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O DVD-Audio na bola de cristal


Sérgio Izecksohn
 



Quem já assistiu a um filme em DVD-Video certamente não esqueceu as diferenças entre o formato e o velho VHS. A queda dos preços e o lançamento de muitos títulos em DVD esquentaram tanto as vendas que os DVD players se esgotaram no último Natal nas lojas das grandes cidades brasileiras. Só que esse magnífico aparelho pode já estar com os dias contados. Não que o formato DVD-Video seja carta fora do baralho, mas os aparelhos atuais não suportam o novo formato DVD-Audio, que continuará a tocar os mesmos filmes que já tomaram prateleiras de lojas e locadoras e também os fantásticos discos DVD-Audio, com qualidade de som insuperável até aqui.

Por enquanto, não precisa haver pressa. Ninguém tem que correr a ligar para jornais de classificados para se livrar da novíssima velharia. O formato, com vantagens indiscutíveis sobre o atual, ainda tem seu futuro incerto.

O DVD-Video foi definido em 1996 pelo DVD Forum. Após anos de entendimentos entre a indústria fonográfica e os fabricantes de equipamentos, incluindo exigências de proteção autoral e medidas antipirataria, o fórum lançou as especificações do DVD-Audio em 1999.

A supremacia técnica do novo formato. A vantagem mais visível sobre o CD comum de áudio que usamos hoje é que o DVD comporta muito mais informação. Um DVD feito de uma camada simples contém 4,7 GB, o de camada dupla chega a 8,5 GB e o DVD de dois lados com camada dupla vai a 17 GB de dados. Devido ao volume de informação que cabe num DVD-Audio, sua fidelidade sonora supera tanto o CD quanto o DVD-Video usados hoje. Ele oferece mais tempo para o material gravado. Por exemplo, enquanto o CD só alcança 74 minutos e usa dois canais, um DVD-Audio mixado em 6 canais em 96 kHz e 16 bits atinge 160 minutos. Ou pode conter 8 horas e meia de material na qualidade do CD. E ainda dispõe de vários extras, como imagens, vídeos, textos e menus interativos, visualizados num televisor do mesmo modo que com o DVD-Video.

O CD tem uma faixa dinâmica razoavelmente larga, de 96dB, mas o DVD-Audio alcança 144dB. Com seus 24 bits em oposição aos 16 bits do CD, a resolução da quantização do DVD-Audio é 256 vezes maior. E, podendo atingir a taxa de amostragem de 192kHz, não corta altas freqüências como o CD, que usa 44.1kHz. A maior definição dos agudos resulta numa sonoridade bem mais brilhante e viva.

Sobre o DVD-Video, o novo formato tem como principal vantagem trabalhar com áudio sem compressão, como Dolby Digital e DTS. E ele tem uma taxa de transferência mais alta: 9.6Mb/s (megabits por segundo) contra 6.144Mb/s. O DVD-Audio pode também ser tocado num aparelho reprodutor só de áudio, como os modelos para automóveis, sendo aí reproduzido faixa a faixa, como um CD. Ele pode utilizar várias taxas de amostragem, a partir de 44.1kHz. E registrar os dados em 16, 20 ou 24 bits. Na distribuição dos canais de áudio, como nas mixagens para seis canais em surround 5.1, os canais podem usar diferentes taxas de amostragem. Em 192kHz, contudo, só dois canais são utilizados. Em suma, melhor som e mais versatilidade que o DVD-Video.

Outra vantagem, mais discutível, é a proteção contra cópias digitais e a marca d’água, uma exigência da indústria fonográfica no desenvolvimento do novo formato. A quebra de proteção do DVD-Video por programas como o DeCSS levou os desenvolvedores a uma maior preocupação antipirataria. Só que os movimentos pela liberdade de expressão digital, como a Fundação da Fronteira Eletrônica (EFF, na sigla em inglês), já estão em guerra aberta contra essa, segundo eles, violação do direito do usuário ao rearmazenamento de arquivos que lhe pertencem, entre outros questionamentos judiciais. Na comunidade da informática, em todo caso, prevalece a impressão de que o lançamento de cada novo sistema de proteção vem sempre acompanhado de uma posterior quebra de proteção.

