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YAMAHA MD8

Gravador MD de 8 Pistas

Sérgio Izecksohn

Nunca existiram tantos meios de gravação de áudio quanto hoje. Enquanto muitos migram para o computador, em busca de um sistema totalmente virtual, com processamento e endereçamento do sinal sonoro via software, sem as dezenas de cabos que povoam os estúdios, outros preferem a praticidade de um sistema pré-configurado, como os porta-estúdios, onde basta ligar um aparelho à tomada, plugar microfones, instrumentos e efeitos e, simplesmente, gravar, sem as questões trazidas pelo uso do computador.
 
Seguindo a linha evolutiva dos novos porta-estúdios digitais, a Yamaha traz a público o seu MD8. Após o sucesso do modelo MD4, analisado na Áudio, Música & Tecnologia de janeiro passado, o novo modelo inova em importantes quesitos, além de permitir a gravação e mixagem do dobro de canais.

Usando a mesma mídia de gravação do MD4, o MD8 grava em um disquete MD-Data, originalmente usado em informática. Mas é possível gravar e reproduzir áudio estéreo ou mono em MiniDisks comuns. Em discos MD-Data, podemos gravar/reproduzir 18 minutos de áudio em 8 pistas, 37 minutos em 4 pistas, 74 minutos em 2 pistas e 148 minutos em uma (mono).

As inovações do MD8 são várias e importantes. Entre elas, o fato do mixer agora apresentar 8 canais de entrada mono, dois pares de entradas estéreo, dois canais auxiliares para efeitos  e quatro grupos de canais; os canais 1 e 2 agora apresentam entradas XLR (Canon) balanceadas para microfones, phantom power (alimentação elétrica) para microfones a condensador e inserts para conexão de compressores, gates etc.; os equalizadores de 3 bandas por canal ganharam um controle de ajuste de freqüência central para os médios. No gravador, salta aos olhos o novo cursor/dial circular, que serve tanto para mover a reprodução de um trecho para outro do disco quanto para a edição de dados. Além disso, o MD8 pode ser controlado remotamente por um seqüenciador, graças à implementação de vários comandos MMC (MIDI Machine Control).

O Yamaha MD8, como todo porta-estúdio, é dividido em duas seções principais. Na parte de cima à esquerda fica a mesa de som e à direita o gravador. Atrás se encontram todas as conexões, à exceção da saída para fones e da entrada do pedal para punch in/out, que ficam na frente.

A mesa, analógica, tem 8 canais de entrada e 8 CUE, que misturam os sinais gravados nas 8 pistas com 8 canais “ao vivo”, como teclados seqüenciados. Na gravação, permite comparar o sinal que entra com o som já gravado, facilitando as emendas. Os canais têm controles de ganho, fader (45mm), pan, 2 auxiliares (efeitos), equalizadores de 3 bandas (semi-paramétricos nas médias, shelving nas altas em 12 kHz e baixas em 80 Hz) com incremento/atenuação de até 15 dB, flip (para alternar o som entre o gravador e a entrada MIC/LINE nos canais principais e CUE), o volume e o pan dos canais CUE (usados principalmente nas mixagens, para misturar aos sons gravados sons de sintetizadores tocados por um seqüenciador sincronizado ao MD8), e dois botões que endereçam o sinal para os grupos 1-2 e 3-4.

Na seção master, a mesa conta com um fader para controlar o volume do sinal estéreo, um controle giratório de nível de saída para monitor e fones, os volumes dos 4 grupos de canais, o controle master do nível do sinal CUE, um botão para endereçar o sinal CUE para a mixagem estéreo e cinco botões que determinam as fontes sonoras que serão monitoradas nas caixas e fones: STEREO, CUE, GROUP (1-3 e 2-4) e 2TR IN. Podemos, com esses botões, escolher entre ouvir as “mandadas” estéreo, CUE, dos grupos e a entrada estéreo 2TR IN (para ouvirmos as saídas do DAT, MD ou cassete onde gravamos a mixagem). Além desses controles, há ainda botões de volume e endereçamento para os grupos de dois pares estéreo de canais auxiliares (chamados 9-10 e 11-12). Esses canais recebem as saídas de dois efeitos estéreo, como típicos canais auxiliares 1 e 2, ou podem receber o sinal de outra mesa ou outro gravador.

