NOVAS
ONDAS SONORAS
Sérgio Izecksohn
O
barato sai caro ou o mais barato pode ser melhor? Alguma
coisa está mudando no mercado fonográfico, e muito
depressa. Recentemente, uma popular e conceituada
fábrica mundial divulgou a lista de artistas do topo da
parada de sucessos que gravaram seus discos através de
suas mesas de som, dizendo algo como “ninguém precisa
de um console de um milhão de dólares para emplacar um
sucesso no Top 10”. O compositor e cantor Lobão, com
seu CD interativo acompanhado de uma revista-manifesto
lacrados, numerados e vendidos nas bancas de jornais por
R$14,90, disse outro dia, no Programa do Jô: “mandei
50 mil discos numerados para as bancas, vendi, mandei
mais 50 mil, vendi e agora mandei mais 50 mil. Como o
executivo de minha gravadora, eu deveria vir ao seu
programa me dar o Disco de Ouro!”
Os
custos decrescentes da alta tecnologia de gravação
têm levado uma enorme massa de músicos profissionais e
amadores, experientes ou iniciantes, em todo o mundo, a
montar seus próprios estúdios. Os sistemas de
gravação em hard disk, por computador ou dedicados, se
popularizaram, com a evolução dos programas e
componentes. Hoje, por exemplo, muitos dos plug-ins ou
programas acessórios mais sofisticados e requisitados
possuem versões DirectX, para uso geral em PCs, com os
mesmos recursos do universo Mac/ProTools, considerado o
estado-da-arte.
Esses
pequenos estúdios têm até mesmo uma maior velocidade
na atualização de seus sistemas do que diversos
estúdios milionários que, até cobrirem seus
investimentos, precisam conviver com a obsolescência de
seus equipamentos.
O
primeiro impacto é a multiplicação de gravações e
de estúdios caseiros e pequenas produtoras, como
também do seu mercado. Mas há outros aspectos
importantes nesta história toda, e o maior deles
envolve o conhecimento.
No
tempo em que todos os estúdios custavam muito caro, o
aprendizado prático da operação dos equipamentos e o
inevitável confronto com as leis naturais do áudio,
maior fonte de conhecimento, só era acessível aos
profissionais e estagiários que lá trabalhavam. Os
músicos, na maioria, quando contratados ou em
condições de alugar esses estúdios, experimentavam
mais como visitantes o contato com equipamentos e
técnicas de gravação.
Hoje,
uma imensa parcela desses músicos tem condições de
praticar em seus equipamentos experimentando, errando e
acertando até encontrar o seu próprio som, aprendendo
a decifrar segredos do áudio, arriscando várias
opções na estruturação musical de suas obras,
trocando informações, conhecendo uma infinidade de
novos recursos e programas, lendo textos do mundo
inteiro sobre cada questão, instantaneamente e sem sair
da frente do computador. Este é um salto que qualifica
toda a classe. Chegando aos grandes estúdios, cada um
desses músicos poderá ter um vínculo profissional
muito maior com os engenheiros e técnicos envolvidos no
processo de gravação.
Se
as mesas de som, os computadores e interfaces de áudio
com qualidade compatível com as exigências do mercado
profissional atingiram preços mais populares e se
diversos equipamentos dos estúdios, como processadores
de áudio, samplers e sintetizadores vêm sendo
absorvidos pelos programas de computador ou integrados
aos sistemas dedicados de gravação, o investimento dos
pequenos estúdios pode se voltar um pouco mais para a
aquisição de melhores microfones, monitores,
interfaces de áudio, cabos e controladores MIDI, por
exemplo. O tratamento acústico é outro ponto que tem
despertado cada vez mais a atenção dos proprietários
de pequenos estúdios.
