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Protux

Sérgio Izecksohn

Há muito tempo as pessoas me perguntam sobre software livre para produção musical e sempre tocamos no assunto com muita expectativa, afinal o custo dos programas de gravação ainda é muito alto para a maioria delas. Até aqui, tínhamos pouca informação, mas agora parece que está chegando a hora do Linux no áudio. Um novo programa se destaca pelo seu nome sugestivo e provocante: Protux. Mas também pelos recursos e pela filosofia em que se baseia. É um gravador multipista poderoso e simples de usar. Uma estação de trabalho completa, nem para Mac nem para Windows. Ele roda em GNU/Linux. E o melhor da história: ninguém vai lhe chamar de pirata se você baixar o programa e o sistema operacional da internet, der cópias para seus amigos ou mesmo se você resolver modificá-los e vender suas próprias versões do programa e do Linux. Eles foram feitos para isso, baseados na concepção do software livre.

Protux logoSoftware livre. Este conceito é muito discutido e não deve ser confundido com gratuidade. A questão está muito mais relacionada ao acesso ao código fonte e à possibilidade de os usuários beneficiarem o programa com novos recursos, retirando esse monopólio do fabricante. Vários conceitos em português estão em http://www.gnu.org/philosophy/free-sw.pt.html e servem para nos iniciarmos no assunto.

A dupla Protux/Mustache é um conjunto profissional de ferramentas de produção de audio e MIDI desenvolvida com o auxílio de desenvolvedores da Alemanha e Holanda e engenheiros de som da Inglaterra e Estados Unidos. Mas o administrador do projeto é um brasileiro, Luciano Giordana. O Protux já alcançou a marca de 200 mil downloads desde o início do desenvolvimento. Ambos os projetos podem ser baixados do repositório Savannah -  http://savannah.nongnu.org/projects/protux

Protux, gravador multipista/editor de áudio para Linux. Protux (e não ProTux), ou  PROfessional Audio Tools for LinUX, é um gravador multipista prático e poderoso para GNU/Linux. Ele visa ser a mais prática e uma das mais poderosas ferramentas de áudio em todos os sentidos. O Protux nos permite usar o poder da combinação teclado+mouse (sem cliques) para acelerar imensamente o processo de produção de áudio. Este conceito é conhecido como “Jog-Mouse-Board” (JMB): o toque numa tecla e uma movimento no mouse sem cliques. Sem o uso excessivo do mouse e do teclado, comum a todos os demais gravadores, esta tecnologia agiliza a produção e é mais ergonômica, evitando lesões por esforço repetido (LER) e similares.

 Protux tela principal Janela principal. A preocupação dos desenvolvedores é a interface limpa e, de fato, têm conseguido grandes avanços nesta área. No alto à esquerda, há um grande mostrador como um LCD. É a interface com o mecanismo JMB, que informa ao usuário qual o comando ele está executando no aplicativo.

Gravação no Protux






Gravação na MTA (Multi Track Área).
Em vez de usar medidores LEDs ou VUs para cada pista, o Protux mostra a evolução do volume ao longo da pista. Há no alto à direita um “Bus Monitor” que contém um LED com o nível de gravação ou de reprodução.

gerenciador de projetosProject Manager. Este gerenciador de projetos é um dos pontos altos do programa. Permite gerenciarmos fácil e eficientemente as músicas gravadas, importando outras, masterizando álbuns completos e queimando-os em CD.


Protux busmonitor






Bus Monitor.
Desenhado especialmente para usar o menor espaço possível e ao mesmo tempo dar todas as informações de que necessitamos para um medidor de volume tipo VU ou LED. Também podem ser desenhados “crossfades” e curvas.

 Protux editor Filter Mode. Aqui, filtros (efeitos) são adicionados não destrutivamente a uma pista gravada. Eles podem ser configurados facilmente e controlados por curvas e seus nós. A interface JMB é usada para mover os nós das curvas com muita facilidade.

Há ainda uma janela com as propriedades globais, como ajustes de tempo do JMB, seleção de driver e seleção de bits e taxas de amostragem.

Os pontos de vista do administrador do projeto, Luciano Giordana, coincidem com tudo o que estamos dizendo há mais de oito anos nesta coluna:

“Até os anos 70, se você quisesse uma fotografia você teria que chamar um fotógrafo. O custo de produzir uma foto em casa e o conhecimento requerido para isso era imenso. E você ainda tinha que despender um bocado de dinheiro para comprar o equipamento e adquirir experiência no trato com produtos químicos.

“Nessa época, quando a Kodak, a Fuji e outras indústrias de materiais fotográficos começaram a desenvolver produtos para o nível do mercado consumidor, ocorreu um fenômeno: finalmente, as pessoas comuns passaram a produzir material fotográfico em casa, mantendo só um pequeno vínculo de dependência no processo químico, que ainda tinha que ser feito por profissionais.

“Embora isto represente uma revolução real, os fotógrafos continuaram a existir. Mas o número de profissionais independentes cresceu estupidamente. E se contarmos os fotógrafos amadores, o número explodiu. A principal razão que causou o incremento na quantidade de fotógrafos é a mesma razão pela qual tantos produtores independentes de áudio estão emergindo agora. A razão é um processo que eu chamo de “Banalização da Produção de Áudio (BPA)”.

