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PAYOLA OU JABÁ, LÁ E CÁ


Sérgio Izecksohn


Enquanto a indústria fonográfica americana caiu 2,8% de 2000 para 2001, segundo a consultoria Soundscan, a brasileira amargou um declínio de cerca de 40%. Culpando sempre a pirataria, que é notória, a indústria refuta outros argumentos:

– O Brasil passou do sexto para o 12º lugar do mercado mundial muito por causa da ganância das multinacionais e das grandes rádios – diz o advogado Nehemias Gueiros Jr., no jornal "Valor". – O raciocínio desta gente é torto, paradoxal. Eles investem em artistas sem nenhum talento, colocam uma baita grana em cima e depois ficam esperando um retorno que não vem. Depois jogam a culpa do prejuízo na pirataria.

Nos EUA, o jabaculê é conhecido como "payola" (gíria derivada do inglês to pay, pagar, criada pelo DJ Alan Freed, o mesmo inventor do termo 'rock-n'roll'). É crime federal desde 1961, porque não se pode usar o poder econômico para influenciar a cultura popular, segundo o espírito da lei.

Para Lobão, no Brasil, o jabá virou uma indústria a partir dos anos 90. Nehemias, que foi Gerente Jurídico de Discos da CBS (atual Sony Music) de 1985 a 1988 e Diretor Jurídico da RCA Victor (atual BMG Ariola) de 1988 a 1991, conhece a fundo os bastidores da negociação. Ele diz que "atualmente, as grandes gravadoras destinam 70% da verba de lançamento para o bolso dos diretores de programação das rádios".

O jabá vem destruindo a música brasileira desde os anos 40, quando os "caititus" se tornavam parceiros dos compositores em troca de espaço nas rádios. Decepcionados, João de Barro, Lamartine babo e Ary Barroso abandonaram ali a criação de marchinhas de carnaval.

Roberto Menescal foi diretor da Polygram de 1971 a 1986. Ele conta: – Tinha um diretor artístico muito conhecido, que trabalhou anos na EMI, na BMG e na Sony, que andava com talão de cheques em punho só para pagar jabá. Lobão arremata: – A Universal, minha última gravadora, mantinha uma casa no Rio de Janeiro só para receber radialistas. Tinha até jantar com dança do ventre, era um 'jabá-show'.
 


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2002