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Nunca foi tão
fácil dominar os “segredos” da produção musical e de
áudio. Porque, na verdade, não são segredos, e sim
técnicas aprendidas com a experimentação prática e
depois sedimentadas com a experiência, além de muito
estudo. Em outras palavras, é mais uma questão de
‘vontade’ do que de ‘capacidade’. Até porque talento
pode ser desenvolvido com estudo e prática
As
novas tecnologias simplificaram o acesso tanto ao
conhecimento quanto aos bens de produção musical. Hoje,
todos os músicos, sejam eles profissionais, iniciantes
ou amadores de qualquer classe social e estilo musical
têm plenas condições de montar e operar um estúdio e de
realizar gravações e mixagens de alto nível. Com a
absorção dos antigos equipamentos pelo computador, a
queda nos custos e a facilidade de obtermos informações
e estudar com a Internet o que parecia há poucos anos um
sonho distante é agora uma realidade óbvia até para quem
não queria ver. Tornar-se produtor é parecido com
aprender a tocar um instrumento, que depende 99 por
cento de transpiração e um por cento de inspiração, como
dizem os mestres. Só que, temos que admitir, é bem mais
rápido aprender a dominar as técnicas de gravação e de
produção musical do que aprender a tocar bem a maioria
dos instrumentos.
O
primeiro passo é entender que a produção musical precisa
de conhecimentos ou noções de áudio, música,
informática, inglês, marketing e até de psicologia.
Outras matérias também ajudam, como direito, história e
eletrônica, mas não são as principais. Assim como
ninguém precisa estudar telecomunicações para falar num
celular, o produtor que usa uma mesa de som não é
obrigado a entender de eletrônica. Quem precisa mais
disso são os técnicos de manutenção, os projetistas de
equipamentos e os desenvolvedores de programas. O melhor
é o produtor musical estar atualizado na maior variedade
possível de assuntos, acompanhar o seu tempo.
No
entanto, é importante ter alguma noção do que se passa
nos computadores, já que eles passaram a ser o próprio
sistema de gravação. Quem vai montar ou comprar um
computador para gravar tem que saber escolher todas as
peças e os programas, sob pena do sistema simplesmente
não funcionar. Nossos estúdios, hoje, têm quase todos os
componentes em forma de software. Já não são apenas
programas gravadores, mesas de mixagem e efeitos, mas
instrumentos musicais muito complexos com enormes
coleções de timbres de altíssima qualidade, simuladores
de amplificadores, de microfones, de ambientes
acústicos, ferramentas revolucionárias para produção de
música eletrônica e programas de edição de vídeo, a
mídia para onde tantas outras estão convergindo. Os
computadores que suportam todos esses recursos são bem
mais sofisticados do que aqueles montados para
escritórios.
Mesmo assim, com a queda na taxação dos produtos de
informática e a desvalorização do dólar, computadores
bastante robustos custam, hoje, poucos milhares de
reais. Este era, nem faz muito tempo, o preço de um
único item do estúdio, como um sintetizador popular ou
uma mesinha de som, e não o custo de, praticamente, um
estúdio inteiro. E muitos computadores com configurações
mais antigas ou básicas rodam perfeitamente os programas
mais leves e os mais antigos. Para realizarmos gravações
e mixagens de instrumentos e vozes em pequena
quantidade, em muitos casos, podemos usar um mesmo
sistema por muito tempo, escapando do consumismo
desenfreado que leva alguns produtores a trocar de
computador todo ano.
É
claro que todo mundo quer ter sempre a última versão do
seu programa favorito. Mas isto não é o mais importante.
O importante, como diz o jargão, é usar o programa que
você sabe usar. Enquanto ele estiver resolvendo, ninguém
precisa se culpar por não estar com o sistema de
gravação atualizado se não tiver condições para isto.
