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Pequena história da música no computador

Sérgio Izecksohn

Se hoje em dia a utilização de computadores para produzirmos música está totalmente disseminada, há muito pouco tempo esta ainda era uma prática pouco comum. No entanto, a utilização de computadores para se produzir música vem de muito tempo atrás. Nos últimos vinte anos, especialmente, as etapas dessa revolução têm se sucedido num ritmo vertiginoso. A música e o áudio têm se beneficiado muitíssimo da revolução dos computadores.

Num conceito amplo, a “música no computador” ou “computer music” pode estar associada à gravação e edição do áudio em computadores, ao uso de sistemas informatizados para produção de música, como o MIDI, aos instrumentos musicais eletrônicos de modo geral, à automação de instrumentos musicais e de equipamentos de áudio ou até a um ou mais gêneros de música que dependem da criação ou realização artística no computador.

Desde o século XIX, quando se começou a pensar numa máquina de analisar, já se vinha tentando fazer barulho com ela. Na verdade, instrumentos musicais automáticos (mecânicos), como o órgão hidráulico que usava água para regular a pressão do ar, datam de antes de Cristo. A idéia de pôr as máquinas para tocar, pelo visto, é quase tão antiga quanto a própria música.

Através de todo o século XX, durante o desenvolvimento dos computadores, houve muitas iniciativas para se produzir música através dessas estranhas (naquela época, estranhíssimas) máquinas. Em 1958, Max Mathews, da Bell Labs, desenvolveu o MUSIC4, primeiro programa comercial de síntese de sons. Daí para a frente, foram aparecendo programas para seqüenciar melodias e escrever partituras.

Os sintetizadores foram evoluindo lado a lado com os computadores, na época ainda chamados de cérebros eletrônicos. Nos anos 60, surge o Moog, primeiro instrumento eletrônico realmente comercial. Em seguida, o Mellotron, uma espécie de sample player que tocava loops de cordas ou flautas em fitas magnéticas. Ao longo da década de 1970, a popularização dos sintetizadores polifônicos comerciais, através de superastros do rock como Rick Wakeman e Keith Emerson, e o advento dos microcomputadores pessoais, como o Apple II, levaram ao grande salto nesta história. Com a tecnologia digital alcançando os sintetizadores, surge em 1983 a Musical Instrument Digital Interface, ou simplesmente MIDI.

MIDI, o divisor de águas. A partir do advento da interface MIDI, todos os sintetizadores, samplers, baterias e outros instrumentos eletrônicos de todas as marcas passaram a se comunicar, não só entre si, mas também com os computadores. Nos anos 80, plataformas como o Apple II (no Brasil, clonados como TK3000, CCE Exato Pro ou Unitron) e o Commodore 64 já usavam placas MIDI e programas seqüenciadores como o Master Tracks. Grandes discos foram gravados em meados da década usando aquelas coisas, que chegavam a rosnar rodando seus disquetes molengões de 5 ¼”. A música eletrônica se popularizou a partir do trabalho de grupos como Kraftwerk e Tangerine Dream. Com o surgimento do MIDI e do sampler e suas técnicas de loops e amostragem dos sons, desenvolveram-se a música pop eletrônica, como o techno, mais branca e européia, simultaneamente à nova black music norte-americana, como o rap e o hip-hop. A música de cinema e a criação de trilhas sonoras para publicidade se aproveitaram da sincronização entre som e imagem, facilitada também pelo MIDI.

Mas não foi só a música eletrônica que floresceu. Todos os gêneros musicais se beneficiaram extremamente dos programas que usam MIDI. Programar as baterias e outros instrumentos usando seqüenciadores tocando sons de sampler se tornou uma prática natural desde então no trabalho dos arranjadores. Editar as partituras no computador, ao invés dos desgastantes lápis, papel e borracha, foi outra prática que surgiu ali, resolvendo de vez o problema secular da escrita musical (e colocando um ponto final na profissão de copista, substituído mais tarde pelas impressoras a jato de tinta). Além disso, surgiram ali os programas de educação musical e os recursos de multimídia.

