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Matéria de capa da Revista Backstage
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Janeiro de 2005
Home Studio – A aposta na democratização
da gravação
Denise de Almeida
A trajetória de Sérgio Izecksohn começou
no final dos anos 70 e início dos 80, na fase efervescente do BRock.
Na época, ele compôs, fez arranjos e atuou como baixista e
tecladista em diversas bandas de rock, pop, MPB e música
instrumental. Em 1994, depois de montar seu estúdio, gravar vários
artistas e trilhas sonoras e de se formar em música pela UniRio,
criou o curso que democratizou o aprendizado da produção musical, o
Home Studio.
Músico profissional desde 82, Sérgio
Izecksohn já atuou com um grande número de grupos e de artistas,
entre eles as cantoras Daniela Mercury, Kátia, Zezé Motta, grupos de
música instrumental, as bandas de rock Espiral e Gato de Louça e com
trios elétricos que faziam turnês pela Europa e África. Nesse
período, tocava em shows e gravações, dava aulas particulares de
baixo elétrico, violão e harmonia e cursava a faculdade. Sérgio fez
também arranjos e composições para Ana Maria Machado (CD-ROM do Mico
Maneco), Chico Feitosa, Cultura Inglesa, Daniel Azulay, Durval
Ferreira, Fernando Gabeira, Kátia, para peças teatrais e diversas
bandas.
No final dos anos 80, com o surgimento
dos samplers e seqüenciadores MIDI, os arranjadores passaram a
trabalhar com computadores e teclados. Foi nessa época que começou a
montar seu estúdio pessoal. Enquanto estudava, Sérgio atuava como
baixista e, depois, como tecladista, participando de diversas turnês
com artistas do Rio e de Salvador. “Era dificílimo se adquirir um
instrumento musical ou um equipamento de áudio por causa da reserva
de mercado e as turnês eram a oportunidade que os músicos tinham de
se equipar”, relembra. Sérgio já possuía um sintetizador Roland
D-50, uma bateria eletrônica Roland TR-626 e o baixo Fender
Precision, o amplificador doméstico Kenwood, o deck-cassete Akai e
caixas Aiko. O primeiro computador foi um Apple 2+ de tela verde.
“Cada vez que voltava das turnês, estava reprovado por faltas em
todas as disciplinas! Acabei trancando a faculdade por vários anos,
para poder tocar”, conta.
Na
volta de uma das turnês, Sérgio comprou um portaestúdio cassete de
quatro pistas Yamaha MT-2X, um processador de efeitos Microverb
Alesis e um microfone SM58, colocou-os em seu quarto e começou a
chamar as pessoas para gravar. Os primeiros a chegar foram
Yuri Poppoff, Lena Horta, Durval Ferreira, Chico Feitosa, Tião Neto
e Zé Neto (irmão de Hermeto Paschoal). Com esse equipamento, Sérgio
começou também a criar trilhas para publicidade, para as produtoras
Globograph (Rede Globo), Sirius Multimídia, TV Educativa (Rede
Brasil), TV Maxambomba (CECIP), TV Plus, entre várias outras. “Nesta
fase, pude aprender muito como compositor e arranjador. Também foi
muito útil ter iniciado a produção de áudio e música para
multimídia, naquela época, para compreender as novas linguagens”,
relembra.
Há dez anos
Com
o home studio, Sérgio pôde voltar a se fixar no Rio e concluir os
estudos. Os seus alunos particulares começaram a solicitar aulas
sobre informática musical, áudio digital, técnicas de gravação, MIDI,
síntese dos sons, edição de partituras, mixagem e produção musical.
Os clientes do estúdio também pediam informações sobre as técnicas e
os equipamentos.
Foi então que,
depois de se formar na UniRio (Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro) em educação artística com habilitação em música, em
1994, Sérgio decidiu procurar a direção do Instituto Villa-Lobos
(que é a faculdade de música da UniRio) para propor o aluguel de uma
sala da universidade, com o objetivo de realizar um curso. A
diretora do instituto, a professora e folclorista Edir Gandra,
gostou tanto da proposta que resolveu fazer um curso de extensão
universitária.
O nome Home Studio,
assim como o próprio curso, foi resultado de uma exaustiva pesquisa.
“Numa época em que a Internet
engatinhava, encontrar o nome deu um pouco de trabalho. Tinha que
ser um nome inédito e que abrangesse todas as disciplinas que
estavam sendo reunidas, além de traduzir a necessidade dos músicos
de adquirir conhecimentos em todas essas áreas”, relata. Foi no
título de uma edição da revista americana Keyboard que Sérgio
encontrou a inspiração. “Até hoje, lá fora, não há nenhum curso com
este nome”, revela e enfatiza que, no mundo inteiro, ter um home
studio, para um músico, deixou de ser coisa de aficionados e se
tornou uma necessidade primária.
