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Entrevista com Sérgio Izecksohn 

Revista Áudio e Vídeo Digital nº 5, agosto de 2002

Luciano Matos

Luciano Matos – Conte um pouco sobre você e sua trajetória na música.

Sérgio Izecksohn – Eu sou músico, baixista e compositor, me formei em licenciatura em música pela UniRio e trabalho há vários anos como produtor musical e professor de música. Acabei organizando o curso de Home Studio, que é a atividade principal que desenvolvo hoje em dia.

Luciano – Ainda existe uma especulação muito grande a respeito deste assunto. O que é um home studio na prática?

Sérgio – Realmente, muitos confundem a idéia de home studio com a de um estúdio caseiro. Por exemplo, existem grandes artistas que têm, hoje em dia, condições de levar para casa mesas milionárias de US$ 250 mil e isso não permite que a gente considere esse estúdio como um home studio, embora seja um estúdio na casa do artista. Seria a mesma coisa que ir ao estúdio Abbey Road e colocar um quarto nos fundos com uma cama ou um criado-mudo e declarar que aquilo é um home studio. O conceito de um home studio é você aproveitar parte do espaço da sua casa, como seu quarto ou sua sala, por exemplo, utilizando equipamentos e tecnologias variados, incluindo hardware e software para gravação. Você pode desenvolver gravações com qualidade que, hoje em dia, já é compatível com a de uma grande gravadora, ou até mesmo utilizar esse equipamento para fazer gravações de demonstração, projetos ou estudos, sem ter de recorrer a um estúdio maior. Isso trouxe uma independência muito grande para todas as classes e gêneros musicais do mundo, porque atualmente cada um já tem, através do seu computador, da sua placa de som, o seu home studio e a sua própria gravadora.

Luciano – Com o advento dos home studios, o que mudou na indústria fonográfica?

Sérgio - A indústria fonográfica já vinha passando há vários anos por um processo que eu considero a destruição da música. Aqui no Brasil ficou bastante notória a redução da nossa diversidade cultural a três ou quatro gêneros musicais para consumo imediato. Toda a evolução da música brasileira foi interrompida nesse processo por uma atitude absolutamente autoritária das gravadoras. Elas detiveram o monopólio de gravação e distribuição de música ao longo de todo século XX. A música foi totalmente controlada por cinco ou seis gravadoras que chegaram ao extremo de decidirem o que as pessoas ouvem ou deixam de ouvir. Tudo isso levou a um desgaste natural da classe musical e durante esse tempo aconteceu o que ninguém contava: simultaneamente à evolução da informática, da Internet e dos conversores de áudio digital e processadores DSP, aconteceu a queda dos preços e a popularização dos equipamentos, tecnologias e difusão de técnicas. Na internet você tem a difusão da informação muito mais acelerada que antes da era da informação. Com todo esse avanço, hoje em dia, um músico pode perfeitamente dispor de toda a tecnologia para gravar o seu trabalho, divulgar pela internet e começar a não depender mais da aprovação de uma grande gravadora para se fazer conhecido. As gravadoras ficam cada vez mais restritas aos artistas de grande vendagem, o que a princípio parece ser altamente promissor. O que, de início, foi positivo para elas, no final revelou justamente o veneno. A cobra mordeu o próprio rabo, o mercado se cansou de tantas músicas repetitivas com fórmulas gastas e as pessoas já começaram a procurar outras coisas. Fora aqueles três ou quatro músicos que já têm suas próprias gravadoras, que são os seus "home studios", as gravadoras não têm mais outras coisas para oferecer. Elas afugentaram os verdadeiros músicos de seus casts e agora têm que procurar alguma coisa para oferecer ao público, que está cansado de ouvir as mesmas músicas de sempre. Por outro lado, os músicos cansaram de correr atrás dos grandes estúdios e agora estão se conscientizando de que têm em seus home studios as suas próprias gravadoras.

Luciano – Qual é o equipamento de gravação que você usa?

