudar o tom e/ou o andamento da música. Passagens mais difíceis podem ser seqüenciadas mais devagar e depois ser aceleradas. Com a edição, aperfeiçoamos a execução do músico, corrigindo notas, copiando e colando trechos, além de muitas outras funções.

O processo de criação musical fica muito facilitado com o seqüenciador. Editando cada nota ou cada trecho com relativa facilidade, compomos ou arranjamos ouvindo na hora nossas idéias já com os timbres desejados. Selecionamos os timbres, após a gravação, ouvindo a música com sons diferentes até escolher a sonoridade ideal. A cópia e a colagem dos trechos nos permite definir a forma das canções enquanto ouvimos cada opção.

Os sons dos instrumentos eletrônicos seqüenciados não precisam ser registrados no gravador multipista. Os dois aparelhos, facilmente sincronizáveis, atuam juntos na gravação e na mixagem. Economizando diversas pistas de áudio, temos uma real expansão dos canais do estúdio, já que o gravador só será usado para armazenar vozes e instrumentos não-eletrônicos. Na mixagem, temos na mesa tanto os sons das pistas de áudio como dos sintetizadores. Estes são plugados diretamente na mesa, mixados ainda soando em primeira geração. Enquanto os sons “acústicos” são gravados duas vezes (multipista e mixagem estéreo), os sons eletrônicos são mixados “ao vivo”, preservando sua qualidade.

Mesmo nos modernos programas que são ao mesmo tempo seqüenciadores e gravadores multipista, não precisamos gravar o áudio dos teclados. Podemos mixar na mesa, da mesma forma, as pistas de áudio com os sons dos sintetizadores. Isto proporciona grande economia de espaço no HD, já que o áudio é um voraz consumidor de memória.

Os arquivos seqüenciados são levíssimos, como um arquivo-texto. Já que os sons são sempre gerados pelos instrumentos, mesmo depois de “gravados”, o seqüenciador só arquiva comandos como, por exemplo, pressionar e soltar cada tecla. Sem gravar o som, o seqüenciador só registra dois comandos simples: note on (pressionar) e note off (soltar). A força do toque é definida por outro comando (velocity), simultâneo ao note on. No momento exato da música, os comandos são executados pelo seqüenciador no sintetizador, exatamente como o músico havia tocado. O som, gerado pelo instrumento, não ocupa nenhum espaço na memória.

Múltiplos sons de um arranjo musical podem ser seqüenciados quando usamos vários sintetizadores ou um instrumento multitimbral, que toca vários canais MIDI ao mesmo tempo. Nos dois casos, cada som é comandado por um diferente canal MIDI. Podemos assim registrar um arranjo com muitos “instrumentos” sem gastar uma pista sequer do gravador de áudio.

Com todos esses recursos, o seqüenciador cedo adquiriu status equivalente ao do gravador multipista. Um estúdio que produza exclusivamente música eletrônica nem precisará adquirir esse gravador. Mixando na mesa o som direto dos sintetizadores, samplers e baterias eletrônicas, o estúdio usará somente o gravador estéreo, para registrar o resultado final.

Mais do que em estúdios de grande porte, o seqüenciador é imprescindível no home studio. Todos aqueles instrumentos que sejam difíceis ou impossíveis de gravar, como uma orquestra ou, em muitos casos, a bateria, podem ser substituídos por sons eletrônicos facilmente seqüenciados. Lado a lado com os aparelhos de áudio como a mesa, os gravadores e os processadores de efeitos, encontramos o equipamento MIDI: seqüenciador, instrumento controlador e instrumentos escravos, os geradores de som (sintetizadores e samplers).

O estúdio MIDI. Em média o equipamento MIDI ocupa a metade do espaço de um home studio. O seqüenciador pode ser em software ou em hardware. No primeiro caso, além do programa, o computador precisará de uma interface MIDI para ser conectado aos instrumentos. Da outra forma, os instrumentos são conectados diretamente ao seqüenciador.

Para tocarmos os trechos que serão seqüenciados, usamos um instrumento controlador. Pode ser um teclado, uma guitarra MIDI, pads de percussão eletrônica ou outros formatos. Geralmente, tocamos no controlador e depois editamos os detalhes no seqüenciador. Alguns músicos conseguem produzir toda a música adicionando as notas passo a passo em vez de tocar, usando, por exemplo, o mouse.

Os sons são gerados por diversos tipos de instrumentos eletrônicos, aqui chamados de escravos. Eles podem ter a forma de teclados, módulos, racks ou placas de multimídia. Os geradores de sons, independente do formato do instrumento, podem ser sintetizadores, samplers ou presets.

As workstations de teclado resumem todas essas funções num único aparelho: um teclado com sintetizador multitimbral, seqüenciador e um drive para armazenar os arquivos em disquete. Os mais populares são feitos pela Korg, Roland, Yamaha e Ensoniq. Alguns, como o Kurzweil K2600 e o Korg Triton, acumulam os processos de geração de sons por sintetizador e sampler. Há também workstations sem teclado, com o seqüenciador e o gerador de sons. Para usá-las precisamos de um instrumento controlador.

É, contudo, mais conveniente o estúdio usar um seqüenciador em software. No computador, a edição é muito mais complexa e ao mesmo tempo mais fácil de operar, com o uso das telas de edição gráfica. Com os preços dos computadores caindo vertiginosamente e com o baixo consumo de memória dos comandos MIDI, que podem usar qualquer computador, por mais simples que seja, pode sair até menos dispendioso o uso de um PC que a aquisição de muitas workstations.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2001