Expectativas. As frustrações que o DVD-Audio traz ao mercado são: quem adquiriu recentemente um DVD-Video player corre o risco de ver seu objeto de consumo se tornar ultrapassado em muito menos tempo do que se podia supor, já que ele não tocará os discos do novo formato, fora poucos modelos compatíveis; para curtir todo o poder sonoro do novo brinquedo o usuário terá que adquirir um receiver com seis entradas de áudio e conversão de 192kHz e 24 bits, recurso encontrado até agora em raros e caros modelos ‘top’, além dos seis monitores surround.

Vários executivos da indústria acreditam que, a médio prazo, o DVD-Audio tenha o mesmo potencial de sucesso demonstrado pelo DVD-Video, que os custos cairão e que o formato se tornará um padrão nos players de DVD-Video, que serão compatíveis com ele. Por enquanto, para Sérgio Murilo, da DVD Master, pioneiro em DVD-Audio no Brasil, “tudo ainda é experimental”. Outros não vêm muito futuro para a nova tecnologia. Para Simon Gibson, experiente engenheiro dos estúdios Abbey Road, de Londres, “as pessoas podem perceber a diferença entre som estéreo e som surround, justamente porque neste último há sons que vêm de trás. Mas dificilmente perceberão a diferença entre o sinal comprimido em Dolby Digital AC-3, do DVD-Video, e o som sem compressão de um DVD-Audio, a menos que tenham excelentes ouvidos e equipamento.”

Até agora, pouquíssimos modelos de players de DVD-Audio/Video foram lançados no exterior. A Matsushita lançou dois, um com a marca Technics, por US$1000, e outro, pela Panasonic, custando US$800. Eles tocam discos DVD-Audio, DVD-Video, vídeo-CDs, e CDs de áudio comuns. São equipamentos voltados para usuários que buscam a mais alta qualidade possível de som e imagem, tudo num só produto. Outras empresas, como a Denon e a Kenwood, prometem novidades. Os fabricantes planejam lançar modelos portáteis e também para automóveis.

Os obstáculos na marcha do DVD-Audio rumo ao sucesso ainda são fortes, mas não intransponíveis. Os primeiros proprietários de players até agora, não encontram sequer um título nas lojas. Das cinco majors, as grandes gravadoras que controlam o mercado fonográfico mundial, BMG, Sony, EMI e Universal se mostram hesitantes em anunciar lançamentos. Só a Warner tem apostado no formato com mais decisão, dando o pontapé inicial no lançamento de títulos. A paranóia da pirataria tem paralisado esta indústria em vários momentos críticos deste período de tantas mudanças tecnológicas e comportamentais. E o DVD-Audio só vai vingar quando todas as cinco companhias o adotarem completamente. Quem vai comprar um player para o qual não há títulos no mercado?

Outro problema é que a maioria dos consumidores recentes de DVD-Video ainda não estão suficientemente equipados para os benefícios do DVD-Audio, o que demanda um pesado investimento no receiver 192kHz/24 bits e nos seis monitores de som surround.

Para complicar, por enquanto nada garante a padronização do DVD-Audio como formato de disco digital. Simultaneamente, a Sony e a Philips estão tentando emplacar o Super Audio CD (SACD), que soa semelhante ao DVD-Audio com seus 100kHz e 120dB de dinâmica, texto e gráficos, mas sem vídeo. Os discos, com algumas dezenas de títulos da Sony já à venda, só rodam em aparelhos SACD players da Sony ou da Philips. Será o novo Betamax, o videocassete que veio para não ficar? Só o tempo dirá. E há outros formatos em desenvolvimento. Fala-se num disco do tamanho do CD com um terabyte (1000GB) para um futuro não muito distante.

Como é o som. Em testes comparativos, realizados para o site Equip <http://equip.zdnet.com/theater/dvd/feature/18abe/>, Noel Morrison usou um player DVD-Audio Technics DVD-A10 com um receiver Denon AVR-681 com caixas Energy Audissey APS5+2 na frente e Energy RVSS surround atrás. Usando um disco DVD-Audio de demonstração, já que não encontrou sequer um título à venda nas lojas, ele experimentou primeiro uma faixa de Jazz com dois canais e som em 192kHz e 24 bits. Segundo ele, “os falantes emitiram um som cheio e vibrante que era seco e limpo, com uma qualidade quente definida”. Comparando, colocou um CD comum no player e notou que, com um receiver respeitável e bons monitores, ele também soava excelente. O disco DVD-Audio soava, principalmente, mais vivo, “como se nós estivéssemos efetivamente em um jazz club”. Para ele, no entanto, embora o disco DVD-Audio soasse um pouco mais brilhante que o CD, a diferença foi muito menos significativa do que se poderia supor, levando em conta a imensa diferença na capacidade de armazenamento.

