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O
DISCURSO DA EXCLUSÃO
Sérgio Izecksohn
Que as soluções caseiras já atendem às expectativas de
qualidade do mercado e o resultado está muito mais nas
mãos das pessoas envolvidas do que no equipamento
escolhido nós já sabíamos. Opiniões como esta já são
compartilhadas até por dirigentes da indústria da
comunicação, como o vice-presidente da SET
-
Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e
Telecomunicações -
e da Rede Record. Em artigo publicado na revista
"Engenharia de Televisão", Roberto Franco
afirma que "as fronteiras entre as soluções
domésticas, institucionais e para o mercado "broadcaster"
já não são tão claras e muitas vezes são
imperceptíveis. Soluções de baixo custo e ao alcance de
todos são capazes de atender demandas que antes exigiam
soluções complexas e de alto custo."
– Para
muitas aplicações, –
ensina ele –
a tecnologia deixou de ser um diferencial competitivo.
Neste momento, as barreiras para o lançamento e
sustentação de uma aplicação ou negócio não são
mais tecnológicas, mas dependem do conhecimento e do
talento humano. A tecnologia parece ter chegado aonde a
imaginação estava.
Perto de uma visão tão realista e atual como essa,
observações do tipo "para ter estúdio tem que
gastar muito dinheiro", ou "quem não tem Pro
Tools tá por fora" soam totalmente ultrapassadas.
Mas não podemos menosprezá-las: são mais que opiniões,
são parte de um discurso que visa preservar um mercado.
Quando
um profissional só consegue se exprimir usando termos
pseudotécnicos em inglês ou palavras inventadas,
demonstra a necessidade de deixar o interlocutor fora da
conversa. É a principal característica do "Discurso
da Exclusão".
Quem
investiu centenas de milhares de dólares num estúdio e
sofre a súbita concorrência de centenas de milhares de
novos estúdios mundo afora tem mesmo que tentar se
defender. Para ele atualizar seu equipamento, levará uns
bons anos até tudo se pagar, enquanto os pequenos
atualizam seu software quase todo dia. Quando encontra um
novo produtor, alguém que está se equipando pela
primeira vez, ele não hesita: -
tem que ter tratamento acústico, microfones caríssimos,
mesa Neve ou SSL, senão seu CD não vai vender.
Ou
seja, se não gastar tanto dinheiro quanto eu, não vai
adiantar nada você investir na profissão.
É
claro que uma mesa Neve ou um microfone Neuman têm som
superior ao da maioria dos concorrentes. Seus donos não
gastaram rios de dinheiro por serem bobos, eles estavam
atrás de qualidade, e encontraram. Mas não é só isso
que faz a diferença. Se eu perguntar ao Michael
Schumacher
que carro devo usar para ir ao shopping, talvez ele me
recomende uma Ferrari. Mas, se eu for num Golzinho, mesmo,
talvez ainda chegue junto com ele. E com menos risco de
ser assaltado.
O
Discurso da Exclusão é praticado por gente das
gravadoras e de grandes estúdios, mas é reproduzido
principalmente por músicos e técnicos de som como nós.
E
o pior é que tem gente que acredita. Quando tem como
pagar, menos mal. Mesmo equivocado, terá como adquirir um
ótimo equipamento. Talvez perca algum tempo viajando ao
exterior para estudar, quando poderia fazê-lo aqui mesmo.
Os de menor poder de compra é que são as maiores
vítimas desse discurso. E até alguns que se apossam do
discurso das empresas onde trabalham, como se as
dificuldades delas se manterem no novo mercado fossem
deles, também. Mas é o contrário: os novos estúdios
chegam para expandir o mercado de trabalho dos bons
técnicos, aqueles cuja opinião sempre será importante,
num grande estúdio ou num home studio.
Porque
tem espaço pra todo mundo.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Publicado
na Revista Backstage em 2002
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