De casa, rumo ao
Grammy
Sérgio
Izecksohn
O
sexteto vocal carioca BR6 acaba de gravar um CD – Música
Popular Brasileira A Cappella – que está sendo
recomendado ao Grammy por gente do quilate dos
produtores Moogie Cannazio e John Vestman. O disco é
realmente instigante. Mesmo que fosse possível não levar
em conta o extremo bom gosto e a perfeita técnica dos
seis cantores/arranjadores/instrumentistas vocais, o
disco causa um forte impacto, logo no primeiro acorde e
até a última faixa, pela grande qualidade sonora. E o
mais interessante é que ele foi inteiramente gravado e
mixado em casa num PC.
Para conhecer a história desse CD, o ideal seria ouvi-lo. Ele
já está nas lojas. Se você estiver conectado à internet,
entre no site
www.biscoitofino.com.br, clique na capa do
disco do BR6 e depois em “Músicas”.
O RioAcappella Studio, do produtor Cylan Delgado, fica na
sala do seu apartamento, no Rio. Casado com a mezzo
soprano Crismarie Hackenberg, a única mulher no grupo,
Cylan especializou-se na gravação de grupos vocais. O
seu estúdio é o exemplo perfeito de planejamento de
custos e benefícios com o objetivo em mente e sem
preconceitos. Sobrepondo os vocais um a um,
concentrou-se o investimento num ótimo microfone, o AKG
C414, num pré-amplificador Universal Audio 2-610 Tube
Preamplifier e em monitores Mackie HR 824. A pequena
mesa Mackie 1642 VLZ Pro e o computador Pentium IV de
1.6 GHz com 512 Mb de memória e HDs de 30 e 40 GB com
uma placa de som de oito canais M-Audio Delta 1010 dão
conta do recado. O resto é com o software.
O produtor mergulhou fundo no universo de software para PC e
encontrou em vários programas e plug-ins tudo o que
precisava: a gravação foi toda realizada no Sonar 2.2 XL
e a mixagem já no Sonar 3.0 Producer Edition, sempre
sobre o Windows XP. Para a edição foi usado o Sound
Forge 7. A maioria dos plug-ins é da linha Renaissance
da Waves. Cylan usa equalizador, compressor, limitador,
de-esser e delay dessa marca. Além deles, usa Antares
Auto-Tune, DSP/FX Aural Activator, Steinberg ME
Compressor e um wah-wah da linha Ultrafunk Sonitus.
O reverb usado em quase todo o disco foi o plug-in TrueVerb
da Waves.
Cylan partiu do preset “New York”.
Ele conta: “Eu incluí early reflections,
escolhi uma sala adequada e alterei a sensação de
distância entre os solos e os backing vocais. O
preset do reverberador para as percussões vocais foi
o “Drum Room”.
Apesar de usar monitores de referência Mackie, Cylan fez
questão de conferir os resultados em um pequeno P.A. JBL
com caixas TR105 e TR 125 e em caixinhas de som de
computador Troni. “Fui me baseando nos conceitos que
aprendi nos cursos que fiz no Home Studio, a quem devo
tudo o que aprendi em gravação e mixagem. Imprimi e li
todos os manuais dos plug-ins e estudei em vários livros
sobre mixagem e masterização. O chão da sala é de pedra
e o teto é de gesso em formato irregular. Protegi os
janelões com madeira e isolei as frestas com borracha.
Gravava cada cantor de frente para as janelas com o
microfone chaveado para cardióide, para evitar vazamento
de ruídos da rua.”
A técnica do estúdio não é separada do local de gravação e,
por isso, toda a monitoração da gravação foi feita
através de headphones. “A relação sinal-ruído era boa,
salvo para coisas muito graves, como o caminhão de
lixo”, diz Cylan. “Usei, durante a mixagem, em
pouquíssimos trechos, o Noise Reduction da Sonic Foundry
para os ruídos que não foram notados durante as
gravações.”
“Para a mixagem usei os monitores de referência Mackie, mas
sempre conferi com as caixas JBL de P.A., que ficam em
outra posição na mesma sala, no meu aparelho de som
comum, em outro quarto, no carro e em caixinhas de
computador da Troni. Com isso, percebi falta de agudos
na mixagem final antes de ir para a masterização, pois o
som nas outras caixas não soava bonito como nas Mackie
do home studio.
“A minha referência foi um CD do Take 6. Colocava uma faixa
do Take 6 e uma do BR6 e ouvia trechos de um e de outro.