O curso e os
alunos
Da primeira turma,
o curso passou a ter duas turmas simultâneas; em seguida, foi criado
um outro módulo avançado e cada vez mais turmas. Como a
universidade, que é federal, não dispunha de equipamento, Sérgio
transportava e instalava todo o material que tinha, com a ajuda dos
seus alunos. Para poupar-se desse trabalho, ele decidiu transferir o
curso para seu apartamento aonde gravava suas produções e as de seus
clientes. O seu home studio foi reorganizado para ser utilizado nas
sessões de gravação e também nas aulas.
Rapidamente, as
turmas se multiplicaram e Sérgio passou a investir mais em
equipamentos, recursos humanos e infra-estrutura.

Foram criados
outros cursos, sempre com o foco no home studio, como os cursos de
Sound Forge, Cakewalk, restauração de vinis, configuração de PCs de
áudio, etc. Aos poucos, a maioria desses assuntos foi reunida no
curso de Gravação e Edição no PC. Até que a evolução da informática
fez do computador o centro dos estúdios e este curso fundiu-se com o
curso de Home Studio, dando origem aos módulos I e II do curso, que
passou a se chamar de Home Studio - Gravação e Edição no PC.
Em dez anos já
passaram pelo Home Studio músicos como Célia Vaz, Tavinho Bonfá,
Tomás Improta, Phillippe Baden Powell, Renato Rocha e Rodrigo Neto
(Detonautas), Charles André (Os Morenos), Moisés Malafaya, Abner
Ferreira, Daniel Azulay, Lúcia Turnbull, Tinho Martins, Mizael da
Hora, o DJ Fábio Maia, o musicólogo Hélio Sena, os produtores Sabóia
Filho, Toni Sá,
Cylan Delgado, do sexteto vocal BR6, que vem sendo
recomendado ao Grammy de World Music, locutores como Elói de Carlo e
Marco Antonio, da Globo-FM.
Além de músicos, técnicos de som de instituições como a Cultura
Inglesa, o Superior Tribunal de Justiça (Brasília), câmaras de
vereadores, igrejas e rádios. “Várias instituições, de todo o
Brasil, estão organizando seus sistemas de gravação e os operadores
precisam ter contato com as mesmas tecnologias usadas para gravação
de música. Também operadores de som ao vivo, jornalistas e até
técnicos de captação para cinema vêm em busca dos conhecimentos de
áudio, produção e mixagem”, comenta.
Acústica e equipamentos
O estúdio-sala de
aula recebeu tratamento acústico de Celso Junto, da DrumAkustic, que
aproveitou o espaço, isolou totalmente o som e deixou a acústica
“com um som vivo, nítido e sem ressonâncias”. Os alunos assistem a
aulas teóricas e aprendem práticas de gravação, mixagem e
masterização. Uma cabine de gravação com visibilidade para a sala
principal completa o espaço. A administração fica em outra sala do
prédio.
As aulas são
visualizadas em monitores de vídeo de 29 e 19 polegadas, enquanto o
áudio vem de monitores de referência de 400W. O equipamento do
estúdio inclui computadores de última geração, duas placas de áudio
de oito canais, diversos microfones para todas as aplicações e a
mesa de 24+24 canais e oito subgrupos para as práticas de gravação e
mixagem. Um sintetizador Roland XP-50 e um piano Kawai, como
controladores MIDI, alguns processadores de sinal e samplers, dos
velhos tempos, e o resto é software.
“Com esta
organização do espaço, evitam-se turmas grandes. Cada turma tem
cerca de dez pessoas”, observa.
A chave para a
formação
O
curso de Home Studio, idealizado por Sérgio Izecksohn, existe há dez
anos e por lá passaram cerca de dois mil alunos. A chave para a
formação é a interdisciplinaridade. Para Sérgio, o conhecimento,
mais do que qualquer equipamento, é a principal ferramenta
para a produção musical ou fonográfica. Por isso, no curso de Home
Studio todas as matérias são tratadas de forma integrada. Conceitos
básicos de áudio e acústica, produção musical, programas, técnicas
de gravação, mixagem, masterização e seleção de equipamentos são
assuntos que estão sempre juntos. "De que adianta a pessoa estudar
Sound Forge ou fazer um curso de Mixagem ou de Masterização se ela
não sabe o que é um compressor nem sabe como funciona um equalizador
paramétrico? São ferramentas essenciais de diversos programas,
usadas o tempo todo no processo de produção musical ou fonográfica.
