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MICROFONES

Sérgio Izecksohn

Gravar vozes, instrumentos acústicos e elétricos é a tarefa mais delicada de um estúdio. Ainda mais por não haver regras preestabelecidas sobre qual a melhor forma de se captar o som de um instrumento. Vale conhecer os procedimentos usuais de captação e os microfones mais usados pelos estúdios mundo afora.

É de vital importância a escolha do local adequado dentro da sala de gravação, aquele onde os sons têm maior naturalidade. Igualmente, o posicionamento correto do microfone deve ser sempre muito experimentado. Essas duas precauções são mais valiosas que a escolha de um modelo sofisticado de microfone.

Após se “passar o som”, não devem ser feitos outros ajustes de volume durante a gravação. Toda a dinâmica fica por conta do cantor e de seu posicionamento diante do microfone. Os demais ajustes só serão realizados na mixagem.

Os microfones podem ser conectados diretamente à mesa, caso não se disponha de um pré-amplificador específico para eles. A mesa deve ter entradas do formato XLR ou Canon para uma melhor qualidade do som.

A maioria dos microfones é construída para um propósito específico, embora as especificações de alguns permitam que sejam usados para mais de um tipo de trabalho. Há vários tipos de microfones, para diversas finalidades. Existem microfones específicos para todo tipo de instrumento musical, como também modelos mais versáteis, de uso geral. Informe-se e teste-os antes de adquiri-los.

O microfone deve obrigatoriamente usar saída “balanceada”, que contém um terceiro fio que reduz ruídos e interferências. A saída balanceada pode ser conectada à mesa através de um plug XLR (“Canon”) ou 1/4” (banana) estéreo.

Atuação. Os microfones para gravação se dividem em dois grupos principais, quanto ao funcionamento:

Microfones dinâmicos, os também chamados microfones duros, baseados numa bobina móvel acoplada à membrana, são resistentes a ruídos de manuseio, transmitem um som vivo e têm uma resposta um tanto dura, só captando bem a fonte sonora próxima à membrana. São muito úteis para os pequenos estúdios sem tratamento acústico, assim como para o uso no palco. Esses modelos são os recomendados para captar sons de maior intensidade ou pressão, como percussão, metais (sopros) e alto-falantes de guitarra.

Microfones a condensador. Bem mais sensíveis, os também chamados microfones a eletreto ou capacitivos precisam ser alimentados por corrente elétrica. Geralmente, a mesa de som tem uma chave de “phantom power”, que os alimenta com uma corrente de 48 V através do próprio cabo de áudio. São mais usados em estúdios de gravação e de TV, otimizando o padrão sonoro, sendo, porém, muito mais delicados que os dinâmicos. Ideais para captar vozes e instrumentos com sons de média ou pouca intensidade, desde que num ambiente acústico tratado.

É importante, para protegermos o equipamento, seguir passo a passo a ordem correta para se ligar e desligar a chave de “phantom power” das mesas de som: corte o som do canal, conecte o cabo ao microfone e depois à entrada do canal da mesa, ligue a chave “phantom”, aguarde alguns segundos e abra o som do canal, ajustando o seu ganho. Para desligar, corte o som do canal, desligue a chave “phantom”, aguarde meio minuto, desconecte o cabo do canal e depois do microfone. O microfone não pode estar na mesma sala que um alto-falante ligado reproduzindo o seu som, pois a microfonia será inevitável. Capte em outra sala ou use fones de ouvido.

Área de captação. Microfones podem captar o áudio vindo de várias direções com diferentes curvas de atuação. Os modelos podem atuar de uma única maneira ou várias, escolhidas num seletor.

Cardióides e hipercardióides. Os microfones cardióides, também chamados de unidirecionais, captam melhor o som emitido dentro de uma área em forma de coração, diante da cápsula e a moderada distância. Os hipercardióides têm essa área de captação ainda mais estreita. Fora dessa área, a captação se reduz a níveis muito baixos. Se, por um lado, esses microfones são insuficientes para captar o som de uma área mais larga, como um coro, por outro lado, reduzem os vazamentos de ruídos externos na gravação, sendo ainda mais úteis nos estúdios sem isolamento acústico.

Omnidirecionais e figura-de-8. Temos ainda os microfones omnidirecionais ou multidirecionais, captando o som que vem de todas as direções, ideais para gravação de seções de orquestras e coros. Por fim, a captação do tipo figura-de-8 ou bidirecional, que atua à frente e atrás do microfone, isolando os sons laterais, é boa para gravar duos.

Colecionando. Existe uma infinidade de modelos de microfones para estúdios de gravação, e muitas excelentes fábricas. Os modelos aqui citados são os mais freqüentemente encontrados em grandes, médios e pequenos estúdios, devido a sua qualidade, versatilidade, seu custo/benefício ou outros fatores.

Se o seu home studio é básico, sem tratamento acústico, ainda não é o momento apropriado para adquirir uma coleção de microfones para todas as finalidades. Neste caso, o uso de um ou dois microfones dinâmicos, desses que se usam nos palcos, como os Shure SM57 e SM58, pode ser uma solução natural. Dinâmicos, e portanto pouco sensíveis a sons mais distantes, e unidirecionais (cardióides), esses modelos compensam um pouco a falta de tratamento acústico do pequeno estúdio. Para o pequeno estúdio com isolamento e algum tratamento acústico, o modelo AKG C3000, a condensador, é uma opção popular. O estúdio de médio porte pode adotar, para uso geral, o AKG C414, sem abrir mão do Shure SM57 para captação de guitarra e percussões.

Para home studios maiores, a aquisição dos microfones segue a própria vocação do estúdio. Gravar bateria, por exemplo, demanda a compra de um kit de microfones específicos para os tambores e pratos, além da necessidade de uma sala especial para a sua captação. Por isso a maioria dos home studios opta pelo uso da bateria programada eletronicamente, que é captada “em linha”.

Qualquer que seja a sua escolha, lembre-se que o mais importante é sempre o posicionamento do microfone e da fonte sonora durante a captação.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2001