O
mercado de trabalho
A
diversidade dos equipamentos e programas encontrados nos
home studios reflete a variedade de talentos e aptidões
que temos no meio musical. Mesmo em casa ou em sistemas
móveis, músicos de todos os gêneros e estilos gravam e
mixam muitos canais de áudio, masterizam CDs e ainda
divulgam e comercializam suas obras na Internet,
produzem música eletrônica e todo tipo de música
utilizando samplers, sintetizadores e gravando áudio ao
mesmo tempo, mixando e masterizando todo o material. Com
isso, fazem álbuns, trilhas, jingles e demonstrações.
Muitos também sonorizam vídeos ou mesmo produzem seus
próprios, apresentando seu trabalho na Internet e
autorando DVDs seus e dos seus clientes.
Esses
produtores atendem diretamente ou através de agências a
um mercado crescente e diversificado. Além dos clientes
tradicionais, como gravadoras, artistas e bandas
independentes, emissoras de rádio e TV, agências de
publicidade e produtoras de cinema, vídeo e teatro,
temos hoje empresas produtoras de multimídia, web
designers e clientes diretos de todo tipo, como grandes
e médias empresas com seus vídeos institucionais e de
treinamento, igrejas, políticos, DJs e as múltiplas
emissoras de TV digital que surgirão a partir de agora.
Isto sem contar o público em geral que solicita
transferência de áudio de mídias antigas para as novas
como cópias de fitas e discos para CDs e arquivos MP3.
Todos esses clientes se voltam cada vez mais para a
negociação direta com os produtores musicais.
Paradoxalmente, quanto mais se torna uma atividade
caseira, mais a produção de áudio e música expande seu
mercado e, com isso, se estabelece como atividade
econômica de massa e não mais somente de ponta. Não
podemos esquecer as grandes produtoras e muitas outras
empresas que absorvem diversos produtores, mas é
espantosa a multiplicação dos estúdios caseiros com
atividade comercial permanente atuando em todos os
municípios do país.
O
que é preciso estudar?
Um
músico, o tempo todo, produz áudio. É fundamental para
todo músico conhecer as propriedades do som e certas
técnicas de utilização de recursos de áudio para ele
conseguir soar adequadamente. Como, por exemplo, saber
captar e equalizar o som de seu instrumento para que ele
soe natural numa gravação ou numa apresentação ao vivo.
Também
é fundamental o operador e o produtor de áudio
conhecerem música para que o resultado do seu trabalho
tenha musicalidade. Parece óbvio, mas, sem isso, o seu
som fica estranho. Sem um certo treinamento musical de
sua audição, eles podem deixar passar erros de
interpretação ou de harmonia dos músicos que gravam e
terão mais dificuldade em compreender as funções dos
instrumentos e vozes dentro de um arranjo, o que
comprometerá a mixagem e o produto final.
O
produtor musical é, antes de tudo, um músico. Ao
produzir um CD ou compor uma trilha, ele vai realizar da
forma mais completa o fazer musical. Vai reunir todas as
idéias musicais de forma equilibrada num projeto, o que
requer conhecimento de música. Para garantir a qualidade
sonora do seu trabalho, ele também precisa conhecer o
áudio e as suas ferramentas.
Vários novos produtores (infelizmente, alguns nem tão
novos assim) julgam compensar suas deficiências de
conhecimento utilizando presets dos plug-ins de
áudio. Essas programações são feitas pelos fabricantes
para mostrar os recursos e a versatilidade dos seus
programas. Mas foram desenvolvidas para outras músicas,
outras gravações. Nada garante que sejam adequadas ao
que se está gravando ou criando. Perseguindo supostos
“padrões” de operação dos equipamentos e programas, seu
som nada tem de ‘padronizado’ ou “a favor da maré”, como
eles provavelmente gostariam. Soa apenas desajeitado. A
falta de conhecimento de áudio costuma impedir que o
operador, o produtor e os músicos em geral encontrem o
seu som.
É
muito importante conhecer a prática e a teoria musical,
saber ler, saber escrever música. Porque quem sabe ler e
escrever, sabe ouvir. Enquanto o músico precisa conhecer
áudio para saber fazer soar aquilo que concebeu, o
profissional de áudio precisa entender que ele também é
um músico e buscar dominar também as ferramentas
musicais. Mais de noventa por cento do que se grava e do
que se sonoriza é música.