Em seguida, conectando o DVD-A10 a um receiver Parasound HCA2205, escolheu uma versão em seis canais, 96kHz e 24 bits da Toccata e Fuga em Ré Menor, de Bach. “A qualidade excepcional do DVD-Audio se tornou especialmente aparente no modo de seis canais, criando um campo sonoro totalmente tridimensional. Podíamos ouvir o ar passando através dos tubos do órgão; era como se estivéssemos sentados entre as paredes de uma capela”, enfatiza ele.

Grave seu DVD em casa. O grande (e único) problema aqui é o custo. Para autorar o seu próprio DVD, há ferramentas disponíveis em vários níveis. Por exemplo, os novos Macintosh G4, que alcançam 733MHz, estão chegando com dois programas de autoração e a opção do Superdrive de DVD-R e CDRW. O iDVD é um programa para iniciantes, que vem instalado no G4 733, e o DVD Studio Pro será vendido para usuários avançados. Com ferramentas poderosas, os brinquedos caros (um G4733 custa R$11.900,00) podem transformar o usuário em um profissional de autoração. O DVD Studio Pro custará cerca de R$2.000,00.

Mas o problema do alto custo pode ser uma mera questão de tempo e essa tecnologia pode atingir os PCs antes do que se espera, o que generalizaria a produção de DVDs independentes. Após perder a exclusividade na produção e distribuição de CDs desde o lançamento, há anos, do CD-R (um ícone da produção independente, como o MP3), a indústria fonográfica talvez tenha que enfrentar o mundo em um novo round, desta vez no front da produção de DVDs.

Os passos na produção de um DVD, de modo geral, consistem em:

  • Capturar o áudio e o vídeo para um formato digital.

  • Editar o conteúdo.

  • Criar e importar elementos gráficos.

  • Converter os arquivos visuais no formato MPEG2 usando um programa ou, para melhores resultados e para quem pode investir, usando suporte em hardware.

  • Converter os arquivos sonoros para o formato desejado e, se for o caso, realizar uma mixagem em surround.

  • Autorar (ou desenhar, programar) o disco através de um número crescente de programas. Consiste na arrumação de todos os elementos visando a máxima interatividade para o usuário final, procedimento semelhante à confecção de um web site ou um CD-ROM multimídia.

  • Queimar um DVD master para replicação ou salvar tudo num drive ou outro meio digital de armazenamento e encaminhar a uma fábrica ou uma copiadora de DVDs.

É claro que são passos que requerem diversas habilidades e dinheiro. Mas se diziam coisas parecidas da edição não-linear há pouco tempo.

Formatos de DVD. Temos ao todo sete tipos de DVD. O DVD-ROM, que armazena arquivos de modo geral, o DVD-Video,  o DVD-Audio e os DVDs graváveis, que são o DVD-R, o DVD-RW (o mais versátil, lançado pela Pioneer no Japão, chegando este ano aos EUA), o DVD+RW (formato proprietário de um mini-consórcio formado pela Sony, a Philips e a Hewlett Packard) e o DVD-RAM, que funciona num computador desktop como um drive normal, mas removível. Rápido como um HD, grava 5.2GB em discos de 30 dólares e custa cerca de US$500 no mercado norte-americano.


 
O DVR-1000 da Pioneer, um DVD-RW, custa US$2.300 nos EUA 

O Futuro. É possível que o sucesso do DVD-Audio, se acontecer, venha a ser calcado mais nos recursos extras, como letras de músicas na tela, vídeo clips, fotos e menus interativos, do que na melhor qualidade sonora. Por mais que seja um avanço para audiófilos, a indústria não tem neste grupo um mercado potencial que banque a transição. Somente quando as grandes empresas fonográficas apostarem em peso no formato, lançando coleções expressivas de títulos, e os preços dos equipamentos caírem, a grande massa de consumidores vai poder mostrar o que quer.

