Há muito
tempo as pessoas me perguntam sobre software livre para
produção musical e sempre tocamos no assunto com muita
expectativa, afinal o custo dos programas de gravação
ainda é muito alto para a maioria delas. Até aqui,
tínhamos pouca informação, mas agora parece que está
chegando a hora do Linux no áudio. Um novo programa se
destaca pelo seu nome sugestivo e provocante: Protux.
Mas também pelos recursos e pela filosofia em que se
baseia. É um gravador multipista poderoso e simples de
usar. Uma estação de trabalho completa, nem para Mac nem
para Windows. Ele roda em GNU/Linux. E o melhor da
história: ninguém vai lhe chamar de pirata se você
baixar o programa e o sistema operacional da internet,
der cópias para seus amigos ou mesmo se você resolver
modificá-los e vender suas próprias versões do programa
e do Linux. Eles foram feitos para isso, baseados na
concepção do software livre.
Software livre.
Este conceito é muito discutido e não deve ser
confundido com gratuidade. A questão está muito mais
relacionada ao acesso ao código fonte e à possibilidade
de os usuários beneficiarem o programa com novos
recursos, retirando esse monopólio do fabricante. Vários
conceitos em português estão em
http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html
e servem para nos iniciarmos no assunto.
A dupla Protux/Mustache é um conjunto profissional de
ferramentas de produção de audio e MIDI desenvolvida com
o auxílio de desenvolvedores da Alemanha e Holanda e
engenheiros de som da Inglaterra e Estados Unidos. Mas o
administrador do projeto é um brasileiro, Luciano
Giordana. O Protux já alcançou a marca de 200 mil
downloads desde o início do desenvolvimento. Ambos os
projetos podem ser baixados do repositório Savannah - http://savannah.nongnu.org/projects/protux
Protux, gravador multipista/editor de áudio para Linux.
Protux
(e não ProTux), ou PROfessional Audio Tools for LinUX,
é um gravador multipista prático e poderoso para
GNU/Linux. Ele visa ser a mais prática e uma das mais
poderosas ferramentas de áudio em todos os sentidos. O
Protux nos permite usar o poder da combinação
teclado+mouse (sem cliques) para acelerar imensamente o
processo de produção de áudio. Este conceito é conhecido
como “Jog-Mouse-Board” (JMB): o toque numa tecla e uma
movimento no mouse sem cliques. Sem o uso excessivo do
mouse e do teclado, comum a todos os demais gravadores,
esta tecnologia agiliza a produção e é mais ergonômica,
evitando lesões por esforço repetido (LER) e similares.
Janela principal. A preocupação dos desenvolvedores é a interface limpa e, de fato, têm
conseguido grandes avanços nesta área. No alto à
esquerda, há um grande mostrador como um LCD. É a
interface com o mecanismo JMB, que informa ao usuário
qual o comando ele está executando no aplicativo.

Gravação na MTA (Multi Track Área).
Em vez de usar medidores LEDs ou VUs para cada pista,
o Protux mostra a evolução do volume ao longo da pista.
Há no alto à direita um “Bus Monitor” que contém um LED
com o nível de gravação ou de reprodução.
Project Manager.
Este gerenciador de projetos é um dos pontos altos do programa. Permite
gerenciarmos fácil e eficientemente as músicas gravadas,
importando outras, masterizando álbuns completos e
queimando-os em CD.

Bus Monitor.
Desenhado especialmente para usar o menor espaço
possível e ao mesmo tempo dar todas as informações de
que necessitamos para um medidor de volume tipo VU ou
LED. Também podem ser desenhados “crossfades” e curvas.
Filter Mode.
Aqui, filtros (efeitos) são adicionados não
destrutivamente a uma pista gravada. Eles podem ser
configurados facilmente e controlados por curvas e seus
nós. A interface JMB é usada para mover os nós das
curvas com muita facilidade.
Há ainda uma janela com as propriedades globais, como ajustes
de tempo do JMB, seleção de driver e seleção de bits e
taxas de amostragem.
Os pontos de vista do administrador do projeto, Luciano
Giordana, coincidem com tudo o que estamos dizendo há
mais de oito anos nesta coluna:
“Até os anos 70, se você quisesse uma fotografia você teria
que chamar um fotógrafo. O custo de produzir uma foto em
casa e o conhecimento requerido para isso era imenso. E
você ainda tinha que despender um bocado de dinheiro
para comprar o equipamento e adquirir experiência no
trato com produtos químicos.
“Nessa época, quando a Kodak, a Fuji e outras indústrias de
materiais fotográficos começaram a desenvolver produtos
para o nível do mercado consumidor, ocorreu um fenômeno:
finalmente, as pessoas comuns passaram a produzir
material fotográfico em casa, mantendo só um pequeno
vínculo de dependência no processo químico, que ainda
tinha que ser feito por profissionais.
“Embora isto represente uma revolução real, os fotógrafos
continuaram a existir. Mas o número de profissionais
independentes cresceu estupidamente. E se contarmos os
fotógrafos amadores, o número explodiu. A principal
razão que causou o incremento na quantidade de
fotógrafos é a mesma razão pela qual tantos produtores
independentes de áudio estão emergindo agora. A razão é
um processo que eu chamo de “Banalização da Produção de
Áudio (BPA)”.
“Em um primeiro momento, esta terminologia pode causar alguma
rejeição. Mas a BPA é uma das melhores coisas que
poderiam acontecer a artistas, músicos e produtores de
áudio em geral. Quanto mais se banalizam as ferramentas
de áudio, mais artistas/produtores vão emergir. Os bons
e os maus, mas DEFINITIVAMENTE os bons não serão
bloqueados pelas limitações financeiras.
