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Esperando Layla...
Interfaces Event Electronics/Echo Layla, Gina & Darla
Sonho ou realidade? Uma interface de áudio profissional
com todos os recursos das concorrentes e pela metade do preço. Mas,
será que ela vem?

Foi anunciado em junho, com grande estardalhaço, nas principais
revistas mundiais do setor, o lançamento simultâneo de três
interfaces de áudio, por uma nova fábrica, a Event Electronics,
em associação com a Echo. Com sugestivos nomes femininos,
Layla, Gina e Darla abalaram os corações do mundo da informática
musical, antes mesmo de serem testadas, unindo insuperáveis recursos
a preços inacreditáveis. Mais de quatro meses depois, no
entanto, Layla, a principal das três, ainda não deu as caras,
deixando seus pretendentes com a sensação de que era boa
demais pra ser verdade... Suas irmãs já estão à
venda, informa o marketing da Event, mas o mercado já começa
a cair na real.
Quando surgiram, no primeiro semestre de 1997, os primeiros anúncios
das novas placas, nas revistas americanas Keyboard Magazine, Mix e outras,
o mercado de digital home recording (gravação digital em
home studios) vinha sendo abastecido normalmente por fabricantes já
tradicionais de placas e interfaces de áudio, como a Digidesign
(que fabrica o Pro Tools, o Session 8 e a placa Audiomedia III), a Soundscape
(SSHDR1) e outras. Com fundo vermelho e letras garrafais em páginas
duplas (em geral, 4 por revista), os anúncios tiraram a respiração
de muita gente. As novidades que a Layla promete são, por exemplo,
oito entradas e dez saídas analógicas de áudio em
conectores de ¼” (“banana”) balanceados, com conversores de 20 bits,
entradas e saídas digitais S/PDIF de 24 bits, MIDI, sync, inúmeros
recursos de edição de áudio etc., etc., etc. Tudo
isso num rack externo ao computador, e por 999 dólares, o preço
sugerido pelo fabricante para o mercado americano. Além de tudo,
sua tecnologia seria compatível com todos os softwares conhecidos
do mercado e totalmente plug and play no Windows 95.
Segundo informações fornecidas por importadores brasileiros,
o mercado de placas de som profissionais teria sido paralisado pela expectativa
criada com os lançamentos da Event. Todos os que se preparavam para
adquirir seus sistemas de gravação em PC teriam parado para
aguardar as primeiras impressões do mercado com respeito à
Layla, especialmente, antes de decidir o que comprar. As razões
ficam claras quando se dá uma passada de olhos nas especificações
técnicas e nos preços dos três produtos:
 Layla
Layla: Placa PCI para PC (Pentium) ou Mac (Power PC), com interface externa em rack 19”, contendo 8 entradas e 10
saídas de ¼” (banana) balanceadas e conversores AD/DA de
20 bits. Entrada e saída S/PDIF de 24 bits, DSP (processamento digital
do sinal) Motorola 56301 de 24 bits. Sync time code, MIDI in, out e thru
e outros recursos, como ajuste automático do ganho de entrada. O
software que vem com o pacote também controla os volumes de entrada,
e a placa é full duplex (grava e reproduz o som simultaneamente),
permitindo que se grave em 10 canais enquanto se ouve o playback de 12.
Sua freqüência de resposta vai de 10Hz a 22kHz e a curva dinâmica
é de 98dB. Expansível, com três Laylas e um hard disk
bem rápido, o usuário tem um sistema com 30 entradas e 36
saídas. Preço sugerido nos EUA: 999 dólares.
Gina
Gina: Placa PCI para PC (Pentium) ou Mac (Power PC), com interface externa, contendo 2 entradas e 8 saídas
de ¼” (banana) não balanceadas e conversores AD/DA de 20
bits. Entrada e saída S/PDIF de 24 bits, DSP (digital signal processing)
Motorola 56301 de 24 bits. Ajuste automático do ganho de entrada.
Com o pacote vem o mesmo software que controla os volumes de entrada, e
é full duplex (grava e reproduz o som simultaneamente), permitindo
que se grave em 4 canais enquanto se ouve o playback de 10. Sua freqüência
de resposta também vai de 10Hz a 22kHz e a curva dinâmica
é igualmente de 98dB. Preço sugerido nos EUA: 499 dólares.
Darla
Darla: A menor das irmãs Event é
uma placa sem interface externa, mas que aparenta resolver o problema do
ruído gerado pelo computador: seus conectores e conversores ficam
numa caixinha que se conecta à traseira da placa pelo lado de fora
da CPU. Placa PCI para PC (Pentium) ou Mac (Power PC), com 2 entradas e
8 saídas RCA e conversores AD/DA de 20 bits. DSP (digital signal
processing) Motorola 56301 de 24 bits. Ajuste automático do ganho
de entrada. O mesmo software que vem com Layla e Gina controla os volumes
de entrada, e é full duplex (grava e reproduz o som simultaneamente),
permitindo que se grave em 2 canais enquanto se ouve o playback de 8. Sua
freqüência de resposta também vai de 10Hz a 22kHz e a
curva dinâmica é igualmente de 98dB. Preço sugerido
nos EUA: 299 dólares.