Sérgio – Tanto nas aulas quanto nas produções que eu faço, entre CDs independentes e trilhas sonoras para vídeos e programas de TV, eu trabalho com placas de áudio Layla e Gina, da Echo, em um computador Pentium normal, mas com as peças escolhidas para que todas sejam compatíveis. Uso uma mesa Behringer, microfones AKG e Shure e monitores Spirit. A maior parte do trabalho é feita usando MIDI, assim tenho sons de sampler e sons de sintetizadores diversos, como Roland e E-Mu, por exemplo.

Luciano – E qual é o equipamento de mixagem que você usa?

Sérgio – A minha mesa Behringer e, principalmente, a mesa virtual do programa Cakewalk Pro Audio ou do Cakewalk SONAR, chamada Console View. Assim, eu disponho de dezenas de compressores, equalizadores e efeitos diversos em forma de plug-ins (programas acessórios), sem precisar de hardware, o que barateou muito o acesso à tecnologia e talvez a maior razão para tantos milhões de músicos pelo mundo estarem usando, hoje em dia, home studios e realizando trabalhos de altíssimo nível, sendo que muitos se consagram mundialmente com trabalhos feitos em casa.

Luciano – Como você diferencia um bom equipamento de um mau equipamento?

Sérgio – O bom equipamento, além da qualidade, da pureza e transparência do som, tem recursos precisos e facilidade de operação. Tem de ter um custo de acordo com o que ele oferece. O mau equipamento tem um custo-benefício ruim, é muito caro pelo pouco que faz ou acrescenta ruídos e distorções ao som. É difícil de operar, tem um manual mal redigido ou ainda um suporte técnico deficiente.

Luciano – Qual é a tendência tecnológica do futuro?

Sérgio – Um computador e uma placa de som absorvendo todas as funções do estúdio, deixando de fora somente microfones, alto-falantes e instrumentos controladores MIDI, como o teclado. O resto está indo muito depressa para dentro do computador. A internet deve ser o principal meio de comunicação, as rádios e televisões caminharão cada vez mais para dentro da internet e o “streaming”, ato de divulgar áudio e vídeo através da rede mundial de computadores, me parece que será a tendência predominante daqui a poucos anos.

Luciano – Qual é a questão que você considera essencial no ramo musical contemporâneo?

Sérgio – Acredito que as melhores perspectivas sobre o futuro da música e dos músicos se concretizarão a partir de todos esses avanços tecnológicos. Essa é a maior revolução que já aconteceu na história da música: a informática, tanto com respeito ás possibilidades de gravação, através das placas de som e dos programas de gravação, quanto á distribuição pela Internet, com a imensa e súbita popularização da rede no final dos anos 90. Eu acredito que cada músico, no seu cantinho, lá no seu quarto, terá à sua disposição toda a tecnologia, a capacidade de divulgação e de distribuição de uma gravadora. Ou seja, acredito que daqui a pouco começarão a pipocar rádios nas casas das pessoas: rádios pela Internet, web-rádios e emissoras de televisão caseiras. Quanto mais se alargar a banda na internet, mais streaming acontecerá e o músico não vai ser somente o cara que produz a sua própria gravação, mas também o que distribui e divulga para seus colegas. Isso não vai suplantar os impérios de comunicação que temos aí pelo mundo, as redes de televisão e rádios, mas será uma alternativa de porte para concorrer nesse mercado. Então, florescerão milhares de novos gêneros musicais e ressurgirão outros tantos que estavam adormecidos, porque o poderio de cinco gravadoras multinacionais, que até aqui vinham ditando o que se ouvia pelos quatro cantos do mundo, encontrará um concorrente à altura. Os milhões de produtores independentes encontrarão uma maneira de se fazer ouvir. 



Luciano Matos é formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing em Comunicação Social com ênfase em Publicidade. É formado pelo nível básico na Escola de Música Villa Lobos e atualmente é colaborador da revista Áudio e Vídeo Digital – editora Digerati, para a qual fez essa reportagem em 2002.