Seria como estudar vídeo sem saber nem como enquadrar uma imagem
numa máquina fotográfica”, compara. Os alunos do Home Studio
aprendem a teoria do áudio enquanto estão conhecendo os efeitos, as
mesas, os microfones e os programas. “Isso multiplica a atenção,
devido à compreensão da importância prática de cada assunto da
teoria. Por isso, todas as aulas são dentro do estúdio", justifica.
Sérgio trabalha
confiando no ouvido dos alunos. Ele revela que foi assim que começou
a acertar a mão nos seus trabalhos. “Cada ouvido tem a sua história,
a sua cultura, a sua maneira de perceber e gostar das coisas.
Existem várias mixagens de uma mesma música, assim como vários
arranjos, que podem soar bem. O bom disso tudo é poder mostrar que
não existe uma única forma certa de produzir ou mixar uma música.
Existe aquela de que a gente gosta mais”, arremata.
Os alunos têm
contato com os erros freqüentes nas gravações e as maneiras de
evitá-los. "Com as aulas práticas coletivas, tudo o que cada um faz
tem um motivo, uma explicação. Se o baixo precisa de mais grave,
precisa por quê?”
O intensivo e o
terceiro módulo
O curso intensivo
foi criado em caráter experimental em 1998, para atender à demanda
de interessados vindos de outros estados. “Com as mesmas aulas do
curso regular mas num formato que pode ser chamado de 'imersão
total', os alunos têm aulas todos os dias, seis horas por dia,
completando o conteúdo em duas semanas”, detalha. Hoje, o Home
Studio oferece cursos intensivos várias vezes por ano, no Rio ou em
qualquer cidade do país.
Foi
criado também o terceiro módulo, dedicado exclusivamente aos
instrumentos virtuais. A carga horária é de 108 horas divididas em
três módulos de 36 horas. “Haviam me pedido um curso sobre o sampler
GigaStudio, o antigo GigaSampler e depois, um curso do Reason.
Resolvi a questão com o módulo III, que trata dos dois programas e
também de VSTi, DXi, Recycle, Rewire e todas as novíssimas técnicas
que os samplers, sintetizadores e baterias virtuais”.
Outro
curso, que está em funcionamento há um ano, é o Teclado Home Studio,
com a pianista Delia Fischer (foto ao lado). Trata-se de um curso de
harmonia do teclado para músicos que usam o seqüenciador. Em três
meses, uma vez por semana, o iniciante poderá ‘tirar’ músicas de
ouvido e tocar acordes em todos os tons. O curso foi desenvolvido
especialmente para os alunos do Home Studio, mas é aberto a todos os
que tenham interesse em aprender a tocar os acordes no teclado.
Sérgio planeja
criar novos cursos e mudar para um espaço maior, próximo ao atual
endereço.
O mercado e o
curso
Na visão de Sérgio,
a tecnologia está nivelando os produtos por cima e o que faz
diferença hoje é o material humano. “Com conhecimento técnico e
artístico, desenvolvimento do talento e bastante critério na seleção
dos equipamentos e programas, sem preconceitos, podemos realizar
produções musicais e de áudio em geral do mais alto nível com um
investimento financeiro proporcionalmente muito baixo”, argumenta. O
produtor pode, se quiser, usar os recursos de divulgação e
distribuição do material gravado que o computador oferece, como a
gravação de CDs e DVDs e o uso da Internet para divulgação e
transferência de arquivos. “O curso mostra ao músico que ele pode
ser a sua própria gravadora”, resume.
O objetivo é tornar
o produtor auto-suficiente para deixá-lo apto a resolver qualquer
questão que se apresente no seu estúdio. “É confortador saber que,
em breve, teremos a produção de registros sonoros mais diversificada
que a história jamais poderia prever. Tudo o que as grandes
corporações deixaram de gravar, em termos da diversidade cultural,
desde que tomaram conta da produção de música do planeta, deverá ser
compensado pela produção individual. Quem sabe os músicos consigam
devolver à humanidade pelo menos uma parte do que se perdeu durante
o reinado das grandes gravadoras?”
Ele diz que, apesar
de esta revolução no modo de se produzir música seja considerada,
hoje, natural, ela ainda é vista como um tanto alternativa. Mas
Sérgio pondera que as próprias corporações, como também as emissoras
de TV e rádio e as produtoras, mesmo as gigantescas, recorrem à
produção realizada nos lares de seus profissionais.