Comparando-se recursos e preços dessas interfaces com as suas
rivais, percebe-se que a Event entrou no mercado para vencer em todas as
faixas, do profissional ao iniciante em gravação. As edições
da Backstage de agosto e setembro trazem, na seção Home Studio,
duas tabelas comparativas dos diversos produtos. Para se ter uma idéia,
o Session 8, com as interfaces 882 ou 882 Studio, respectivamente concorrentes
da Gina e da Layla, ou a Audiomedia III, grande rival da Darla, chegam
a custar mais que o dobro das placas da Event Electronics.
Desde junho, usuários e lojistas se perguntavam: mas, e o som?
É bom mesmo? Como conseguiram reduzir tanto os custos de tão
alta tecnologia? E elas serão mesmo plug and play (plugue e use)
ou plug and pray (plugue e reze)? Não precisa configurar? Motivos
não faltaram para tirar o sono dos executivos da Digidesign, líder
do mercado de placas de som profissionais, e dos outros concorrentes. Mas
parece que, de uns dias pra cá, a insônia foi visitar os donos
da Event. O primeiro sinal foi um programinha que a fábrica americana
disponibilizou em seu site na Internet (http://www.event1.com), para os
usuários testarem seus computadores antes de comprar os produtos Event. O pequeno software, chamado de Echo
Reporter, foi feito pela Echo,
parceira da Event no projeto Layla/Gina/Darla. Testa a velocidade do HD
e verifica o hardware instalado no micro. Mas, foi no dia 8 de outubro
que os mais afoitos por comprar a Layla receberam um balde de água
fria.
Layla mandou seu pai (no caso, o presidente da Event, Russell Palmer)
avisar que já vem, mas que ainda está se arrumando para o
encontro com seus pretendentes. Mandou dizer também que vai sair
com um fã de cada vez. Sim, é verdade: mister Palmer veio
a público com uma carta de duas laudas, publicada na Internet, relatar
a situação atual. Disse que, devido a uma série de
histórias que estavam povoando a Grande Rede, ele achou por bem
dar a palavra do chefe. Primeiro, falou que, se uma empresa cresce 20%
ao ano, ela já tem bastante trabalho para atualizar seus sistemas,
e que eles estão crescendo 20% ao mês e procurando “manter
o olho na bola”. Em seguida, afirmou que Gina e Darla estavam lançadas
e as lojas ao redor do mundo, abastecidas. Que as duas funcionam bem, mas
que houve diversos casos de conflitos de IRQ e problemas com versões
não típicas do Windows 95. Reclamou dos computadores Compaq
e Hewlett-Packard (líderes do mercado), afirmando que os produtos
virão a funcionar nesses computadores, mas sugerindo que o usuário
tenha um micro exclusivo para gravar áudio digital e outro para
os “serviços domésticos”. Do Macintosh, então, nem
se fala, estão ainda desenvolvendo os drivers.
Afirmando que a Event tem uma equipe muito dedicada, Russell Palmer
reconhece que não deveria ter sido tão agressivo no marketing
da Layla. Diz ainda que os engenheiros prometeram (!) que o produto estará
nas lojas em dezembro (!!), em quantidades limitadas (!!!). Despede-se
dizendo que a Event Electronics é um grupo de pessoas muito responsável
e que fazem produtos para agradar e ajudar seus clientes.
Já é bem conhecida do público de informática
a técnica apelidada de “vaporware”: anuncia-se o lançamento
de um novo produto, que demora muito a ir para as lojas. Quando chega,
o público já o espera tão ansiosamente que não
quer mais testá-lo, conhecê-lo ou esperar que outros o testem
e os preços baixem: quer tê-lo, de preferência antes
de todo mundo. O Windows 95, que quase saiu em 96, é um exemplo
clássico. Anunciado muito tempo antes, atrasado por infinitos “bugs”
que nunca terminavam de aparecer, o sistema operacional da Microsoft chegou
em agosto de 1995, encontrando uma legião de fãs apaixonados
que pernoitaram diante das lojas na esperança, cada um, de ser o
primeiro a ter a versão definitiva. Este ano, temos alguns produtos
anunciados na Musikmesse, a feira de música de Frankfurt, que, até
agora, ninguém sabe, ninguém viu. É o caso do Lexicon
Studio, sistema parecido com a Layla, e da mesa digital da Mackie. Ambos
aparentam ser excelentes produtos, mas, não se sabe por que, também
não vieram a público, ainda. Pelo menos, não foram
anunciados na imprensa especializada.
A grande promessa que é a Layla aponta para mais uma revolução
no campo dos home studios, com sua excelente relação custo/benefício.
Resta conhecer o seu som, sua funcionalidade e, principalmente, quando
(e se) ela vem. Quem viver, verá.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Publicado
na Revista Backstage em 1997
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