Fui remixando a faixa do BR6 até perceber que não havia
mais uma diferença sonora relevante entre as duas
faixas. Sabia que nunca iriam ficar iguais, pois as
condições de gravação e mixagem, assim como os cantores,
eram diferentes, mas não me dei por satisfeito enquanto
percebi que a sonoridade estava aquém da deles.”
O som do disco é muito bem gravado e mixado, um trabalho de
nível internacional que representará maravilhosamente a
sonoridade da voz brasileira. Um marco na música vocal e
um monumento ao canto a cappella, sem o apoio de
instrumentos. Os seis jovens maestros, que sabem tudo de
música, conseguem um envolvimento tão completo e
permanente com o ouvinte nas suas ousadas harmonias que
a gente esquece que não tem instrumentos (nem MIDI? Não,
não tem!) e nem acredita que foi gravado um cantor de
cada vez, de tanto entrosamento. O timbre claro, muito
nítido, brilhante e forte, com muita vivacidade e
frescor, toma o ouvinte, já perplexo com todos os
contrapontos afinadíssimos e os efeitos sonoros
surpreendentes.
Os arranjos de André Protasio, Deco Fiori, Simô, Crismarie
Hackenberg e Eduardo Braga são estonteantes, de prender
a respiração.
Os efeitos vocais são um capítulo à parte. Temos, sim, ao
longo de uma das mais belas seleções de pérolas da MPB,
o apoio de um bom número de instrumentos, como bumbos,
caixas, pratos, cuíca, tamborim, caxixi, pandeiro,
surdo, tan tan, apito, baixo, guitarras (tem até wah
wah), trombone, flugelhorn e diversos efeitos. Só que
todos são feitos pelas vozes, com tratamento semelhante
ao que seria dado a cada um desses instrumentos, se ao
menos um tivesse sido usado. Todos esses “instrumentos”
soam com muita naturalidade. O pandeiro vocal, por
exemplo, é impressionante. Na verdade, Eduardo Braga
estala o dedo, o único som extra-vocal do disco, na
última canção, o samba “Diz que fui por aí”, de Zé Kéti.
Mas dá até pra dizer que o grupo tem um “baterista”, o
percussionista vocal Marcelo Manes.
Cylan sentiu muito preconceito do pessoal dos grandes
estúdios contra o fato de estar gravando num home
studio: “íamos lançar por uma outra gravadora e tudo o
que era gravado tinha que ser testado lá, pois iria para
o Japão. O cuidado era redobrado. Na gravação foi mais
fácil, pois mesmo sem edições e limpezas, estava sendo
aprovado. O preconceito do pessoal do Pro Tools para eu
mixar era grande. Tive que lutar contra os músicos do
grupo, o pessoal da outra gravadora e, pior, depois de
duas faixas prontas. Ninguém tinha coragem de carimbar
que o CD estava bem mixado. Bem gravado, antes de eu
começar a mixar, o Sérgio Dias já tinha dito que estava
e, como ele é muito sério em relação a isso, pois fala a
verdade doa a quem doer, eu estava seguro. Mas ele mesmo
disse que eu não tinha condições de mixar, porque eu não
tinha experiência. Só quando o Marcelo Sabóia, do AR,
afirmou que as duas faixas estavam bem mixadas o grupo e
o pessoal da primeira gravadora se rendeu! Ele me deu
umas dicas, assim como o Sérgio Dias, e pude terminar a
mixagem com segurança”.
Cylan conta ainda: “Percebi que eu precisava de cancha para
masterizar, para fazer um bom trabalho e não estragar o
que já estava bom. O Marcelo Sabóia falou para eu tomar
cuidado com a masterização, pois uns trabalhos não
voltam bons e eu fiquei preocupado. Resolvi não arriscar
e parti para os EUA para que o CD ganhasse uma chancela
americana e, assim, ficasse mais fácil conseguir uma
gravadora no Brasil.”
O disco foi masterizado por John Vestman nos Headway Music
Complex Studios, em Los Angeles. Em carta, o experiente
produtor se declara especialmente satisfeito por ter
participado deste projeto e recomenda o CD do BR6 feito
na sala do apê do Cylan para o Grammy de World Music de
2004!
Ouça as músicas:
www.biscoitofino.com.br clique no disco do BR6 e
depois em “Músicas”.
P.S.: Cylan Delgado foi meu aluno no Curso de Home
Studio em 2000 e 2001.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Publicado
na Revista Backstage em 2004
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