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Mais tesouros escondidos: "fit improvisation"

Sérgio Izecksohn

Os seqüenciadores MIDI da Cakewalk, como o SONAR e o velho Pro Audio, trazem um recurso muito pouco conhecido que é uma ferramenta fantástica, muito útil e poderosa. Adapta o tempo do programa a qualquer interpretação instrumental, por mais livre que seja o tempo executado pelo instrumentista. Seu nome, fit improvisation, pode ser traduzido como "ajuste da improvisação".  

Mesmo que o músico toque sem se apoiar nos tempos de um "clique" ou metrônomo, esta função ajusta o programa de modo que o andamento sempre estará de acordo com o que ele tocou, ainda que variando o número de batidas por minuto a cada instante. Assim, podemos quantizar os tempos, localizar as notas nos compassos com rapidez e realizar as demais operações da edição MIDI.

Todos os usuários dos seqüenciadores MIDI sabem que uma de suas funções mais interessantes é a quantização ou quantize. Automaticamente, torna as pistas MIDI totalmente precisas no tempo, mesmo que tenham sido tocadas um pouco "frouxas", digamos assim. Democrática, a utilíssima ferramenta de quantização faz soar bem tocadas aquelas pistas MIDI que, originalmente, não foram tão bem executadas assim. Com isso, o próprio compositor ou arranjador pode tocar e gravar as partes de seu arranjo, mesmo que ele não seja um exímio instrumentista. 



Alguns acham que as partes quantizadas de uma música som muito "mecânicas" ou artificiais, quando na verdade é a dinâmica que executamos no instrumento, mesmo eletrônico, que dá a característica mais "humana" à música. Ninguém quer tocar fora do ritmo. O 'suingue' aparece na acentuação dinâmica, a cada toque, não na imprecisão rítmica. 



Só que a quantização exige que toquemos junto com um metrônomo ou clique, que é gerado pelo próprio programa na hora de gravar. Assim, cada nota tocada já fica próxima de seu tempo real. Com isso, a quantização tem condições de aproximar cada nota tocada do seu tempo exato, tornando a execução perfeita quanto ao seu ritmo.

O problema é que nem todos os músicos estão dispostos a tocar com um clique. E aí, como quantizá-los? A historinha a seguir exemplifica bem a situação.

Um pianista clássico foi gravar sua composição de 42 minutos num estúdio MIDI. O produtor preparou a pista de gravação do seqüenciador, escolheu o canal MIDI, o som do teclado e o andamento da música com a quantidade exata de batidas por minuto (BPM) que seu cliente pediu. Assim que ele acionou Record, ouviu do cliente:

– Desligue esse metrônomo! Não consigo tocar ouvindo este clique!

Ele retrucou:

O clique é necessário para localizar rapidamente qualquer compasso da música para fazer correções e também para quantizar o seu ritmo depois!

O pianista devolveu:

Sei de tudo isto, mas só uso metrônomo para estudar, nunca para gravar!

E ouviu do produtor:

Mas esta não é exatamente uma gravação, estamos seqüenciando um sampler com som de piano. Assim, poderemos ajustar seu ritmo depois, quantizar o seu piano para ele ficar bem preciso...

– Não importa, vamos sem metrônomo – cortou o pianista.

Em seguida, foi feita a gravação, ou melhor, o seqüenciamento da pista MIDI do piano.

Assim que terminou de tocar e o produtor teclou Stop, o pianista saiu-se com esta:

Agora, me quantiza!

Não é piada, é uma história real, ocorrida no Rio de Janeiro. E o problema foi resolvido, graças ao comando "Fit improvisation" do Cakewalk. O material foi devidamente quantizado e, ainda por cima, foram corrigidas até a perfeição todas as variações de andamento, acelerando ou retardando o tempo, que o instrumentista involuntariamente executou.

Como usar o fit improvisation? A palavra fit significa ajustar ou adaptar. Forçar a barra. Digamos: se a montanha não vai a Maomé, Maomé vai à montanha. Então, se o instrumentista não se adapta ao andamento do Cakewalk, o Cakewalk se adapta ao andamento do instrumentista! Vejamos, passo a passo, como fazer isto.

Primeiro, desligamos o metrônomo. Clicamos no menu <Options>, nos comandos <Project> e <Metronome> e desabilitamos a caixa <Recording>. Então, gravamos o instrumentista sem clique. Ele vai tocar livremente, sem se ater à pulsação do programa nem à contagem interna de tempos e compassos.

Em seguida, temos que gravar um clique com a mesma pulsação utilizada pelo músico numa outra pista MIDI. Tocamos uma única nota, batendo os tempos. O ideal é que o próprio músico toque, marcando o tempo que ele tinha em mente quando gravou a pista anterior. Afinal, este é um "tempo pessoal" daquele instrumentista. Ele deve gravar as batidas, sempre na mesma nota, incluindo um compasso em branco antes e outro depois da pista do piano. Às vezes, convém corrigir algumas dessas batidas na tela piano-roll, arrastando-as com o mouse para adiantar umas e atrasar outras. Não dá para bater os primeiros tempos, antes do piano começar a soar. Então, crie as primeiras batidas escrevendo-as com o mouse na tela piano-roll



Agora, selecionamos esta segunda pista, a que contém as batidas, e acionamos no menu <Process> do Cakewalk SONAR (ou no menu <Edit> do Cakewalk Pro Audio) o comando <Fit improvisation>. O programa, então, ajusta cada tempo do seu contador interno ao tempo da música. Assim, mesmo que a cada instante mude o andamento da música, ora mais rápido, ora mais lento, todos os tempos do piano coincidirão com o tempo do programa.

A música, até aqui, permanece inalterada. O Cakewalk é que fica correndo atrás dela.

A pista do piano já pode ser quantizada, afinal ela agora sempre coincide com o novo tempo do Cakewalk. Quantizados, os acordes soarão bem precisos, embora o andamento ainda possa estar num vaivém, acelerando e retardando a toda hora.

Ajustando o andamento com a janela Tempo. Podemos, no entanto, fazer o andamento permanecer o mesmo, contínuo, ou desenhar variações de andamento como, por exemplo, um rallentando ao final da música. Para isso, usamos a janela Tempo, acionada através do menu <View> e do comando <Tempo>. 



À primeira vista, temos um ziguezague, com o andamento se acelerando e retardando sucessivamente. Isso se deve ao uso do Fit improvisation, que fez o andamento ficar variando assim. Se apagarmos essas variações, passando com o mouse a ferramenta borracha sobre o gráfico dos tempos, ficaremos num andamento constante desde o início da música. Se quisermos, podemos agora desenhar variações no andamento.

Nunca é demais lembrar que todos esses procedimentos se aplicam a projetos que contenham, até então, somente pistas MIDI. Se realizarmos essas operações sobre pistas com áudio gravado, os resultados serão provavelmente desastrosos. Deixe para gravar as pistas de áudio depois de todas essas definições de andamento.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2003