No meio da década de 1980 apareceram novos computadores, como Apple Macintosh, Atari ST e Commodore Amiga, que já usavam janelas e mouse, como os atuais, permitindo o desenvolvimento de programas que já continham toda a essência dos recursos que usamos hoje. Vêm dali, por exemplo, o ProTools, o Cubase, o Finale e o Logic. Logo adiante, os PCs já dispunham das primeiras versões do Cakewalk, ainda rodando sobre MS-DOS.

Enfim, o áudio. Estes programas eram seqüenciadores MIDI para a produção de arranjos com instrumentos eletrônicos ou eram editores de partituras. A gravação de áudio multipista (com vários canais simultâneos) em HD através dos programas de computador só começou a ser levada a sério pelo mercado na virada para os anos 90. Os pioneiros foram o computador Macintosh e o programa ProTools. A gravação profissional de áudio em PCs só se popularizou a partir do Windows 95, com a imigração do Cubase e do Logic e a transmutação do seqüenciador Cakewalk Professional no gravador Cakewalk Pro Audio, hoje chamado Sonar.

Nesta fase, os programas permitiam gravar várias pistas de áudio, mas os hard disks e os processadores não tinham velocidade suficiente para trabalhar com muitas pistas simultâneas. Era comum a mixagem dessas pistas ser feita fora do computador, na mesa de som. O sinal entrava e saía através de interfaces de áudio, que eram bem caras.

Plug-ins para processar o áudio. No final da década de 1990, os plug-ins ou programas acessórios para processar o áudio encontraram computadores com velocidade suficiente para rodar uma boa quantidade simultânea deles. Foi a senha para a popularização das mixagens virtuais. Dezenas de canais de áudio podem ser mixados com ótimos efeitos, compressores, equalizadores paramétricos, auto-afinação de vozes, redutores de ruídos, modeladores de imagem estéreo ou surround. Outra atividade que surgiu e se popularizou foi a dos restauradores de gravações antigas. Do toca-discos ao CD-RW, as músicas passam por receivers, boas placas de áudio, já bem mais acessíveis, e programas de edição de áudio e de masterização de CDs, apoiados por plug-ins para restauração. Produzir coletâneas em CDs virou uma tarefa doméstica.

Internet. Outro surto, e de todos o mais literalmente revolucionário, que ocorreu no período foi o advento do áudio “líquido”, representado pelos arquivos de áudio comprimidos, como o MP3. A prática de baixar arquivos musicais da internet passou a ser uma das atividades mais comuns (e polêmicas) da rede. A conseqüência de tanta avidez por música, aliada à inabilidade da indústria em lidar com mudanças tão profundas, fez gerar uma nova e poderosa ferramenta tecnológica: o P2P (peer to peer). O ato de trocar arquivos musicais gratuitamente virou manchete diária, talvez o assunto mais comentado pela imprensa mundial, durante a virada do milênio. Enquanto as empresas eletrônicas da Nasdaq foram falindo em série como dominó no estouro da “bolha” da internet, o Napster, respeitando a cultura de gratuidade da comunidade internauta, cresceu até aterrorizar a grande indústria fonográfica. Hoje, dezenas de milhões de usuários se espalharam por centenas de ferramentas sucedâneas, como o Kazaa. E as gravadoras, ainda tentando inibir a prática em vez de torná-la lucrativa, nunca mais se encontraram com o mercado.

Finalmente, tudo no computador. O novo milênio veio unificar os diversos significados da expressão “computer music”. A expressão artística eletrônica, especialmente os loops percussivos, contagiou quase todos os gêneros de música popular. Após absorver seqüenciadores de teclados MIDI, gravadores de áudio multipista, processadores de áudio e a própria mesa de mixagem, chegou a vez de engolir o que restava do lado “de fora”. Justamente os outros “computadores”: os instrumentos eletrônicos. Agora, samplers, sintetizadores e baterias também são programas de computador. E os computadores estão virando portáteis, com suas placas de áudio e MIDI com conectores firewire ou USB para os laptops. A nova tendência são as superfícies de controle, que são mesas controladoras, bem mais ergonômicas que o mouse. Do lado de fora, só restaram os microfones, alto-falantes, instrumentos e o controlador MIDI. E o talento humano, é claro!
 

Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2004