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Como vender 30 milhões de cópias

Sérgio Izecksohn


Em 1995, o produtor Glen Ballard gravou uma jovem cantora canadense em seu home studio. Ela tinha talento, um punhado de letras e algumas idéias sobre como fazer um novo tipo de disco. Gravado e mixado em casa, o CD Jagged Little Pill acabou sendo o mais vendido do mundo numa estréia, com 30 milhões de cópias em todo o planeta e o domínio das paradas de sucesso por um ano. Alanis Morissette, a jovem cliente de Glen, hoje é uma megaestrela. Mas aquele disco foi feito pelos dois, a cantora e o produtor, no aconchego do lar. E, embora já fosse um produtor musical premiado, Ballard será sempre lembrado como aquele que, em total harmonia com a artista, conduziu um disco a partir de um home studio até o topo das paradas, provando de uma vez por todas que isto é perfeitamente possível.

Segundo Ballard, em entrevista à revista Virtual Studio de dezembro de 2003, cerca de 75 por cento do CD foram produzidos no estúdio em sua casa. “É, com certeza, uma situação profissional, mas não é um estúdio comercial”, diz ele. Cada música foi gerada ali e tudo foi criado naquele ambiente, só pelos dois. A adição da bateria e a gravação dos outros músicos ocorreram quase numa etapa de pós-produção.

Tudo foi gravado em ADATs Alesis “cara-preta” de 16 bits e esse material nunca chegou a ser transcrito para outro formato. O produtor não disfarça o orgulho ao lamber a cria: “eu ouvi Jagged Little Pill e, por Deus, ele soa vivo. Na época, eu gostei do som e gosto do jeito como ele soa ainda hoje”. Foram feitas algumas gravações adicionais em um estúdio comercial, mas o álbum foi inteiramente mixado em casa, numa mesa Euphonix.

Embora disponha de dois gravadores multipista analógicos, Glen preferiu usar os meios digitais, pela praticidade de mover o material para diversos suportes e para editar. Todo o material gravado permaneceu no domínio digital por todo o tempo. Os ADATs e a mesa foram interligados por cabos óticos light pipe. Contudo, o uso de um antigo microfone C12 para Alanis, passando por um pré-amplificador Demeter e um LA-2A, garantiu um bom estágio analógico antes do armazenamento e do processamento digital.

Não houve equalização na gravação da voz. Foi usado o equalizador da mesa em algumas guitarras, um equalizador Pultec bem discretamente no baixo e um outro EQ estéreo Massenburg em algumas mixagens.

O CD Jagged Little PillFoi usada compressão moderada, mas o produtor tinha que “pilotar” o nível de gravação da cantora o tempo todo. Ele conta: “a voz dela tem uma faixa dinâmica inacreditável e geralmente eu tinha uma ou duas chances de capturá-la na fita, porque ela é uma cantora de um take só. Então foi uma experiência pesada para mim!” E exemplifica: “numa das músicas, ‘You Oughta Know’, o preamp estava muito alto, distorcendo, mas era isso! Era realmente um vocal de um take só e era isso mesmo, o que me deixava confuso. Mas ela teve a coragem de dizer ‘eu adoro isso, não vamos levar a vida toda refazendo e limpando’ e eu gostei da atitude de ‘vamos pôr isso na fita com energia e deixar isso lá”.

Ballard comenta que, normalmente, teria seqüenciado primeiro uma pista-guia com a harmonia e outra pista com a bateria. Gravaria por cima umas duas guitarras e basicamente criaria a faixa inteira antes dela cantar. Mas Alanis estava interessada em captar os momentos, a inspiração e, por isso, o produtor deixou passar muitas coisas, expôs suas deficiências como guitarrista e não se fixou muito neste tipo de questão. A arte do produtor está na coragem de agir segundo suas convicções, sabendo discernir o que é certo e errado.

