SINTETIZADORES
Sérgio Izecksohn
No
trabalho com seqüenciadores MIDI, o som é gerado por
um instrumento eletrônico. Deles, o mais prático é o
sintetizador multitimbral, porque dispõe de grande
variedade de sonoridades “de fábrica”, ou seja,
sons que já vêm prontos para serem tocados. E também
porque podemos usar vários desses sons simultaneamente,
quando tocados pelo seqüenciador. Mas, permanecer
usando somente os sons pré-programados é limitar
demais o uso desses instrumentos, já que sua maior
virtude é permitir a programação de infinitas
sonoridades. Cabe, então, conhecermos um pouco dos
componentes do sintetizador e alguns princípios da
síntese dos sons.
Existem
vários tipos de síntese dos sons usados na arquitetura
dos sintetizadores. Síntese subtrativa, aditiva, sample
playback, FM, distorção de fase, LA, Z-Plane, wave
sequencing são alguns dos formatos conhecidos.
Síntese
subtrativa.
É uma das mais antigas, mais usadas, e de mais fácil
compreensão.
Um sintetizador tem três componentes básicos: o
oscilador, o filtro e o amplificador. Geralmente, a
esses três elementos são associados mais dois
componentes acessórios: o gerador de envelope e o LFO.
Oscilador.
Hoje chamado de gerador de ondas, é o componente
que, em princípio, gera um som único, contínuo,
invariável, numa só altura, intensidade e timbre.
Quando acionado pelo teclado, o oscilador emite seu som,
de acordo com a nota tocada no teclado.
Este
gerador de ondas pode oferecer diversos timbres ou
formas de onda, que selecionamos. Por exemplo,
escolhemos se ele vai gerar uma onda quadrada, pulso,
dente-de-serra, triangular ou amostras pré-gravadas de
instrumentos musicais. Assim, temos diversas opções de
timbres, que servem como ponto de partida para a
edição da sonoridade que desejamos produzir.
Filtro.
Para moldarmos o timbre emitido pelo oscilador,
vamos conectar um filtro de freqüências. O som que sai
do oscilador, qualquer que seja a forma de onda
escolhida, costuma ser estridente, repleto de
harmônicos. Essas freqüências precisam ser filtradas,
até alcançarmos o timbre desejado. O filtro corta
certas freqüências do som e deixa passar outras. O
ponto de corte ou cutoff, que é a fronteira
entre os sons que são cortados e os que permanecem, é
móvel nos sintetizadores. Isto permite que o
programador defina, por exemplo, quais harmônicos de um
som serão ouvidos. O som do oscilador, quando passa
pelo filtro, é radicalmente alterado, pois muitos de
seus harmônicos estão sendo cortados. O timbre muda
bastante ao movermos o controle do ponto de cutoff.
Amplificador.
O sistema formado pelo teclado, pelo oscilador e
pelo filtro é então conectado a um amplificador, que
determina a intensidade (volume) do som, sendo o
responsável pelo nível de cada som programado.
O
sistema com os componentes descritos até aqui é capaz
de emitir apenas sons contínuos. Além disso, mesmo que
toquemos várias teclas ao mesmo tempo, o sistema
emitirá um único som de cada vez, porque ele só tem
um oscilador. Para gerar mais notas ao mesmo tempo
(acordes), precisamos utilizar vários osciladores, um
para cada nota. Para produzir sons complexos, usamos
mais de um oscilador para cada nota. Por exemplo, para
moldarmos um som de piano e cordas, precisamos de pelo
menos dois osciladores por nota, um gerando o som do
piano e o outro, o som das cordas.
A
quantidade de notas simultâneas que o sistema pode
gerar, chamada polifonia, depende do total de
osciladores, mas também de como foi feita a
programação. Se temos oito osciladores, mas o programa
usa dois por cada nota tocada, neste caso só
conseguiremos ouvir um máximo de quatro notas.
Os
sintetizadores mais antigos costumavam ter reduzida
polifonia, ao contrário da tendência atual, em que os
sintetizadores podem vir com até 128 osciladores.
Componentes
acessórios. Para que o som do sintetizador não
seja sempre contínuo e invariável, conectamos ao
sistema mais dois elementos, o gerador de envelope (EG)
e o LFO, ou oscilador de baixa freqüência.
