Os Home
Studios no Fama
Sérgio
Izecksohn
Luís Dicastro
Você
sabia que o FAMA, o reality show
musical da rede Globo, é gravado em vários home studios?
O avanço da tecnologia já permite que os arranjadores da
televisão realizem o seu trabalho em sua própria casa.
No FAMA, as músicas são primeiramente repartidas entre
os produtores PH Castanheira, Roger Henri, Hamleto
Stamato, Alberto Rosenblit e Nani Palmeira. A partir
daí, eles são responsáveis não só pelo arranjo como por
toda a produção da faixa. Um trabalho muito pesado,
diga-se de passagem, pois num curto espaço de tempo, 15
dias, foram gravadas nada menos que 96 músicas. Isto dá
uma média aproximada de 20 músicas para cada um. Tal
quantidade de músicas foi necessária para suprir todos
os festivais, realizados em várias capitais, e desta
forma escolher os finalistas. Depois da seleção, o show
não pára e a luta continua, com atividades diárias e
shows semanais. O pior é que, ao mesmo tempo, PH fez a
produção musical do Criança Esperança, um programa que
dá mais de 50 pontos de audiência, e, portanto, de
grande responsabilidade.
Paulo Henrique (PH) Castanheira
O processo é assim:
Cada um começa o seu trabalho em seu home studio,
sozinho, sem nenhuma interferência externa. Essa
condição é sine qua non, porque esta etapa é
impossível de ser realizada em um estúdio com
aproximadamente 30 pessoas trabalhando ao mesmo tempo.
As fitas, os racks de sintetizadores e samplers foram
abolidos. Cada um dos produtores usa um setup diferente,
um programa para o MIDI (como Sonar, ProTools...) e
outros programas para gerar o som (Reason, GigaStudio,
Sample Tank). Desta forma, ao mesmo tempo em que estão
fazendo o arranjo, estão automaticamente gravando a
base.
Hamleto e PH utilizam o Sonar e o GigaStudio em PCs.
Nani usa ProTools no Mac e GigaStudio no PC. Rosemblit é
usuário do Digital Performer, no Mac, enquanto Roger
também usa o Sonar em seu PC. Todos usam sons da Native
Instruments, Spectrasonics e Reason, entre outros
samples.
Hamleto Stamato
A função Rewire permite que dois programas rodem ao
mesmo tempo interligados. Um é para seqüenciar e o outro
substitui o velho rack de samplers e sintetizadores. No
seqüenciador, as facilidades de edição em MIDI são
infinitas e nos instrumentos virtuais a qualidade e
quantidade de timbres é impressionante.
Outra
tarefa muito importante é fazer as partituras. Os
músicos que gravam com essa perfeição e com essa
velocidade dependem delas. O programa preferido é o
Encore. Ele tem todas as ferramentas que um maestro
precisa: Faz várias edições, escreve em grade e depois
separa instrumento por instrumento, copia, apaga,
transpõe (como para sopros em mi bemol ou si bemol),
troca clave, compasso...
Alberto Rosemblit
Quando os arranjos são concluídos, são levados para o
studio “BR Plus” na Barra da Tijuca, para se fazer a
segunda parte do processo, que é gravar com os músicos.
É um estúdio de dois andares com duas salas de gravação
e uma suíte. Pode-se gravar a banda toda de uma vez, o
que aliás é feito rotineiramente.
O
equipamento principal, que fica na suíte do andar de
cima, é um ProTools (rodando em um G4) com a superfície
“Control 24”, que já vem com 16 preamps da
Focusrite, monitores
Mackie HR 824, um par
de caixas JBL com falantes de 15 polegadas (para quando
é necessária uma grande pressão sonora), um sistema
Dolby 5.1 Genelec, um
PC só para o GigaStudio, uns 30 microfones (de todos os
tipos), guitarras, violões, piano acústico, baterias,
teclados...
No andar de baixo, onde geralmente se grava bateria,
piano acústico, cordas e percussões, existe uma estação
de trabalho com outro G4, uma Digi 001, dois monitores
JBL e um velho sintetizador Ensoniq TS-12, só para abrir
mais uma frente quando o pau quebra. No término do
programa será dado um grande upgrade em todo o
equipamento.
Roger Henri
Agora, como é que cada um dos arranjadores faz para
trazer o seu material para esse estúdio? É simples, cada
um converte todos instrumentos que criou em arquivos de
áudio. Um para cada um, é claro. Faz também um arquivo
standard MIDI (.mid), que será usado como referência
(andamento, compassos..).
Esses arquivos são importados no estúdio BR Plus.
Primeiro o MIDI para dar o andamento, depois os arquivos
de áudio. O Sonar e o Performance têm a função freeze
synth. Essa é uma função muito útil. Basta você
clicar em freeze que o programa se encarrega de
converter o que está no formato MIDI para áudio.
Certifique-se de que todos esses arquivos de áudio
começam no início da música, para evitar problemas de
sincronização.
Alguns desses arquivos são usados apenas como guia e são
eliminados depois, como a bateria, por exemplo.
Geralmente, todos os teclados “valem”. São acrescentados
guitarras, violões, baixo, bateria,
percussões, metais e
vocais. Vocais e metais quase sempre gravam separados e
fazem muitas dobras, mas nada é regra.
Nani Palmeira
Na terceira parte os instrumentos são reduzidos em
subgrupos: metais, vocais,
percussões... e são levados para a casa do FAMA
no PROJAC em um outro
Mac com monitor de LCD para ficar mais leve. Essas
reduções são somadas aos instrumentos que tocam ao vivo
para dar mais peso e também servem como guia. Todos são
mixados com a voz em uma mesa Solid State Logic de
centenas de milhares de dólares.
O interessante dessa história toda é saber que a mola
mestra de tudo isso é um equipamento como o que você
pode ter em sua própria casa.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Luís Dicastro (dicastro@highway.com.br) é guitarrista e
produtor
Publicado
na Revista Backstage em 2005
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