Olhando para dentro da bola de cristal, vemos um pequeno disco cintilante, com grande poder de armazenamento. Um disco capaz de expandir a mente humana no sentido da criação ilimitada e multidisciplinar. Dificilmente, desta vez, as grandes corporações permanecerão sozinhas na produção e comercialização da arte, como ocorreu durante o século XX graças ao disco de vinil e aos meios de comunicação de então. A força do mercado de informática, o gigantesco tráfego de informação gerado pela internet e uma crescente tomada de consciência dos artistas, intérpretes, criadores e do público consumidor de seu papel de sujeitos do processo artístico, e não mais de objetos, vêm trazendo grandes e importantes mudanças.

Mas ainda não dá para ver a verdadeira natureza do pequeno disco. Pode ser um DVD-Audio, um SACD, um DVD-Video ou mesmo um velho CD que insiste mais um pouco em continuar a girar, impulsionado por uma força maior, o mercado .


Foram definidas duas versões de DVD-Audio, uma só de áudio e outra com áudio e vídeo.
Incluindo o DVD-Video, temos ao todo três formatos:

Formato

Conteúdo

Onde toca

DVD-Audio (sem vídeo)

Disco de áudio com texto opcional, menus e figuras, mas sem vídeo

Players só de áudio, DVD-Audio e universais

DVD-Audio (com conteúdo de vídeo)

Um DVD-Audio com uma seção em DVD-Video

Players universais e DVD-Video (só a parte de vídeo)

DVD-Video

Vídeo sem conteúdo em DVD-Audio

Players universais e DVD-Video 

 

 

 

 

 

 
Todos os discos DVD-Audio também vão tocar em players só de áudio semelhantes aos CDs de carro, sem tela

A especificação do DVD-Audio permite codificar o som estéreo e multicanais em vários formatos, com diversas opções. Os objetos de vídeo usam a mesma codificação de áudio que os discos DVD-Video

 

Áudio

Vídeo

Modos de codificação

LPCM ou MLP

LPCM ou Dolby Digital

Taxas de amostragem (kHz)

44.1/48/88.2/96/176.4/192

48/96

Bits por amostra

16/20/24

16/20/24

Máximo de canais

6 (até 96 kHz)
2 (até 176.4/192 kHz)

6 ou 8

Taxa máxima de transferência

9.6 Mb/s (para LPCM)

6.144

O DVD-Audio pode usar taxas de amostragem de até 192kHz para som estéreo e até 96kHz para 6 canais de som surround. Uma faixa de freqüências que alcança até 96kHz e uma relação sinal/ruído que chega a 144 dB.

Para aumentar o tempo de reprodução de um disco DVD-Audio a pelo menos 74 minutos na qualidade máxima, foi adotado o padrão de codificação MLP, a despeito do PCM. O MLP é fácil de implementar e não altera em nada o sinal decodificado, consumindo pouco processamento, mesmo com 6 canais em 24bit/96kHz.

A tabela compara tempos de reprodução com e sem MLP em vários exemplos de configurações de áudio.

Combinação do áudio

Configuração

Tempo de reprodução (minutos) em discos de camada simples

Tempo de reprodução (minutos) em discos de camada dupla

PCM

MLP

PCM

MLP

2 canais

48kHz, 24bits, 2ch

258

409

469

740

2 canais

192kHz, 24bits, 2ch

64

119

117

215

6 canais

96kHz, 16bits, 6ch

64

201

117

364

5 canais

96kHz, 20bits, 5ch

61

137

112

248

2 canais & 5 canais

96kHz, 24bits, 2ch +
96kHz, 24bits, 3ch &
48kHz, 24bits, 2ch

43 cada

79 cada

78 cada

144 cada

O último exemplo usa dois grupos de canais com taxa de amostragem mais baixa para os canais surround, obtendo maior tempo de reprodução.

Referências:

Disctronics Manufacturing - www.dvd-audio.co.uk

Equip – http://equip.zdnet.com/theater/dvd/feature/18abe

Electronic Frontier Foundation - www.eff.org


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2001