Quem já assistiu a um filme em DVD-Video certamente não
esqueceu as diferenças entre o formato e o velho VHS. A
queda dos preços e o lançamento de muitos títulos em DVD
esquentaram tanto as vendas que os DVD players se
esgotaram no último Natal nas lojas das grandes cidades
brasileiras. Só que esse magnífico aparelho pode já
estar com os dias contados. Não que o formato DVD-Video
seja carta fora do baralho, mas os aparelhos atuais não
suportam o novo formato DVD-Audio, que continuará a
tocar os mesmos filmes que já tomaram prateleiras de
lojas e locadoras e também os fantásticos discos
DVD-Audio, com qualidade de som insuperável até aqui.
Por enquanto, não precisa haver pressa. Ninguém tem que
correr a ligar para jornais de classificados para se
livrar da novíssima velharia. O formato, com vantagens
indiscutíveis sobre o atual, ainda tem seu futuro
incerto.
O DVD-Video foi definido em 1996 pelo DVD Forum. Após
anos de entendimentos entre a indústria fonográfica e os
fabricantes de equipamentos, incluindo exigências de
proteção autoral e medidas antipirataria, o fórum lançou
as especificações do DVD-Audio em 1999.
A supremacia técnica do novo formato. A vantagem
mais visível sobre o CD comum de áudio que usamos hoje é
que o DVD comporta muito mais informação. Um DVD feito
de uma camada simples contém 4,7 GB, o de camada dupla
chega a 8,5 GB e o DVD de dois lados com camada dupla
vai a 17 GB de dados. Devido ao volume de informação que
cabe num DVD-Audio, sua fidelidade sonora supera tanto o
CD quanto o DVD-Video usados hoje. Ele oferece mais
tempo para o material gravado. Por exemplo, enquanto o
CD só alcança 74 minutos e usa dois canais, um DVD-Audio
mixado em 6 canais em 96 kHz e 16 bits atinge 160
minutos. Ou pode conter 8 horas e meia de material na
qualidade do CD. E ainda dispõe de vários extras, como
imagens, vídeos, textos e menus interativos,
visualizados num televisor do mesmo modo que com o
DVD-Video.
O CD tem uma faixa dinâmica razoavelmente larga, de
96dB, mas o DVD-Audio alcança 144dB. Com seus 24 bits em
oposição aos 16 bits do CD, a resolução da quantização
do DVD-Audio é 256 vezes maior. E, podendo atingir a
taxa de amostragem de 192kHz, não corta altas
freqüências como o CD, que usa 44.1kHz. A maior
definição dos agudos resulta numa sonoridade bem mais
brilhante e viva.
Sobre o DVD-Video, o novo formato tem como principal
vantagem trabalhar com áudio sem compressão, como Dolby
Digital e DTS. E ele tem uma taxa de transferência mais
alta: 9.6Mb/s (megabits por segundo) contra 6.144Mb/s. O
DVD-Audio pode também ser tocado num aparelho reprodutor
só de áudio, como os modelos para automóveis, sendo aí
reproduzido faixa a faixa, como um CD. Ele pode utilizar
várias taxas de amostragem, a partir de 44.1kHz. E
registrar os dados em 16, 20 ou 24 bits. Na distribuição
dos canais de áudio, como nas mixagens para seis canais
em surround 5.1, os canais podem usar diferentes taxas
de amostragem. Em 192kHz, contudo, só dois canais são
utilizados. Em suma, melhor som e mais versatilidade que
o DVD-Video.
Outra vantagem, mais discutível, é a proteção contra
cópias digitais e a marca d’água, uma exigência da
indústria fonográfica no desenvolvimento do novo
formato. A quebra de proteção do DVD-Video por programas
como o DeCSS levou os desenvolvedores a uma maior
preocupação antipirataria. Só que os movimentos pela
liberdade de expressão digital, como a Fundação da
Fronteira Eletrônica (EFF, na sigla em inglês), já estão
em guerra aberta contra essa, segundo eles, violação do
direito do usuário ao rearmazenamento de arquivos que
lhe pertencem, entre outros questionamentos judiciais.