Quem
pretende seguir a carreira de produtor musical precisa
conhecer música a fundo, além do áudio. É este ‘maestro’
moderno quem faz a música acontecer, nem que seus
“músicos” sejam programas de computador. Embora gravar
tudo sozinho seja hoje um hábito de muitos, os pioneiros
causaram estranheza em 1968 e 1973 quando gênios como a
tecladista Wendy (Walter) Carlos e o multiinstrumentista
Mike Oldfield lançaram, respectivamente, “Switched-On
Bach” e “Tubular Bells” tocando todos ou quase todos os
instrumentos, fossem eletrônicos, elétricos ou
acústicos. O costume nas sessões da época era todos os
músicos serem gravados ao mesmo tempo. Essa foi uma
conquista da gravação multipista e uma nova fronteira na
produção musical, que deve ser vista sem preconceitos.
O
estudo da música deve priorizar o aprendizado do
instrumento favorito da pessoa, além de um instrumento
harmônico como o teclado ou o violão, a teoria e a
prática da percepção musical, harmonia popular e
“tradicional”, arranjo e noções de contraponto. Reserve
uma hora por dia, pelo menos, pelo resto da vida. Música
leva muito tempo e cada vez temos mais o que aprender e
praticar, mesmo quando não desejamos nos
profissionalizar como instrumentistas ou cantores.
O estudo do áudio inclui conhecimentos sobre a física do
som, captação, conversão do sinal analógico em digital,
cabos e conectores, microfones, mesas de som, efeitos,
equalizadores, compressores, redutores de ruídos,
endereçamento dos sons, monitores, acústica, técnicas de
gravação, edição, mixagem e masterização, MIDI,
programação de sintetizadores e samplers, programas e
plug-ins de gravação e configurações de computadores.
George Martin e os Beatles
Sem
esses conhecimentos, mesmo que básicos, o senso crítico
acaba, o conhecimento e a experimentação são
substituídos por procedimentos-padrão. Todo mundo
gravando igual, com o mesmo equipamento, regulado do
mesmo jeito. Quando a arte vira indústria, é grande a
chance de ela deixar de ser arte.
Antonio Guerreiro de Faria é compositor, arranjador,
produtor musical, pianista, mestre em música e professor
de harmonia da UNIRIO, musicólogo com trabalhos
publicados no Brasil e no exterior. Ele afirma: “O
produtor musical é um produtor de música. Se o produtor
vai produzir música, ele tem que saber música, porque
senão ele não será um produtor musical.”
“Existem produtores que ficaram famosos", continua.
"Verificando o perfil de George Martin, a gente vai ver
que é um músico erudito que estudou composição a sério e
que, além disso, ele produziu o som dos Beatles. Na
realidade, é um produtor musical porque também ele é um
compositor e arranjador. Se a gente pegar o Sargent
Peppers, que é um disco premiado, um dos ícones da
década de 1960, que foi fundamental para mudar todo o
panorama musical do mundo, vai ver que foi produzido até
a medula por um cara chamado George Martin. Porque nem o
John Lennon, nem o Paul McCartney, nem o Ringo Starr nem
o George Harrison orquestravam coisíssima alguma. É um
disco orquestral, que foi orquestrado pelo George
Martin. Ou será que você pensa que o trompete e as
trompas foram produzidos pelo John Lennon? Tá na cara
que foi um cara que escreveu tudo aquilo. Esse cara se
chamava George Martin. Então, havia o conceito de que o
produtor musical também era um arranjador e compositor.”
“Um
grande produtor musical aqui no Brasil, por exemplo, foi
Cesar Guerra-Peixe (professor durante décadas do próprio
Guerreiro e de Rildo Hora, o produtor de Zeca Pagodinho,
entre outros nomes). Quando saiu do Recife e foi para
São Paulo em 1953, uma das coisas que ele fez foi
produzir discos para a (gravadora) RGE - Fermata. Era
uma época em que os produtores musicais não eram somente
técnicos de informática ou técnicos de som, eles eram,
fundamentalmente, músicos. Por serem músicos, por terem
conhecimento musical, eram capazes de fazer os arranjos
dos seus produzidos, de conceituar o som dos seus
produzidos. Isso faz uma grande diferença, o camarada
que sabe música e faz o produto acontecer e conceitua
esse produto.”