No
bojo de toda essa evolução tecnológica, os arquivos
de áudio que circulam pela Internet, notadamente o MP3,
trouxeram a independência na distribuição em escala
mundial de qualquer material gravado em qualquer
estúdio. A partir daí, começa uma dramática mudança
na estratificação da classe musical, já que agora
cada um pode ser sua própria gravadora e
distribuidora. Se, antes, qualquer tentativa individual
de produção e mesmo criação musical esbarrava na
necessidade de aprovação prévia pelos executivos da
indústria fonográfica, agora isso não conta mais para
milhões de músicos, artistas e técnicos em geral. É
um movimento mundial, espontâneo, irreversível mas,
paradoxalmente, individualista: cada um cuida de si. Os
exemplos recentes do Lobão com seu disco numerado
estourado nas bancas de jornais ou da comunidade de
amantes de todas as músicas reunidos em torno do
Napster são pontas de iceberg. Rádios, produtoras de
vídeo e multimídia, agências de publicidade e vários
outros clientes naturais dos home studios brotam de
dentro das residências e pequenas empresas. Vários
artistas e bandas têm se tornados conhecidos sendo
divulgados somente pela Internet.
A
cada instante, mais e mais músicos despertam para
a nova mentalidade: cada um passa a ser sua
própria produtora/gravadora/distribuidora para criar e
divulgar o que bem entender. E quem dará a resposta
para toda esta oferta é o mercado. Cada um deve buscar
o seu público e ele está ao mesmo tempo espalhado pelo
mundo e ao alcance do mouse, na tela do seu computador.
Aonde essas mudanças vão levar, ninguém sabe. Mas,
até aqui, a maior prova da existência dessa massa de
gravações independentes em ebulição é a reação
das grandes gravadoras e seus advogados à circulação
de sons pela Internet, como a luta anterior que atrasou
a produção industrial de gravadores de CDs domésticos
(CD-R e CD-RW) por vários anos. Argumentos do tipo
“se todo mundo começar a gravar, quem vai ganhar
dinheiro com isso?” levaram por um século mais de 99%
da classe musical a buscar outras profissões e fontes
de renda. E, talvez o pior, permitiram, nas décadas
finais, que alguns executivos decidissem o que o mundo
iria ouvir e deixar de ouvir, com seu poder de
massificação, deformando muitas culturas. O aspecto
anárquico da Internet e o barateamento dos equipamentos
de gravação, computadores e periféricos é
especialmente salutar para a classe musical, e todos
devem aproveitar o momento.
A
grande indústria procura, há alguns anos, definir um
formato de arquivo de áudio que preserve seus
interesses comerciais, mas até hoje as empresas não
chegaram a um acordo. Voltamos ao ponto de partida, mas
em igualdade de condições: ninguém sabe ao certo o
que a Internet nos reserva.
Toda
esta proliferação de opções é extremamente
saudável para todos. Com muito mais obras e artistas à
disposição, uma parte do mercado fonográfico,
inevitavelmente, se segmentará quase ao infinito,
deixando espaço para todas as culturas e tendências.
Baseados principalmente na Internet, divulgando
gratuitamente suas gravações, esses artistas
independentes deverão continuar a viver do que sempre
foi o ganha-pão da classe: apresentações ao vivo,
produção de trilhas e jingles, aulas e serviços. A
diferença é a quantidade de músicos em condições de
dar o seu recado. E até, quem sabe, chegarão a uma
forma individual de remuneração de direitos autorais
aos compositores, através de negociação direta destes
com os artistas para participação na renda de shows.
A
outra parte, na maioria formada pelos artistas de maior
sucesso, seguirá seu rumo através do esquema
tradicional, apoiado nas grandes gravadoras e emissoras
de rádio e TV. Continuarão vivendo também de
apresentações ao vivo, bem mais que de direitos
autorais sobre a execução pública ou da venda de
discos. Afinal, seus discos, até hoje sem numeração,
não lhes rendem nem 10% da vendagem e praticamente
ninguém ganha para tocar no rádio e na TV. Mas seus
discos possivelmente passarão a conter mais material de
interesse do público, como fotos, cartões, revistas e
outros brindes que justifiquem a manutenção do suporte
físico industrial para a música gravada. E deverão
continuar a vender aos milhões.
Uma
coisa é certa: depois da música líquida, transformada
em bits que transitam pelo ciberespaço, o mercado de
gravações nunca mais será o mesmo. E a cabeça dos
músicos, técnicos e demais envolvidos com música,
também.
Sérgio
Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor-coordenador dos cursos
do Home Studio
Publicado
na Revista Backstage em 2001
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