Na comunidade da informática, em todo caso, prevalece a
impressão de que o lançamento de cada novo sistema de
proteção vem sempre acompanhado de uma posterior quebra
de proteção.
Expectativas.
As frustrações que o DVD-Audio traz ao mercado são:
quem adquiriu recentemente um DVD-Video player corre o
risco de ver seu objeto de consumo se tornar
ultrapassado em muito menos tempo do que se podia supor,
já que ele não tocará os discos do novo formato, fora
poucos modelos compatíveis; para curtir todo o poder
sonoro do novo brinquedo o usuário terá que adquirir um
receiver com seis entradas de áudio e conversão de
192kHz e 24 bits, recurso encontrado até agora em raros
e caros modelos ‘top’, além dos seis monitores surround.
Vários executivos da indústria acreditam que, a médio
prazo, o DVD-Audio tenha o mesmo potencial de sucesso
demonstrado pelo DVD-Video, que os custos cairão e que o
formato se tornará um padrão nos players de DVD-Video,
que serão compatíveis com ele. Por enquanto, para Sérgio
Murilo, da DVD Master, pioneiro em DVD-Audio no Brasil,
“tudo ainda é experimental”. Outros não vêm muito futuro
para a nova tecnologia. Para Simon Gibson, experiente
engenheiro dos estúdios Abbey Road, de Londres, “as
pessoas podem perceber a diferença entre som estéreo e
som surround, justamente porque neste último há sons que
vêm de trás. Mas dificilmente perceberão a diferença
entre o sinal comprimido em Dolby Digital AC-3, do
DVD-Video, e o som sem compressão de um DVD-Audio, a
menos que tenham excelentes ouvidos e equipamento.”
Até agora, pouquíssimos modelos de players de
DVD-Audio/Video foram lançados no exterior. A Matsushita
lançou dois, um com a marca Technics, por US$1000, e
outro, pela Panasonic, custando US$800. Eles tocam
discos DVD-Audio, DVD-Video, vídeo-CDs, e CDs de áudio
comuns. São equipamentos voltados para usuários que
buscam a mais alta qualidade possível de som e imagem,
tudo num só produto. Outras empresas, como a Denon e a
Kenwood, prometem novidades. Os fabricantes planejam
lançar modelos portáteis e também para automóveis.
Os obstáculos na marcha do DVD-Audio rumo ao sucesso
ainda são fortes, mas não intransponíveis. Os primeiros
proprietários de players até agora, não encontram sequer
um título nas lojas. Das cinco majors, as grandes
gravadoras que controlam o mercado fonográfico mundial,
BMG, Sony, EMI e Universal se mostram hesitantes em
anunciar lançamentos. Só a Warner tem apostado no
formato com mais decisão, dando o pontapé inicial no
lançamento de títulos. A paranóia da pirataria tem
paralisado esta indústria em vários momentos críticos
deste período de tantas mudanças tecnológicas e
comportamentais. E o DVD-Audio só vai vingar quando
todas as cinco companhias o adotarem completamente. Quem
vai comprar um player para o qual não há títulos no
mercado?
Outro problema é que a maioria dos consumidores recentes
de DVD-Video ainda não estão suficientemente equipados
para os benefícios do DVD-Audio, o que demanda um pesado
investimento no receiver 192kHz/24 bits e nos seis
monitores de som surround.
Para complicar, por enquanto nada garante a padronização
do DVD-Audio como formato de disco digital.
Simultaneamente, a Sony e a Philips estão tentando
emplacar o Super Audio CD (SACD), que soa semelhante ao
DVD-Audio com seus 100kHz e 120dB de dinâmica, texto e
gráficos, mas sem vídeo. Os discos, com algumas dezenas
de títulos da Sony já à venda, só rodam em aparelhos
SACD players da Sony ou da Philips. Será o novo Betamax,
o videocassete que veio para não ficar? Só o tempo dirá.
E há outros formatos em desenvolvimento. Fala-se num
disco do tamanho do CD com um terabyte (1000GB) para um
futuro não muito distante.