“Em um primeiro momento, esta terminologia pode causar alguma rejeição. Mas a BPA é uma das melhores coisas que poderiam acontecer a artistas, músicos e produtores de áudio em geral. Quanto mais se banalizam as ferramentas de áudio, mais artistas/produtores vão emergir. Os bons e os maus, mas DEFINITIVAMENTE os bons não serão bloqueados pelas limitações financeiras.

“Este processo começou a acontecer no final dos anos 90 na área de produção de áudio. Quanto mais os preços das placas de som caíam e os programas se tornavam mais poderosos, mais independentes os artistas se tornavam. Hoje em dia, é dito que mais de 70% dos músicos profissionais produzem seu próprio material de áudio em home studios ou algum tipo de estúdio particular. Uma pequena parte ainda grava em estúdios profissionais/comerciais.

“Estes estúdios comerciais tiveram os seus serviços afetados pela queda na demanda de clientes. A maioria deles começou a oferecer serviços de masterização, produção de áudio orientada para o marketing e até produção de CD-ROMs. O cliente tradicional, o artista, o músico, o cantor ou a banda reservaram seu dinheiro e, em vez de gastarem em aluguéis de estúdios, eles compraram um equipamento simples que poderia potencialmente produzir material da mesma qualidade em casa.

“Eu enfatizo este “potencialmente” porque é o ponto mais importante que eu quero chamar a atenção. De fato, com menos de cinco mil dólares você pode comprar um PC com alguma boa interface de áudio, bons microfones e um par de monitores de referência e criar um álbum de qualidade profissional em casa. Mas isto não garante a qualidade São necessários bons programas e um bom conhecimento de áudio.

“ “Mas eles vão sempre criar um hardware mais poderoso e proibitivamente caro”. É verdade. Mas no campo do audio, como no da fotografia, há uma coisa que desvia tal linha de raciocínio. Os sentidos humanos têm limites. Não adianta ter um equipamento que disponha de amostragens na resolução de 1 MHz em 512 bits. O ouvido humano ainda ouve a mesma coisa que placas de som de 96 kHz/24 bits de duzentos dólares podem manipular. As pessoas não olham para os quase 900 kHz de diferença técnica.

“Elas olham para o sentido do áudio, a semântica, a mensagem. Produtores profissionais de grandes estúdios concentram seus esforços nos meios e suas “ferramentas”. Artistas e pequenos produtores se concentram na mensagem. As pessoas também se concentram na mensagem. Este processo é reforçado mais e mais desde que os artistas estão se tornando seus próprios produtores. Alguns deles estão desenvolvendo um real talento em produção de áudio, já que não estão apenas se fiando no uso de plug-ins, mas tentando realmente conhecer o processo de produção de áudio, e conseqüentemente acumulando conhecimento em áudio.

“Agora vamos verificar o que aconteceu na área de ferramentas de software. Tão logo a indústria do áudio se tornou dependente de produções digitais, em detrimento de produções analógicas, ela notou que seria bem possível confrontar-se com uma queda na demanda por serviços, desde que PCs comuns poderiam fazer o serviço. Para evitar isto, foram criados programas extremamente poderosos e caros. Desta maneira, pensaram, a banalização da produção do áudio poderia ser evitada pela limitação financeira. Só os mesmos-garotos-ricos estariam aptos a comprar essas ferramentas e os artistas pobres teriam que usar algum equipamento de má qualidade mais um mau programa, ou alugar algum tempo em estúdio.

“Mas o fato é que, agora, podemos ter em casa equipamentos de audio e programas poderosos que custam quase nada e ainda produzir grande material de áudio. Com o advento do software livre, é possível eliminar o custo com programas, assim como o custo com sua personalização (já que ele pode ser modificado por produtores que tenham habilidades em programação). Este cenário mata a limitação financeira, ao mesmo tempo que oferece todos os recursos de alto nível só encontrados em hardware e software glamourosos.

“Desta maneira, a maioria dos artistas vão gradualmente abandonando os estúdios para produzir o seu próprio material em casa. E uma massa de mau trabalho vai emergir, apesar dos bons trabalhos que vão ter espaços e maneiras para serem criados. O fenômeno está aí e ninguém pode evitá-lo. Então, qual é o destino dos grandes e glamourosos estúdios comerciais e qual vai ser a diferença entre uma boa produção de áudio e uma ruim se todo mundo vai estar potencialmente apto a produzir em casa com baixo custo e sem glamour?

“Para a primeira questão, há uma resposta engraçada: glamour. Grandes estúdios vão continuar existindo pela mesma razão que as companhias de software usam Oracle e não Postgresql. Não há “glamour” para grandes popstars em gravar em pequenos estúdios. O mesmo tembém aconteceu na área da fotografia no início de sua banalização. Agora não podemos encontrar “estúdios fotográficos”, mas achamos fotógrafos famosos. Desta maneira, é possível que venhamos a ter os muito conhecidos “produtores de áudio” e os estúdios venham a ter menos importância que os produtores.

“Para a segunda, a resposta é uma palavra: talento. Foi o talento que fez Cartier Bresson ser considerado um dos mais importantes fotógrafos de nossa época, embora ele usasse uma pequena ‘50mm normal lens’ sem nenhum material especial. É o talento que faz com que muitos incríveis músicos alternativos sejam produzidos com simples soundblasters e bons microfones e monitores (e bons ouvidos). A banalização da produção de áudio é o cenário próprio para separar os artistas/produtores realmente talentosos. Sem ela, você nunca poderia saber se um produtor é talentoso ou simplesmente rico.”

Bem, agora todos nós já temos um bom pretexto para começar a fuçar o Linux.
 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2005