Antonio Guerreiro de Faria
“Outro produtor muito conhecido e admirado chamava-se
Thom Bell. Nem era americano, ele era jamaicano. Começou
tocando piano erudito, conhecia o repertório inteiro,
estudou composição, e foi morar na Filadélfia (Estados
Unidos). Lá ele criou o “Philly Sound” ou o “Som da
Filadélfia”, com todo aquele colorido harmônico de todos
os arranjos característicos que marcaram até hoje a
década de 70. Ele era fundamentalmente um músico,
compositor, em parceria com a letrista Linda Creed
("Stop, Look, Listen", "You Are Everything", "You Make
Me Feel Brand New" e muitos outros sucessos) e produziu
o famoso grupo de soul The Stylistics. Depois, fez a
disco music e os Bee Gees o contrataram como
arranjador. Fizeram a trilha sonora de “Saturday Night
Fevers” ("Os Embalos de Sábado à Noite") e criaram uma
nova febre que tomou o mundo.
Thom
Bell, nascido na Jamaica em 1941, mudou-se ainda criança para a
Filadélfia (Estados Unidos), onde transformou-se no principal
arquiteto da Philadelphia soul, subgênero da soul music
norte-americana nos anos setenta e uma das vertentes mais populares
e influentes daquela época.
Estudou piano clássico quando jovem e entrou no grupo hamônico The
Romeos, em 1959. Aos 19 anos, trabalhava como compositor e
arranjador do filho favorito da Filadélfia, Chubby Checker. Logo
depois, Bell assinou com a Cameo Records como pianista de estúdio.
Seu primeiro trabalho foi com o grupo de soul
Delfonics. Na nova gravadora Philly Groove, em
1968,
Bell tornou-se produtor. O trabalho de Bell com os Delfonics
tornou-se imediatamente reconhecido por sua delicadeza e pela doçura
de suas composições e arranjos.
Em
1971,
ele fundou seu próprio selo musical, a Philadelphia International
Records (PRI), onde o estilo Philly Soul rapidamente tomou
forma, e assumiu os
Stylistics. Ele formou com
Linda Creed uma das duplas de compositores mais importantes da
história da música norte-americana, marcada por letras e arranjos
imortalizados pelo falsetes do vocalista Russell Thompkins Jr.
Bell ainda produziu artistas como Johnny Mathis e
os grupos The Spinners e The
O'Jays, outros ícones daquele período.
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“George Martin (The Beatles) na Inglaterra, Guerra-Peixe
e Radamés Gnattali (30 anos na Rádio Nacional) no Brasil
e Thom Bell (Stylistics) nos EUA são caras que fizeram
os sons, que construíram novas estéticas. Eles eram
produtores musicais, não eram só produtores técnicos.
Isso faz toda a diferença.”
“Nos
anos 80 estava-se fazendo muita coisa que foi resultado
das décadas de 60 e 70, quando se introduziu mais
novidade, musicalmente falando. Foram períodos áureos da
música, seja no Brasil, seja nos Estados Unidos ou na
Inglaterra. De 90 pra cá se introduziu mais tecnologia.
Porque aqueles produtores eram formados em composição,
conheciam música de concerto, história da música, eram
homens cultos, escreviam música e dominavam o métier,
numa época em que a imagem não interferia na qualidade
musical. Hoje em dia parece que a imagem tomou o lugar
da música. Isso é muito, muito ruim. O produtor aponta
com o dedo para o gráfico do áudio na tela e diz ‘ah,
aqui ta desafinado!’. Ele não ouve mais. ‘Passou de
tanto, vamos comprimir!’. É a receita de bolo. George
Martin botou um quarteto de cordas tocando com os
Beatles. Ele criou um som. Esse pra mim é o perfil de um
produtor musical. Só as pessoas que estudam e que têm
cultura musical e cultura geral podem se intitular com
sucesso produtores musicais.”