Ele só migrou do ADAT para o ProTools após o advento da versão de 24 bits. “Com a tecnologia que está disponível para nós hoje em dia”, diz Glen, “é muito fácil fazer duas coisas. Primeiro, você pode modificar qualquer decisão que você tome, porque pode gravar quantos takes quiser, guardar todos e mexer neles à vontade. Segundo, você pode limpar tudo, afinar vocais, ajustar o tempo de tudo, você pode tornar tudo perfeito, no papel. Esta tecnologia está disponível para todos que queiram fazer um investimento razoavelmente modesto. A virtude, então, está em saber quando não usar todos os recursos e realmente achar a essência daquilo que você está tentando desenvolver. Você pode fazer isto perfeito, é fácil, as ferramentas estão todas aí, mas isto não é o que estamos fazendo agora. Estamos tentando ter mágica, e a mágica não está nessas coisas. Estas ferramentas podem ajudar, mas, mais que nunca, temos que ter o sentimento, a emoção, porque isto ainda é o coração de tudo.”

Entre os maiores erros que verifica nas gravações que chegam de outros home studios, Glen Ballard destaca a tendência dos cantores exagerarem nas variações melódicas desde o início dos temas. “Eu gosto de ouvir uma melodia primeiro e então uma variação naquela melodia. Acho que existe uma tendência que faz as pessoas já começarem a cantar com firulas, e então elas cantam mais firulas – ginástica vocal – e isso para mim é um pouco um assassinato. Se for uma boa melodia, eu não quero que ela seja embelezada logo no primeiro verso, quero preservar justamente o seu sabor pessoal. Adoro ouvir pessoas criativas e, embora ouça sempre programações incríveis, gosto, sempre que possível, de ouvir os instrumentos reais. Eu sento e passo o dia todo programando os arranjos, mas ainda há algo de maravilhoso em duas pessoas tocando juntas.”

O disco não foi mixado pelo produtor, com exceção da faixa “Hand In My Pocket”. Quem mixou foi Chris Fogel. Fã incondicional dos baixos do Minimoog, Ballard acha que, numa mixagem, deve-se “primeiro ouvir a música e começar a definir o que precisa ser definido. Não adianta ficar cinco horas ajustando um bumbo”. O segredo, para ele, é ouvir a fusão do bumbo com o baixo, garantir a precisão dos dois.

Glen Ballard dá diversas dicas aos produtores que atuam em seus home studios: “a melhor sugestão é lançar mão de tudo o que estiver ao seu alcance. Aprender a gravar, editar e mixar no computador, já que agora você pode produzir tudo naquela caixa. Você realmente não precisa de mais nada. Ao mesmo tempo, aprenda quanta música puder, porque um sem o outro não é suficiente. Eu comecei como músico e aprendi as técnicas de gravação e de programação porque era a maneira mais fácil e eficiente de eu me expressar como músico e como arranjador. Mas se você tem ambas as coisas, você tem um bom perfil.

“A tecnologia para fazer discos está toda aqui. É o máximo quando temos grandes canções e grandes performances, mas a tecnologia faz com que tudo seja limitado apenas pela imaginação e pela criatividade. Eu sentei num quarto com Alanis e nós, essencialmente, criamos um disco com a única preocupação de cada um fazer o outro feliz. E, com o mundo de sons que você tem dos teclados e das guitarras agora, isso é muito divertido. Em cinco minutos você tem uma coisa soando de tal modo interessante que, dez anos atrás, levaríamos dias para fazer. Você tem todas as cores imagináveis. Antes, tínhamos 16 cores no computador. Agora, são milhões, e você tem todas elas disponíveis sonicamente com grande qualidade. Quero dizer, com o advento do hard disk, a gravação se tornou uma coisa realmente prática e auditivamente prazerosa. Está tudo aqui. Agora, o que importa é o que você vai fazer no lado da criação”.

 

P.S.: o Curso de Home Studio (Gravação e Edição no PC) deste articulista está fazendo dez anos neste mês. Obrigado e parabéns aos nossos alunos.


 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2004