Como é o som. Em testes comparativos, realizados
para o site Equip <http://equip.zdnet.com/theater/dvd/feature/18abe/>,
Noel Morrison usou
um player DVD-Audio Technics DVD-A10 com um
receiver Denon AVR-681 com caixas Energy Audissey APS5+2
na frente e Energy RVSS surround atrás. Usando um disco
DVD-Audio de demonstração, já que não encontrou sequer
um título à venda nas lojas, ele experimentou primeiro
uma faixa de Jazz com dois canais e som em 192kHz e 24
bits. Segundo ele, “os falantes emitiram um som cheio e
vibrante que era seco e limpo, com uma qualidade quente
definida”. Comparando, colocou um CD comum no player e
notou que, com um receiver respeitável e bons monitores,
ele também soava excelente. O disco DVD-Audio soava,
principalmente, mais vivo, “como se nós estivéssemos
efetivamente em um jazz club”. Para ele, no entanto,
embora o disco DVD-Audio soasse um pouco mais brilhante
que o CD, a diferença foi muito menos significativa do
que se poderia supor, levando em conta a imensa
diferença na capacidade de armazenamento.
Em seguida, conectando o DVD-A10 a um receiver Parasound
HCA2205, escolheu uma versão em seis canais, 96kHz e 24
bits da Toccata e Fuga em Ré Menor, de Bach. “A
qualidade excepcional do DVD-Audio se tornou
especialmente aparente no modo de seis canais, criando
um campo sonoro totalmente tridimensional. Podíamos
ouvir o ar passando através dos tubos do órgão; era como
se estivéssemos sentados entre as paredes de uma
capela”, enfatiza ele.
Grave seu DVD em casa. O grande (e único) problema
aqui é o custo. Para autorar o seu próprio DVD, há
ferramentas disponíveis em vários níveis. Por exemplo,
os novos Macintosh G4, que alcançam 733MHz, estão
chegando com dois programas de autoração e a opção do
Superdrive de DVD-R e CDRW. O iDVD é um programa para
iniciantes, que vem instalado no G4 733, e o DVD Studio
Pro será vendido para usuários avançados. Com
ferramentas poderosas, os brinquedos caros (um G4733
custa R$11.900,00) podem transformar o usuário em um
profissional de autoração. O DVD Studio Pro custará
cerca de R$2.000,00.
Mas o problema do alto custo pode ser uma mera questão
de tempo e essa tecnologia pode atingir os PCs antes do
que se espera, o que generalizaria a produção de DVDs
independentes. Após perder a exclusividade na produção e
distribuição de CDs desde o lançamento, há anos, do CD-R
(um ícone da produção independente, como o MP3), a
indústria fonográfica talvez tenha que enfrentar o mundo
em um novo round, desta vez no front da produção de
DVDs.
Os passos na produção de um DVD, de modo geral,
consistem em:
Capturar o áudio e o vídeo para um formato digital.
Editar o conteúdo.
Criar e importar elementos gráficos.
Converter os arquivos visuais no formato MPEG2 usando um
programa ou, para melhores resultados e para quem pode
investir, usando suporte em hardware.
Converter os arquivos sonoros para o formato desejado e,
se for o caso, realizar uma mixagem em surround.
Autorar (ou desenhar, programar) o disco através de um
número crescente de programas. Consiste na arrumação de
todos os elementos visando a máxima interatividade para
o usuário final, procedimento semelhante à confecção de
um web site ou um CD-ROM multimídia.
Queimar um DVD master para replicação ou salvar tudo num
drive ou outro meio digital de armazenamento e
encaminhar a uma fábrica ou uma copiadora de DVDs.
É claro que são passos que requerem diversas habilidades
e dinheiro. Mas se diziam coisas parecidas da edição
não-linear há pouco tempo.
Formatos de DVD. Temos ao todo sete tipos de DVD. O
DVD-ROM, que armazena arquivos de modo geral, o
DVD-Video,o DVD-Audio e os DVDs graváveis, que são o DVD-R, o
DVD-RW (o mais versátil, lançado pela Pioneer no Japão,
chegando este ano aos EUA), o DVD+RW (formato
proprietário de um mini-consórcio formado pela Sony, a
Philips e a Hewlett Packard) e o DVD-RAM, que funciona
num computador desktop como um drive normal, mas
removível. Rápido como um HD, grava 5.2GB em discos de
30 dólares e custa cerca de US$500 no mercado
norte-americano.
