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Behringer Ultrafex II
Processador multibandas
para melhoramento sonoro
Sérgio Izecksohn
Você gosta do som do seu estúdio? Gostava. Espere até
ouvir suas melhores mixagens depois de processadas pelo Ultrafex. Aquele
baixo meio velado, bem tocado, mas velado, porque se aumentasse embolava,
agora está ali, nítido, pesado, inteirinho, colado com o
bumbo, os dois firmes como uma rocha. Os pratos e o contratempo estão
muito mais claros, como também as palhetadas da guitarra. As cordas?
Em volta de você, na sala. Os CDs da sua coleção, como
os seus cassetes, agora revelam timbres e sonoridades que você nunca
tinha notado, e que dão ainda mais coerência aos arranjos
que você já adorava nos seus artistas preferidos. Aliás,
seu ouvido nunca mais será o mesmo.
Que mágica é esta? Não é mágica.
Nem exatamente uma novidade. Na verdade, o primeiro circuito de um exciter
foi montado em 1955, desenvolvido por Charles D. Lindridge, para "melhoria
do som da música e do discurso". Fontes sonoras eram enriquecidas
com harmônicos superiores gerados artificialmente, o que dava maior
transparência e inteligibilidade aos diversos timbres. De lá
pra cá muitos modelos representaram uma grande evolução
no conceito de exciters e enhancers. O primeiro significa,
numa tradução direta, um excitador, e o segundo, um
melhorador do som.
O que o Ultrafex traz de novo em relação aos exciters
ou enhancers é o sistema integrado de "Noise Reduction" (redução
de ruído) que remove o chiado tradicionalmente incrementado por
esses aparelhos, o processador de graves independente, que cuida do melhoramento
das baixas freqüências, e o processador "Surround", que expande
a imagem estéreo, além de um processamento mais limpo que
o da maioria dos concorrentes.
Ao mesmo tempo que dá maior transparência e nitidez aos
timbres dos instrumentos na música erudita, o Ultrafex permite maior
compreensão das letras das canções e mais brilho e
peso em gravações de música pop, rock ou de quaisquer
gêneros. Ele pode ser usado nas mais diferentes aplicações
de áudio, como gravação em estúdio, mixagem,
masterização, shows (no P.A. e no setup dos instrumentistas),
música ao vivo, música mecânica (bailes, discotecas),
home theater e a mera audição caseira ou cópia
de CDs e cassetes. Ainda por cima, reduz a fadiga auditiva, por ser baseado
nos conceitos da psico-acústica.
Psico-acústica. O aspecto psicológico
da audição é muito importante para a percepção
dos sons. É mais fácil distinguirmos os instrumentos de uma
orquestra numa sala de concertos do que ouvindo um CD. Isto se deve, primeiro,
ao fato de estarmos vendo e ouvindo os instrumentos, e segundo,
porque são instrumentos acústicos, ouvidos diretamente sem
interferências mecânicas ou eletrônicas. Numa gravação,
esses mesmos sons são prejudicados pela perda de sinal em certas
freqüências, a cada elo da cadeia de gravação,
como o microfone, a mesa, o gravador multipista, os processadores, o gravador
estéreo, o amplificador e os falantes, sem contar o ruído
eventualmente gerado pelos cabos. Todos estes elos atenuam ou cortam harmônicos
dos diversos sons, fazendo com que eles percam algo de suas características
depois de mixados.
O som de qualquer instrumento ou voz, como de resto qualquer som da
natureza, é composto de parciais, a fundamental e os harmônicos.
A nota que você ouve é a fundamental, mas o timbre dela é
o resultado da superposição dos harmônicos sobre a
fundamental. O que diferencia a sua voz da voz de seu amigo é o
timbre. Embora os harmônicos sejam sempre os mesmos, com os mesmos
intervalos (8a, 12a, segunda 8a etc.)
sobre a nota fundamental, seus níveis (volumes) variam de um timbre
para outro. São essas diferentes "mixagens" naturais das parciais
do som que originam os diferentes timbres. A fundamental é mais
perceptível porque seu nível costuma estar muito mais alto
do que os harmônicos, mas um sino de igreja não tem a fundamental
tão clara assim, e fica mais difícil reconhecer que nota
ele está tocando. A série harmônica é apresentada
nos livros de Teoria Musical.
Quando os timbres são gravados e reproduzidos, sofrem deterioração,
e quando são mixados (misturados) a outros timbres também
têm vários harmônicos atenuados ou até cancelados,`o
que muda suas características. Mesmo afastando os instrumentos uns
dos outros com o controle de pan dos canais da mesa de mixagem, ou usando
um equalizador, é difícil manter suas propriedades sonoras
quando mixamos muitos sons.
Os aparelhos psico-acústicos, como os exciters, enhancers, clarificadores
e outros, sempre foram cercados por um certo misticismo. Nas primeiras
vezes que os manuseei, perguntei a dois produtores como utilizá-los,
e tive a mesma resposta: "Não sei bem, mas vai virando os botõezinhos
que de repente o som fica ótimo!" Muitos manuais não deixam
claro o seu modo de atuação. Mas todos esse aparelhos trabalham
com três conceitos: correção de freqüência
dinâmica, alteração de fase e geração
de harmônicos artificiais. Vamos compreender agora um pouco de cada
um deles?
A correção de freqüências consiste no corte,
atenuação ou incremento de certas parciais dos sons. Equalizadores
e filtros são geralmente usados para redefinir os timbres. Aumentar
os agudos, por exemplo, causa um efeito de maior transparência. Essa
correção, no caso do Ultrafex, é dinâmica: a
fase do sinal, dependendo da freqüência, é alterada,
o que se traduz num som mais "quente" e "musical", segundo o manual do
produto.