Além
disso, o produtor precisa sempre estar atualizado com os
equipamentos, placas de som, novos programas e técnicas.
Noções de marketing e de web marketing, um bom senso de
administração e espírito empreendedor são determinantes
para o sucesso dos projetos de um produtor musical.
Outro campo importante são os conhecimentos da
legislação sobre produção musical. Ajuda muito um certo
conhecimento do idioma inglês, mesmo que só em leitura.
Onde
aprender
Já
existem vários cursos livres de áudio e produção musical
no Brasil. Alguns deles são de boa qualidade. No
entanto, bastante gente confunde cursos superiores de
engenharia de áudio com ensino de produção musical. A
engenharia de áudio é uma especialização da eletrônica
para formar projetistas de equipamentos e especialistas
em acústica de produtos.
É o
professor Guerreiro quem conta: “A faculdade americana
mais conceituada, a Berklee College of Music, tem dois
cursos de produção musical ou Music Production and
Engineering, o Degree e o Diploma. O
primeiro equivale ao nível técnico e o segundo ao nível
universitário daqui do Brasil. Vamos começar por baixo,
pelo nível técnico, que equivale ao ensino médio ou
segundo grau. O produtor musical estuda dois períodos de
redação, história da música ocidental, história da arte,
matemática para produção musical e engenharia, teoria do
som (acústica) e uma matéria qualquer eletiva. Prevê
também três períodos de arranjo, dois períodos de
teoria, harmonia tradicional, contraponto tradicional,
tudo isso no nível técnico do curso de produção musical.
Desde quando no Brasil alguém pensa em fazer uma coisa
como essa? Ele tem ainda nesse nível três períodos de
treinamento auditivo, dois de solfejo, fora harmonia 1,
2, 3 e 4, regência 1 e 2. O produtor musical em nível
técnico nos EUA estuda dois períodos de regência. Porque
ele pode ter que reger uma orquestra enquanto produtor e
arranjador.”
“O
conceito americano, prossegue Guerreiro, é de que o
produtor produz o som, um conceito muito mais profundo
que permitiu àqueles caras fazer a música que eles
fizeram. Depois, nos outros quatro períodos é que o
aluno vai ter engenharia de som, engenharia de produção
musical, gravação, mixagem e outras matérias de áudio e
MIDI inerentes ao curso de produção musical. Mas ele
passa os quatro primeiros períodos estudando
intensivamente música. Depois, nos outros quatro
períodos é que ele vai ter matérias ligadas ao estúdio.
As matérias musicais tomam mais da metade do curso.”
“No
curso universitário (Diploma), que equivale aqui
ao curso universitário, com quatro anos de duração, o
aluno estuda quatro semestres de treinamento auditivo,
dois de solfejo, quatro de harmonia, arranjo e
introdução à tecnologia musical, além de princípios de
tecnologia do áudio, análise de produção, técnicas de
mixagem, business, técnicas de gravação
multipista, produção musical para vídeo e realiza
projetos de produção. Ele já estudou contraponto antes e
sabe o que é contraponto, sabe fazer um cânone, sabe o
que é imitação, sabe fazer um fugatto. Eu quero
saber qual é o curso de engenharia e produção musical no
Brasil que tem isso.”
“A
carreira foi estruturada assim. No Brasil, é comum
nivelar por baixo. Quer dizer, ‘vamos adaptar à
realidade brasileira’. Eu nunca me conformei com essa
realidade, acho que a realidade tem que ser mudada. Ela
não tem que ser carregada nas costas nem ser lamentada;
ela tem que ser transformada. Isso se a gente quiser
fazer um país decente.”
“Outra
coisa que dificulta muito aqui no Brasil é a estrutura
do ensino massivo das universidades que põem em sala 20,
25 alunos, na esperança de que alguém saiba alguma
coisa. Na Alemanha, as turmas de harmonia e de percepção
têm cinco alunos para cada professor. Isso é uma
bofetada no nosso sistema em alto estilo, porque eles
querem formar com qualidade, não querem quantidade. Aqui
no Brasil o MEC exige uma quantidade de alunos para cada
professor. Se tem cinco alunos em sala, está-se
desperdiçando o professor ‘só’ para cinco alunos. Nossa
realidade é a mais tacanha e a mais retrógrada
imaginável. Não é assim que a gente vai construir um
país.”
