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Três milhões de novos piratas por semana?

Sérgio Izecksohn

A mega-campanha movida pelas gravadoras contra a troca de músicas na Internet, notadamente em cima do Napster, que acabou sendo comprado pela BMG por seis milhões de dólares e agora está suspenso, precipitou uma revolução que, até então, vinha apenas se avizinhando. O consumidor de música líquida, ou on-line, definitivamente resolveu ignorar a indústria e obter gratuitamente suas cópias, para fazer com elas o que bem entender.

Os atuais herdeiros do Napster, como o Morpheus Music City e o AudioGalaxy têm sido baixados do site Download.com cerca de três milhões de vezes por semana. Enquanto isso, os serviços mantidos pelas gravadoras não chegam a atrair dez mil novos interessados no mesmo período.

Jon Fowler, diretor da NetPD, empresa londrina que ganhou fama ao ajudar a banda Metallica a identificar os usuários do Napster que estavam baixando ilegalmente material da banda, disse que a estréia dos serviços das gravadoras, o MusicNet e o Pressplay, não teve qualquer impacto sobre o que chama de pirataria on-line. “O volume de troca gratuita de arquivos é maior agora do que quando o Napster estava sozinho'', acrescenta.

Os serviços pagos das gravadoras são: o MusicNet, iniciativa da RealNetworks, Warner Music, EMI Group e BMG, ou seja, da América On Line, e o Pressplay, da tradicional parceria Sony/Philips: Universal Music e Sony Music.

Além de cobrar pelos downloads de 10 a 20 dólares por mês, esses serviços têm um acervo musical muito menor que os gratuitos e o MusicNet não permite a transferência do arquivo para um player de MP3 ou um CD nem mostra a lista de músicas disponíveis enquanto o freguês não desembolsar seus dólares.

Mais que inviabilizar o comércio de seus próprios produtos através da rede, as gravadoras vêm conseguindo involuntariamente divulgar, em escala mundial, uma nova maneira de se consumir música: as ferramentas que são, aparentemente, a maior ameaça à sobrevivência delas próprias, ou, pelo menos, do modo como se comportaram até aqui. E, mesmo metidas em todas as polêmicas, como a recusa em numerar os CDs ou sequer a tocar no assunto, a corrupção do jabá, a destruição das culturas de tantos povos, o aviltamento da profissão do músico, e mesmo amargando, só no Brasil, uma retração de 50% no seu mercado ano a ano, ainda insistem em chamar três milhões de novos consumidores de áudio líquido por semana de piratas.

As grandes gravadoras poderiam, quando surgiram os arquivos MP3 e seus concorrentes, ter criado um hábito de consumo, vendendo arquivos avulsos. Preferiram brigar com o MP3 e destruir o serviço de distribuição de música que apareceu no vácuo do mercado: o Napster. Agora, encolhendo, no desespero, começando até a processar judicialmente os seus clientes (os fãs!), elas tentam criar serviços semelhantes num mercado que já perderam para os próprios consumidores, que se organizaram nos serviços gratuitos para não ficar sem ouvir música.

Enquanto isso, os músicos vão percebendo que não precisam se submeter aos contratos de uma indústria que usurpa seus direitos: se antes precisavam de uma gravadora, agora já possuem a própria gravadora independente, que é o seu home studio. E as ferramentas de trocas de arquivos MP3 são seu principal meio de divulgação.

Para saber mais:

www.audiogalaxy.com

www.musiccity.com

www.musicnet.com

www.pressplay.com


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2002