A experiência do
Home Studio
Renato Rocha -
Guitarrista, Detonautas Roque Clube
”O
curso foi meu primeiro contato com um estúdio, mesa de gravação e
praticamente todo tipo de equipamento e periféricos, que fui
encontrar mais na frente em tantos outros estúdios. Me familiarizei
com vários conceitos sobre áudio, técnicas de gravação, além de
estar em um ambiente com pessoas que têm em comum o amor pela
música, algo muito forte em mim, e pude em pouco tempo projetar,
montar e operar meu próprio home studio. E, talvez, o benefício
maior tenha sido gravar algumas demos da minha banda, o Detonautas
Roque Clube, ainda no meu quarto, e ver que essas sementes estão
gerando frutos muito vitoriosos. Ainda fiz vários amigos, entre
eles, o próprio Sérgio Izecksohn, meu amigo há praticamente dez
anos!”
Marco Antonio Rodriguez – Locutor da Globo FM e Sócio da RPB -
Rádio Produção do Brasil
“Sou
fornecedor de áudio e atuo no mercado de propaganda. Procurei o Home
Studio para conhecer as técnicas de gravação digital para uso
próprio. Hoje, me sinto mais seguro para gravar com qualidade
profissional.”
Cylan Delgado -
Produtor do BR6 - RioAcappella Prod. Artísticas Ltda.
“Se
não fosse o Sérgio me convencendo a investir num estúdio, nunca
teria gravado o CD do BR6. Graças ao que aprendi com ele e,
principalmente, à confiança que ganhei com todas aquelas
informações, tive coragem de lutar contra tudo e contra todos,
propondo ao grupo a gravação e a mixagem do CD no meu estúdio - na
verdade, a sala do meu apartamento. Depois de muito trabalho, o
resultado da gravação do CD num home studio, como o Sérgio sempre
disse em sala de aula e a própria mídia tem ratificado, não poderia
ser diferente: não fica nada a dever a gravações feitas em grandes
estúdios.
Freqüentei o
estúdio do Sérgio no final do ano 2000 e, sem ter tido uma atuação
profissional como técnico de estúdio, em 2003 gravei e mixei o CD do
BR6 - Música Popular Brasileira A Cappella, que foi lançado pela
Biscoito Fino em junho de 2004, lançado nos EUA pelo selo Primary A
Cappella em setembro e com previsão de lançamento na Argentina em
março de 2005.
Talvez a maior
contribuição que o Sérgio, com o seu curso, tem feito à música
brasileira é permitir que, cada vez mais, bons músicos possam gravar
os seus trabalhos sem depender da opinião de um executivo de uma
gravadora que tem uma visão muitas vezes tacanha e egoísta,
dificultando o lançamento no mercado de música que não
tem apelo comercial imediato!”
Hélio Sena - Etnomusicólogo, professor de música da UNIRIO e
arranjador
”Quando
fiz o curso de Home Studio, eu buscava aprender a usar os recursos do
Cakewalk de modo a preparar meus arranjos para colocar sobre eles a
voz do cantor. Porém, o curso foi muito além da minha expectativa:
deu-me a base teórica e prática sobre todo o processo de gravação,
tanto MIDI quanto acústica. Alargou-me os horizontes quanto às
múltiplas e mais recentes possibilidades técnicas, informou-me sobre
os novos programas de música, instrumentalizando-me para seu uso.”
Toni Sá -
Músico, produtor e vocalista da banda Fullgás
“Buscava entender com mais profundidade os recursos e
ferramentas disponíveis para gravação musical, ao invés de utilizar
o método empírico, que me tomava muito tempo e dava resultados
apenas pouco satisfatórios. Aprendi com clareza e detalhamento de
forma estruturada tudo (e muito mais) o que necessitava para a
gravação das músicas da minha banda. Além disso, tive toda a
orientação para realizar a compra dos equipamentos de que realmente
precisava com ordens de prioridades e de investimentos bem
definidas, utilização de programas, aparelhos, plug-ins, periféricos
e acessórios. Isto tudo sem contar com os debates super-democráticos
sobre a situação do nosso segmento, tendências e novidades, onde
toda a turma especializada participava, enriquecendo ainda mais a
discussão com informações, fomentando parcerias, trocas e, por fim,
até amizades”
Denise de Almeida (denise@backstage.com.br)
é editora da Revista Backstage
Publicado na Revista Backstage em
janeiro de 2005
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