As conexões da mesa, na traseira do aparelho, são 8 entradas de ¼” (banana) MIC/LINE não balanceadas, 2 entradas XLR (Canon) balanceadas para microfone ou linha com chave de phantom power, em substituição às entradas 1 e 2, inserts nos canais 1 e 2 para conectar compressores, noise gates e outros processadores, duas mandadas mono de efeitos AUX SEND 1 e 2, dois pares estéreo de retornos de efeitos ou entradas auxiliares LINE IN 9-10 e 11-12, oito saídas diretas RCA das pistas para outra mesa, mais três pares estéreo RCA: saídas para o gravador estéreo e o amplificador e entradas de retorno do gravador estéreo. Ainda na parte traseira ficam a conexão de AC (com fonte interna), o botão liga-desliga e os conectores MIDI IN, OUT e THRU para sincronização do gravador com outros aparelhos.

O gravador: do outro lado do MD8 fica a seção de visual mais atraente. O display fluorescente e os controles de transporte realmente chamam a atenção. Os grandes botões giratórios concêntricos chamados CURSOR e DATA DIAL seguem com eficácia a tendência mundial de implementar grandes botões para transporte nos gravadores e vídeos, dando mais charme ao MD8. O cursor externo move o material gravado rapidamente para a frente e para trás, além de selecionar itens do display. O dial interior move a música em pequenos passos (frames) e também seleciona e quantifica parâmetros de edição. Permite parar no ponto exato da música em que queremos trabalhar.

Outros controles de transporte são os botões PLAY, STOP, REC, REHE (ensaio, “passagem de som”), AUTO PUNCH IN e OUT, busca de músicas gravadas, busca do último trecho gravado, botões para repetição de trechos, para definir marcadores e procurar trechos marcados, para endereçar grupos de canais às pistas de gravação, para selecionar as pistas a gravar, para selecionar o modo de operação do contador de tempo, para ajustar o pitch (afinação) da gravação em relação a cada instrumento a gravar, mais os botões EDIT e UTILITY, com várias funções de edição e sincronização, e os comandos ENTER e EXIT.

No grande display temos inúmeros LEDs e funções assinaladas. Dez LEDs de volume para as oito pistas e os canais estéreo, um grande contador de tempo musical (compassos e tempos) ou cronológico (minutos, segundos e frames) que pode mostrar o tempo decorrido, remanescente ou total, luzes indicadoras dos doze marcadores em que determinamos a forma e as partes de cada música, nome do disco e da música, indicadores de modos de sincronização (MTC, MIDI Clock e MMC), de punch in/out, de pitch e de modo de transporte (REC, PLAY etc.).

A gravação em si no MD8 não difere muito dos processos em um porta-estúdio convencional. As diferenças aparecem mais para a frente, nos processos de edição do material gravado. Há dois modos de gravação: grupo (GRP) e direta (DIR). Esta endereça para a pista onde vamos gravar apenas o som do canal de mesmo número, enquanto a primeira envia vários canais reunidos em um grupo. Como em quase toda mesa, os grupos ímpares são acessados girando-se os botões PAN para a esquerda e os grupos pares com os PAN voltados à direita, além do acionamento do botão correspondente ao grupo desejado. Como cada grupo manda o sinal para apenas duas pistas, temos o grupo 1 acessando as pistas 1 ou 5, o grupo 2 enviando o som para as pistas 2 ou 6 e assim por diante. Escolha o grupo correspondente à pista desejada e envie para lá os sons dos canais que pretende gravar reunidos. Para gravar em estéreo, use uma pista e um grupo ímpar e outra pista e outro grupo par. Se for gravar uma única fonte sonora numa pista, use o modo direto (individual).

Durante a gravação das pistas, havendo a necessidade de remendos (quase sempre há), podemos fazê-los manualmente, com os botões de transporte, usando o pedal de punch in out ou programando o Auto Punch. Este pode ser até mesmo de múltiplos takes sucessivos. Após gravar algumas pistas, podemos fazer uma redução, ou ping-pong. Consiste em copiar várias pistas já gravadas, agrupando-as em uma (mono) ou duas (estéreo) pistas. Aqui, as maiores diferenças para a redução em fita são, primeiro, a possibilidade de copiar o material numa das próprias pistas gravadas, sem risco de apagá-la, devido ao processamento digital do material gravado; a outra, a preservação da qualidade sonora do material copiado, de novo devido ao processo digital, apesar da mesa ser analógica e não estarmos livres do uso dos conversores AD/DA neste processo.