O DVR-1000 da Pioneer, um DVD-RW, custa US$2.300
nos EUA
O Futuro. É possível que o sucesso do DVD-Audio, se
acontecer, venha a ser calcado mais nos recursos extras,
como letras de músicas na tela, vídeo clips, fotos e
menus interativos, do que na melhor qualidade sonora.
Por mais que seja um avanço para audiófilos, a indústria
não tem neste grupo um mercado potencial que banque a
transição. Somente quando as grandes empresas
fonográficas apostarem em peso no formato, lançando
coleções expressivas de títulos, e os preços dos
equipamentos caírem, a grande massa de consumidores vai
poder mostrar o que quer.
Olhando para dentro da bola de cristal, vemos um pequeno
disco cintilante, com grande poder de armazenamento. Um
disco capaz de expandir a mente humana no sentido da
criação ilimitada e multidisciplinar. Dificilmente,
desta vez, as grandes corporações permanecerão sozinhas
na produção e comercialização da arte, como ocorreu
durante o século XX graças ao disco de vinil e aos meios
de comunicação de então. A força do mercado de
informática, o gigantesco tráfego de informação gerado
pela internet e uma crescente tomada de consciência dos
artistas, intérpretes, criadores e do público consumidor
de seu papel de sujeitos do processo artístico, e não
mais de objetos, vêm trazendo grandes e importantes
mudanças.
Mas ainda não dá para ver a verdadeira natureza do
pequeno disco. Pode ser um DVD-Audio, um SACD, um
DVD-Video ou mesmo um velho CD que insiste mais um pouco
em continuar a girar, impulsionado por uma força maior,
o mercado
.
Foram definidas duas versões de DVD-Audio, uma só de
áudio e outra com áudio e vídeo.
Incluindo o DVD-Video, temos ao todo três formatos:
Formato
Conteúdo
Onde toca
DVD-Audio (sem vídeo)
Disco de áudio com texto opcional, menus e figuras, mas
sem vídeo
Players só de áudio, DVD-Audio e universais
DVD-Audio (com conteúdo de vídeo)
Um DVD-Audio com uma seção em DVD-Video
Players universais e DVD-Video (só a parte de vídeo)
DVD-Video
Vídeo sem conteúdo em DVD-Audio
Players universais e DVD-Video
Todos os discos DVD-Audio também vão tocar em players só
de áudio semelhantes aos CDs de carro, sem tela
A especificação do DVD-Audio permite codificar o som
estéreo e multicanais em vários formatos, com diversas
opções. Os objetos de vídeo usam a mesma codificação de
áudio que os discos DVD-Video
Áudio
Vídeo
Modos de codificação
LPCM ou MLP
LPCM ou Dolby Digital
Taxas de amostragem (kHz)
44.1/48/88.2/96/176.4/192
48/96
Bits por amostra
16/20/24
16/20/24
Máximo de canais
6 (até 96 kHz)
2 (até 176.4/192 kHz)
6 ou 8
Taxa máxima de transferência
9.6 Mb/s (para LPCM)
6.144
O DVD-Audio pode usar taxas de amostragem de até 192kHz
para som estéreo e
até 96kHz para 6 canais de som surround. Uma faixa de
freqüências que alcança
até 96kHz e uma relação sinal/ruído que chega a 144 dB.
Para aumentar o tempo de reprodução de um disco
DVD-Audio a pelo menos 74 minutos na qualidade máxima,
foi adotado o padrão de codificação MLP, a despeito do
PCM. O MLP é fácil de implementar e não altera em nada o
sinal decodificado, consumindo pouco processamento,
mesmo com 6 canais em 24bit/96kHz.
A tabela compara tempos de reprodução com e sem MLP em
vários exemplos de configurações de áudio.
Combinação do áudio
Configuração
Tempo de reprodução (minutos) em discos de camada
simples
Tempo de reprodução (minutos)
em discos de camada dupla