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Crise? Que crise?

Sérgio Izecksohn

Não existe crise do disco. Nunca se ouviu tanta música e nunca se consumiu tanto disco quanto hoje. A crise é das grandes gravadoras, que não têm sido hábeis em acompanhar a revolução de costumes que veio na onda da tecnologia. Milhões de pessoas ouvem música e trocam arquivos sonoros graças ao P2P (peer-to-peer) em ferramentas como o BitTorrent, o eMule ou o KaZaA. Muitos outros milhões de pessoas se vêm no constrangimento de ter que adquirir CDs piratas por não poder arcar com os custos que a chamada ‘verba de divulgação’, ou abreviando, o jabá, impôs aos CDs oficiais, que foram para a estratosfera. Ou alguém acredita que, se o CD custasse dez reais, as pessoas iriam preferir comprar os piratas?

Nos EUA, as gravadoras estão processando velhos e crianças por pirataria, para dar o exemplo. Motivo: download de músicas. Um velho disse que nem sabia o que era isso e que devem ter sido os seus netos que baixaram as músicas. Uma criança falou que pensava que o serviço estava incluído no preço que seus pais pagam pelo acesso à internet.

Nas ruas de nossas grandes cidades, a polícia troca sopapos diariamente com os vendedores de CDs piratas. A população fica exposta ao festival de agressividade, em nome da proteção de direitos autorais. Além da antipatia que os detentores desses direitos (os legítimos, que são os artistas e técnicos) causam automaticamente numa população exposta a bombas de efeito moral em avenidas movimentadas, entre carros e ônibus, a própria arrecadação e distribuição dos direitos autorais sempre sofreram (e sofrem) acusações de desvios e desmandos que são do conhecimento geral.

Em outras palavras, estamos presenciando ações desesperadas de uma causa falida, que é a do monopólio da gravação e distribuição do som por cinco megacorporações, associadas em entidades como a RIAA (Recording Industry Association of America) e a ABPD (Associação Brasileira de Produtores de Discos). Estão perdendo a parada, não para as empresas concorrentes, vindas de outros mercados, como a Microsoft, mas para um novo modo de ser e de agir da humanidade. Aquelas pessoas acham normal baixar músicas de graça, afinal já pagam pelo uso da internet. Comprar CDs do camelô, para certas camadas sociais, pode ser tão natural quanto é, para quem pode, gravar suas próprias coletâneas baixadas da internet no gravador de CD.

As gravadoras perderam o bonde da história e tentam conquistar o apoio da classe artística para suas ações de intimidação. Mas a maioria dos artistas contratados pelas majors já percebeu que estas transformações não são o que realmente afeta sua rentabilidade, e sim a política de industrialização da música, concebida e executada pelos marqueteiros das gravadoras nas últimas duas décadas. Gravando só o que está na onda, como fizeram com ondas de duplas sertanejas, levas de conjuntos de pagode e de grupos de axé-music, drogaram a população até a overdose e diluíram a linha evolutiva da MPB até ninguém mais se lembrar do quê que era isto. A mentalidade ainda perdura na produção de transgênicos e frankensteins culturais. Estão encolhendo ano a ano. Neste último, perderam mais oito por cento do mercado. E, em março, a Abril fechou.

O mesmo jabá que põe a música e o artista em evidência inviabiliza a venda do CD, devido ao acréscimo no custo final. Esse, no Brasil, é um hábito tão enraizado nos meios de comunicação de todos os níveis, especialmente no rádio, que vai ser muito difícil tirar as gravadoras da teia monstruosa que criaram. E quem disse que elas querem?

No fundo, este é um problema só delas, mesmo. Afinal, mais de 99% dos músicos atuam fora das gravadoras multinacionais. Em milhões de mini-gravadoras pessoais, produzindo CDs, trilhas e tudo o mais por conta própria, muitos deles têm ocupado lugares de destaque no show business e, ao mesmo tempo, criado novos mercados e meios de expressão musical, completamente alheios aos problemas das corporações.

O sonho de ter um home studio de repente se materializou no eletrodoméstico mais sedutor de todos os tempos. Com um computador e uma placa de som, gravadoras brotam pelos cantos como cogumelos. De repente, todo mundo já gravou um CD. Quem imaginava isso, há cinco anos?

E o melhor disso tudo é que as diferenças de orçamento, hoje em dia, não querem dizer tanto em termos de qualidade. Não é que a gente vai conseguir tirar um sonzão de uma plaquinha de multimídia on board ou de uma soundblaster por que isso não vai, mesmo. Mas há uma boa variedade de produtos excelentes e para todos os bolsos. A partir de uns setecentos reais, e em todas as faixas de preços daí pra cima, existem modelos de interfaces de áudio para todo tipo de necessidade. Muitas delas têm um nível de qualidade bastante respeitável. E, para quem está começando, é um alento saber que o computador e a plaquinha que já estão em casa servem para estudar e produzir suas demos. Depois, já sabendo usar os programas, é só trocar por uma placa com melhor som e produzir os CDs em definitivo.

Os programas de gravação, como o Cubase, o Logic e o Sonar permitem gravar áudio e MIDI em dezenas de pistas, editar, processar efeitos, montar loops de música eletrônica e tocar sintetizadores e samplers virtuais até mesmo através de uma Soundblaster. Todos os efeitos, equalizadores e processadores de dinâmica se transformaram em software, tendência que se repetiu no campo dos samplers e sintetizadores. Até o bom e velho sintetizador Moog virou software. O Arturia Moog Modular foi desenvolvido pela mesma equipe veterana que criou o Moog e com a consultoria dos supertecladistas dos anos 70.

Quem conhece os programas samplers e sintetizadores virtuais sabe que, com um computador e uma placa, todos podem ter um arsenal de instrumentos de deixar os heróis do teclado, aqueles cercados de parafernálias, morrendo de inveja. Um software como o Reason e o GigaStudio só falta falar. Aliás, o Vocaloid canta!

Com um bom PC, bem configurado, a alta tecnologia de gravação e produção musical está ao alcance de todos. Cabe agora, a cada um, se equipar corretamente, produzir só músicas de que goste e estudar bastante a teoria do áudio e a prática da produção musical, para fazer música da mais alta qualidade, em todos os sentidos. E deixar as outras gravadoras, as tradicionais, continuarem lançando aquilo que elas fazem, sem nos incomodarmos. Elas gravam o que elas quiserem. Enquanto isso, gravamos música.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2004