“O
brasileiro precisa ser mais informado. Ao dizer isso
numa revista com a articulação que a Backstage tem eu
fico esperançoso, ao ser entrevistado numa matéria como
essa, de poder modificar alguma coisa na estrutura da
produção musical deste país. O produtor tem que saber
usar os recursos digitais e de MIDI, mas tem que ser
capaz de reconhecer quando uma corda do violão está
desafinada.”
A
Internet pode ser um ótimo campo para obtermos
informações sobre áudio. Visitar os sites dos
fabricantes e ler os manuais dos programas e dos
equipamentos traz um bom volume de conhecimento. Existem
diversos sites com vídeos educativos sobre o uso dos
programas.
Os
problemas aparecem quando o estudante confunde opinião e
informação com conhecimento. Algumas pessoas tendem a
valorizar qualquer coisa publicada, mesmo que estejam
escritas em fóruns de discussão e em blogs. Aí é que
mora o perigo. Fóruns são para detectarmos tendências,
não para estudarmos. Muitas vezes, alguém que não sabe
muito bem o que está perguntando debate com outros que
também não têm muita certeza do que estão respondendo.
Fontes confiáveis de conhecimento são sites de cursos e
de instituições isentos, sem compromissos comerciais. É
óbvio que cada fabricante e cada revendedor vai sempre
mostrar as vantagens dos seus produtos, nunca os
defeitos. Nessa hora, os fóruns de debates podem ser
úteis para conhecermos o lado dos usuários. Como sempre,
o conhecimento virá do confronto de opiniões
contraditórias.
O
que ouvir
O
bom produtor escuta todo tipo de música. É fundamental
para quem começa na carreira ir a shows de música
popular e concertos de música erudita. Entrar numa sala
de concertos e ouvir e ver uma orquestra sinfônica se
apresentando sem microfones e nenhum aparato de áudio é
muito importante. Conhecemos os verdadeiros timbres de
muitos instrumentos, sua força expressiva em relação aos
demais, suas funções dentro da música, as combinações
entre eles e muito mais, além de colocarmos nosso
cérebro musical em contato com as criações de alguns dos
maiores gênios da história da humanidade, o que é
bastante inspirador.
Antonio Guerreiro acrescenta: “Ouvir também música
japonesa, árabe, indiana, ouvir as músicas do mundo,
trance, trash, hard rock. É bom que o produtor musical
esteja voltado para o processo de globalização, já que a
tendência é a fusão de estilos, tendências musicais
diversas, de diferentes culturas que estão se fundindo.
Toda cultura é um processo de fusão. As culturas se
intercambiam e se interdependem. Ninguém pode ser
técnico ou produtor de um estilo só. Seria muito
triste.”
Ao
ver um show, alem de curtir a música, devemos prestar
atenção no áudio. Se for possível, leve um papo com o
operador de áudio. Saber o material que ele utiliza,
como ele contorna problema de acústica e deficiências do
equipamento, como mixa a banda ao vivo em cada tipo de
ambiente vai ajudá-lo muito a formar suas convicções.
Escutar todo tipo de gravação, sejam CDs ou arquivos
baixados na rede, deve ser uma prática diária. Prestar
atenção no trabalho de cada instrumento e voz, na
ambiência criada pelo produtor, no arranjo, na maneira
como os instrumentos se combinam e na diversidade de
estilos de produção é uma prática muito útil para nosso
amadurecimento profissional.
Psicologia
O
produtor deve entrar em sintonia com o cliente. É
necessário saber questionar com paciência e respeito,
ouvindo e demonstrando interesse. O cliente precisa
perceber que aceitamos suas idéias e que valorizamos e
entendemos seus sentimentos e necessidades. Existe a
necessidade do cliente ver que o produtor não está
distante e insensível, mas que admira sua música e quer
fazer o melhor para valorizá-la ainda mais.