A alteração de fase causa um minúsculo atraso
(delay) em certos sons. Quase imperceptível, esse atraso
soa como se numa orquestra os músicos de um naipe ou seção
instrumental não tocassem exatamente ao mesmo tempo, dando um resultado
mais "humano" ou "natural" à música. O chamado "alargamento
de pulso" amplia o sinal sonoro resultante. Esse efeito é conhecido
também como "3-D", e se traduz num som mais vivo.
A geração de harmônicos artificiais, principal
característica dos exciters, consiste em repor altas freqüências
(agudos) supostamente perdidas na gravação ou na captação
do som. O resultado é um som mais claro e transparente, em geral
devolvendo ao sinal os harmônicos perdidos, fazendo o timbre readquirir
suas características.
Ainda segundo o manual, as fases do processo de gravação,
processamento, reprodução e cópia dos sinais tendem
a atrasar a fase das baixas freqüências (graves), fazendo com
que percam potência e definição. Por isso, o Ultrafex
possui um processador de graves separado do de agudos. Além de realçar
as altas freqüências, o aparelho permite que você dose
os graves independentemente. De fato, em nossos testes, as gravações
adquiriram um peso e uma nitidez dos baixos até então inconcebível
nas condições de cada estúdio.
O processador Surround do Ultrafex reforça as diferenças
entre os sinais esquerdo e direito, expandindo a imagem estereofônica
e garantindo ainda maior nitidez a cada timbre. Experimentamos o Surround
com material mono de baixa qualidade (um arquivo wave obtido pela
Internet) e, para nossa surpresa, a estereofonia criada artificialmente
trouxe-nos a sensação de estar cercados pelos músicos!
É importante levarmos em conta que é sempre perigoso
"enfeitar" o som com harmônicos que ele não possuía
antes de ser gravado. Exagerado, o processamento pode funcionar como uma
faca de dois gumes. Em vez de trazer naturalidade, calor e humanizar o
som, um exciter pode, mal usado, tornar o som ainda mais artificial. Por
isso, é fundamental usar o bom senso com uma intervenção
comedida de um processador como este.
Conexões. O Ultrafex tem, na traseira,
entradas e saídas de ¼ (banana) e XLR (Canon) balanceadas
e não-balanceadas para cada um dos dois canais. Podemos usar plugs
banana ou XLR, como também podemos conectá-los de várias
formas. Numa ligação em série, como numa pedaleira
de um guitarrista, o aparelho deve ser plugado como o último da
cadeia. Na mesa de som, contudo, ele pode tanto ser inserido num par de
canais, de submasters (grupos) ou nos masters, como também pode
ser conectado através dos auxiliares, controlado pela ‘mandada’
de efeitos. A chave "solo" permite que, na saída, volte para a mesa
o som completo ou só o sinal processado. Assim, podemos processar
o som do canal ou do todo inteiramente (através dos inserts),
ou tratar do som de alguns canais independentemente e em doses variadas,
enfatizando os canais do bumbo, do baixo e do contratempo, por exemplo,
sem afetar os demais sinais. Este aparelho pode ser usado na mixagem e
na própria gravação de cada instrumento ou voz.
Operação. Conectada a fonte
sonora que vamos processar, deixamos os botões "Tune" no centro
e viramos os demais para a posição anti-horária, desligando
todas as chaves. Ligamos as chaves "In/Out" e, aos poucos, incrementamos
os botões "Low Mix" e "High Mix" até encontrarmos o nível
ideal de reforço de graves e agudos. Girando os botões "Tune"
escolhemos as freqüências centrais a enfatizar no "High Mix".
A chave "Shift" liga o filtro passa-alta, que corta as freqüências
abaixo de 50 Hz ou 100 Hz. Ligamos os controles "Noise Reduction" dos dois
canais e ajustamos os botões "Process" de forma quer os últimos
LEDs ("Effect") só acendam nos momentos de pico. Então, podemos
aumentar o botão "Surround" para ampliar a imagem estéreo.
Se os dois canais do Ultrafex estão sendo usados independentemente
para afetar dois canais da mesa, deixe o "Surround" fechado, para não
haver vazamento de sinal de um canal para o outro. Se o Ultrafex está
ligado em série ou nos inserts da mesa, deixe a chave "Solo" em
"out", mas se a conexão for pelos auxiliares, ponha esta chave na
posição "in".
Feito? Agora, deixe o Ultrafex de novo na posição "bypass"
(desligando as chaves "In/Out" à esquerda de cada canal) e ouça
outra vez o som que você tinha antes. Ligue-o novamente e compare.
Pois é. O seu estúdio ou P.A. (e o nível de exigência
de seus ouvidos) nunca mais será o mesmo.
Conclusões. Não basta ir
"virando os botõezinhos". É preciso cuidado e uma comparação
permanente entre os sons "flat" e processados, para não haver exageros.
Apesar disso, ele é bem fácil de operar. Bem regulado, o
Ultrafex dá uma clareza, um peso, um brilho e uma definição
às fontes sonoras praticamente inconcebíveis sem ele. Após
ouvi-lo, quando o desligamos, o som do estúdio dá a impressão
de estar xoxo, sem vida. Os próprios CDs, nacionais ou internacionais,
clássicos, de jazz ou populares, não nos parecem mais tão
bem mixados assim. Com seu baixíssimo custo por benefício
(pouco mais de 300 reais), o Ultrafex II é um item quase obrigatório
em estúdios de qualquer porte.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio.
Publicado na Revista Backstage em 1998
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