“Este processo começou a acontecer no final dos anos 90 na
área de produção de áudio. Quanto mais os preços das
placas de som caíam e os programas se tornavam mais
poderosos, mais independentes os artistas se tornavam.
Hoje em dia, é dito que mais de 70% dos músicos
profissionais produzem seu próprio material de áudio em
home studios ou algum tipo de estúdio particular. Uma
pequena parte ainda grava em estúdios
profissionais/comerciais.
“Estes estúdios comerciais tiveram os seus serviços afetados
pela queda na demanda de clientes. A maioria deles
começou a oferecer serviços de masterização, produção de
áudio orientada para o marketing e até produção de
CD-ROMs. O cliente tradicional, o artista, o músico, o
cantor ou a banda reservaram seu dinheiro e, em vez de
gastarem em aluguéis de estúdios, eles compraram um
equipamento simples que poderia potencialmente produzir
material da mesma qualidade em casa.
“Eu enfatizo este “potencialmente” porque é o ponto mais
importante que eu quero chamar a atenção. De fato, com
menos de cinco mil dólares você pode comprar um PC com
alguma boa interface de áudio, bons microfones e um par
de monitores de referência e criar um álbum de qualidade
profissional em casa. Mas isto não garante a qualidade
São necessários bons programas e um bom conhecimento de
áudio.
“ “Mas eles vão sempre criar um hardware mais poderoso e
proibitivamente caro”. É verdade. Mas no campo do audio,
como no da fotografia, há uma coisa que desvia tal linha
de raciocínio. Os sentidos humanos têm limites. Não
adianta ter um equipamento que disponha de amostragens
na resolução de 1 MHz em 512 bits. O ouvido humano ainda
ouve a mesma coisa que placas de som de 96 kHz/24 bits
de duzentos dólares podem manipular. As pessoas não
olham para os quase 900 kHz de diferença técnica.
“Elas olham para o sentido do áudio, a semântica, a mensagem.
Produtores profissionais de grandes estúdios concentram
seus esforços nos meios e suas “ferramentas”. Artistas e
pequenos produtores se concentram na mensagem. As
pessoas também se concentram na mensagem. Este processo
é reforçado mais e mais desde que os artistas estão se
tornando seus próprios produtores. Alguns deles estão
desenvolvendo um real talento em produção de áudio, já
que não estão apenas se fiando no uso de plug-ins, mas
tentando realmente conhecer o processo de produção de
áudio, e conseqüentemente acumulando conhecimento em
áudio.
“Agora vamos verificar o que aconteceu na área de ferramentas
de software. Tão logo a
indústria do áudio se tornou dependente de produções
digitais, em detrimento de produções analógicas, ela
notou que seria bem possível confrontar-se com uma queda
na demanda por serviços, desde que PCs comuns poderiam
fazer o serviço. Para evitar isto, foram criados
programas extremamente poderosos e caros. Desta maneira,
pensaram, a banalização da produção do áudio poderia ser
evitada pela limitação financeira. Só os
mesmos-garotos-ricos estariam aptos a comprar essas
ferramentas e os artistas pobres teriam que usar algum
equipamento de má qualidade mais um mau programa, ou
alugar algum tempo em estúdio.
“Mas o fato é que, agora, podemos ter em casa
equipamentos de audio e programas poderosos que custam
quase nada e ainda produzir grande material de áudio.
Com o advento do software livre, é possível eliminar o
custo com programas, assim como o custo com sua
personalização (já que ele pode ser modificado por
produtores que tenham habilidades em programação). Este
cenário mata a limitação financeira, ao mesmo tempo que
oferece todos os recursos de alto nível só encontrados
em hardware e software glamourosos.
“Desta maneira, a maioria dos artistas vão gradualmente
abandonando os estúdios para produzir o seu próprio
material em casa. E uma massa de mau trabalho vai
emergir, apesar dos bons trabalhos que vão ter espaços e
maneiras para serem criados. O fenômeno está aí e
ninguém pode evitá-lo. Então, qual é o destino dos
grandes e glamourosos estúdios comerciais e qual vai ser
a diferença entre uma boa produção de áudio e uma ruim
se todo mundo vai estar potencialmente apto a produzir
em casa com baixo custo e sem glamour?
“Para a primeira questão, há uma resposta engraçada: glamour.
Grandes estúdios vão continuar existindo pela mesma
razão que as companhias de software usam Oracle e não
Postgresql. Não há “glamour” para grandes popstars em
gravar em pequenos estúdios. O mesmo tembém aconteceu na
área da fotografia no início de sua banalização. Agora
não podemos encontrar “estúdios fotográficos”, mas
achamos fotógrafos famosos. Desta maneira, é possível
que venhamos a ter os muito conhecidos “produtores de
áudio” e os estúdios venham a ter menos importância que
os produtores.
“Para a segunda, a resposta é uma palavra: talento. Foi o
talento que fez Cartier Bresson ser considerado um dos
mais importantes fotógrafos de nossa época,
embora ele
usasse uma pequena ‘50mm normal lens’ sem nenhum
material especial. É o talento que faz com que muitos
incríveis músicos alternativos sejam produzidos com
simples soundblasters e bons microfones e monitores (e
bons ouvidos). A banalização da produção de áudio é o
cenário próprio para separar os artistas/produtores
realmente talentosos. Sem ela, você nunca poderia saber
se um produtor é talentoso ou simplesmente rico.”
Bem, agora todos nós já temos um bom pretexto para começar a
fuçar o Linux.