A qualidade do som dos gravadores em MD é superior à dos cassetes, e só. Devido à compressão ATRAC usada nos modelos em MiniDisk e MD-Data para fazer com que pesados arquivos de áudio caibam em disquetes tão pequenos, não podemos esperar deles o som de um gravador em HD ou em fita digital de vídeo, para dar dois exemplos comuns. Sobre estes, as grandes vantagens do MD8 e seus similares são o preço e a facilidade de operação. Sobre o cassete, além do melhor som e das reduções sem desperdício de pistas, outra grande vantagem são as várias funções de edição, graças à gravação não-linear, em disco.

Funções na reprodução. Vejamos algumas interessantes funções do MD8 ao tocar as músicas gravadas. A busca rápida permite localizar o início de cada canção no disco e também o último trecho gravado. A inserção de marcadores de trechos das músicas permite o avanço ou retrocesso imediato até um determinada parte da canção. Podemos ainda repetir sem interrupções trechos marcados, músicas inteiras ou todo o disco. A melhor função aqui é poder montar uma nova forma para a música a partir da reordenação das partes marcadas, como fazemos num seqüenciador MIDI. Assim, uma forma como “A-B-Refrão-C” pode se transformar em algo como “A-B-Refrão-Refrão-A-B-Refrão-Refrão-C-Refrão-Refrão” etc. sem precisar regravar nenhum instrumento, apenas marcando o ponto exato entre cada uma das partes. O dial do aparelho é de vital ajuda neste caso.

Outras funções incluem a cópia e a exclusão de partes, das trilhas e de músicas, além da divisão e combinação de várias músicas. Podemos ainda mover, renomear e renumerar as músicas ao longo do disco. Com isto, fazemos cópias de segurança antes de reduzir pistas, experimentamos takes vocais e instrumentais em diferentes versões de uma canção, abrimos espaço no disco para estender alguma gravação, mudando uma música de lugar, além de outras utilidades muito práticas.

Sincronização. Quando trabalhamos gravando áudio e seqüenciando teclados MIDI, outra grande vantagem dos gravadores multipista em MD sobre os porta-estúdios analógicos é que não precisamos gastar uma pista de áudio com o sinal de sincronização, ou sync time code. Eles geram dois formatos de sincronismo, o MIDI clock, mais simples, encontrado em todo seqüenciador, e o MIDI Time Code (MTC), presente nos melhores programas de computador, também conhecido como SMPTE Time Code. Pela saída MIDI OUT do MD8 podemos disparar o seqüenciador usando um dos dois métodos, e ambos atuarão em perfeito sincronismo. Com o feliz implemento neste modelo da Yamaha do recurso conhecido como MIDI Machine Control (MMC), a brincadeira fica ainda mais divertida: o seqüenciador é que dispara o MD8 nas funções de transporte (PLAY, STOP etc.), enquanto este gera o MIDI Time Code que os mantêm em perfeito sincronismo. Assim, podemos controlar todo o movimento a partir do computador. O micro, neste caso, é usado apenas como seqüenciador MIDI de instrumentos eletrônicos, sem necessidade de complexas configurações. O áudio das outras fontes sonoras é gravado no MD8 e os sons dos sintetizadores, baterias eletrônicas e samplers podem ser mixados com estas na própria mesa do porta-estúdio ou numa mesa externa, expandindo em muito a quantidade de canais para mixar.

Enfim, o Yamaha MD8 é um dos mais baratos meios de gravação digital em 8 pistas, embora seus recursos não deixem a desejar. Os porta-estúdios cassete de 4 pistas devem permanecer no mercado, devido ao seu baixíssimo custo por benefício. Porém, a gravação em 8 pistas tem a qualidade prejudicada na fita cassete, devido à largura mais estreita de cada pista de gravação. Isto não acontece no MD, porque o acréscimo de pistas, em disco, só afeta o tempo geral de gravação, jamais a qualidade do som. Vivemos um momento privilegiado, em que cada um de nós tem uma grande quantidade de opções para configurar seu home studio. Aqueles que preferem não despender tempo e dinheiro configurando seus computadores para trabalhar com oito pistas de áudio contam com o MD8 como uma importante alternativa.
 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na revista Áudio, Música & Tecnologia em 1998