Os
maiores problemas no trabalho do produtor acontecem
quando o produtor se vê em uma posição superior à do
cliente. A situação ideal é observada quando o produtor
coloca a serviço do cliente todo o seu conhecimento, sua
arte, sua atenção, sua disposição em ouvir, em
compreender e ajudar, ao mesmo tempo em que considera o
cliente como aquele que mais conhece a respeito de sua
música, pois a experiência de criá-la é dele.
O
pré-requisito é uma relação bem construída, a partir de
um contato em que o produtor transmita simpatia,
acolhimento, identificação, confiança, segurança e
apoio. O cliente que se encontre envolvido por essas
qualidades certamente acolherá de forma receptiva o que
lhe for informado e proposto.
Como
cobrar
A
negociação de uma produção é um momento delicado e
crítico. O produtor, mesmo o iniciante, deve ter a real
noção do valor do seu trabalho e dos benefícios que
trará ao cliente. Não adianta tentar se diferenciar no
mercado pelo melhor equipamento. Logo aparece outro com
equipamento ainda melhor. E aí, todo o investimento pode
não ter retorno. Igualmente, destacar-se pelo menor
preço costuma ser desastroso. Primeiro, porque você fica
nivelado por baixo, identificado por cobrar “baratinho”,
sem chances de aumentar seus ganhos no futuro; segundo,
porque um garoto com um “paitrocinador” pode trabalhar
até de graça, só para praticar, e levar sua clientela.
Cobrar menos do que o valor do seu trabalho vai levar
você ao desinteresse; cobrar muito pode levar o cliente
a desistir. Encontre o preço adequado, equilibrando o
seu investimento pessoal e material com as
possibilidades do seu mercado. Mesmo que alguns clientes
não disponham do capital para investir agora, eles o
procurarão no futuro. Seja flexível, cobrando valores
diferenciados ou dando descontos para clientes com
diferentes condições.
Para
encontrar seu preço, leve em conta os custos da produção
(seu tempo, suas despesas com luz, a depreciação do
material, outros profissionais contratados) e o
potencial de lucro para o cliente. Ao produzir jingles
publicitários e trilhas sonoras, considere a área
geográfica, o prazo de exibição, a audiência das
emissoras que vão exibir o trabalho e o potencial de
lucro do cliente. Não podemos esquecer a concorrência. É
claro que o preço não pode ser muito distante da média
do nosso mercado. Portanto, diferenciar-se
artisticamente é fundamental. Estilo costuma ser uma das
principais questões que levam os clientes a escolherem o
produtor musical.
O
produtor, cantor, compositor e professor de produção
executiva de CDs do Home Studio Leandro Fregonesi
completa: “o produtor deve cobrar o seu serviço com base
na duração do projeto, na quantidade de trabalho, nos
valores de mercado no qual o projeto será realizado, na
quantidade de responsabilidade que será depositada sobre
o produtor, no tamanho e importância do contratante e em
eventuais autorizações prévias de uso de obras,
fonogramas ou imagem.”
Leandro Fregonesi
Os
prazos de entrega devem ser cumpridos para não
prejudicar, desinteressar ou irritar o cliente. Para
combinar prazos viáveis, faça um planejamento minucioso
de todas as etapas do processo. Na negociação podem ser
oferecidos serviços extras incluídos no preço: confecção
das partituras, da arte da capa do álbum, outros músicos
incluídos no custo, preparação vocal, produção
executiva, encaminhamento para distribuidoras e fábricas
de CDs e apresentação de provas durante a produção para
o cliente aprovar.
Não
descuide dos contratos, garantindo os créditos na ficha
técnica e os devidos direitos autorais e conexos, seus e
dos profissionais envolvidos. Mesmo em produções
pequenas com combinação verbal, tudo tem que estar muito
bem esclarecido e combinado. Com estes cuidados, os
clientes aparecem, voltam e se multiplicam.
Sergio Izecksohn é professor e coordenador dos
cursos do Home Studio.
Publicado na revista Backstage em maio de 2008.
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