Gerador de envelope. O
envelope molda o contorno temporal de um som, fazendo
variar algum parâmetro, como por exemplo o volume, ao
longo do tempo, de acordo com uma curva que
determinamos. Os envelopes dos primeiros sintetizadores
tinham quatro estágios – ataque, decaimento,
sustentação e relaxamento. Os envelopes dos
sintetizadores modernos costumam ter mais estágios.
O
ataque é um controle do tempo que transcorre desde o
toque na tecla até o som chegar ao nível máximo.
Quanto maior o valor que atribuímos ao ataque, mais
longo é esse tempo. Com o ataque zero, o som é
imediato; com valores altos, o timbre soa como um longo crescendo,
demorando a atingir o nível máximo. O estágio do
decaimento do som determina o tempo decorrido desde o
final do ataque, o momento em que o som atinge o nível
máximo, até o estágio seguinte, de sustentação.
Durante o decaimento, o volume do som decresce no tempo
determinado, até atingir o nível de sustentação. O
terceiro estágio é o de sustentação. Diferente dos
outros, ele não é um controle de tempo: ele controla o
nível em que o som permanece desde o final do
decaimento até retirarmos o dedo da tecla. Quando
soltamos a tecla, entra em ação o último estágio, o
que controla o tempo de relaxamento do som, até ele se
extinguir. Se este tempo for zero, o som cessa
imediatamente, enquanto que outros valores levam o som a
decrescer proporcionalmente mais devagar, até cessar.
LFO.
O oscilador de baixa freqüência funciona
como um vibrato
ou tremolo, aumentando e abaixando o nível em um ciclo contínuo.
Podemos programar a velocidade (freqüência) da
oscilação, a sua intensidade e a forma da onda. Cada
forma de onda faz o LFO variar o nível com um diferente
comportamento. Por exemplo, a onda senóide alterna o
nível contínua e suavemente, enquanto que na onda
quadrada o volume “salta” direto do nível máximo
para o mínimo e vice-versa. O LFO pode ser ativado
automática ou manualmente pelo músico.
Até
aqui, compreendemos o funcionamento do envelope e do LFO
considerando seus efeitos sobre o volume do som do
sintetizador. No entanto, ambos podem afetar também o
timbre e a altura ou afinação do som ao longo do
tempo.
Se
conectamos o envelope ou o LFO ao amplificador do
sintetizador, eles fazem variar o volume do som.
Ligando-os ao filtro, envelope e LFO fazem variar o cutoff,
alterando o timbre ao abrir e fechar o filtro. E se
ligamos esses componentes ao oscilador, eles modificam a
altura (pitch)
ou a afinação do som. Sempre, o LFO produz uma
alteração cíclica no funcionamento dos componentes e
o envelope, uma alteração linear, com começo, meio e
fim.
Programa
ou patch. Cada programação, ou cada timbre
editado, é um conjunto de informações que chamamos de
patch, program
ou voice, dependendo do fabricante. Qualquer que seja o som programado
no sintetizador, ele consome sempre o mesmo espaço da
memória.
Estrutura
dos programas de sons. Nos modelos atuais, podemos
montar sons muito complexos. Um patch é formado por uma
ou várias parciais, originando um som mais complexo. Um
exemplo típico é de um programa com som simultâneo de
piano e cordas, onde programamos a parcial do piano e a
parcial das cordas. Reunidas num patch, as duas parciais
fazem com que cada nota tocada acione os dois sons. No
caso, cada nota aciona dois osciladores, reduzindo a
polifonia à metade.
Um
programa, misturando várias parciais, também pode ser
unido a outros programas numa estrutura maior. Essa
estrutura composta de vários patches -
e, portanto, muitas parciais -
é denominada combinação ou performance. Cada
combinação de patches tem um timbre bastante rico e
complexo, reduzindo bastante a polifonia do instrumento.
Uma combinação pode ser organizada no modo
multitimbral, em que cada patch é acionado através de
um diferente canal MIDI por um seqüenciador. Com os
timbres de nosso arranjo usando os vários canais MIDI,
um único sintetizador pode dar conta de simular toda
uma banda ou orquestra.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Publicado
na Revista Backstage em 2001
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