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SOM
ANALÓGICO E SOM DIGITAL
Sérgio Izecksohn
Para gravarmos os sons numa fita ou no HD, temos que
convertê-los primeiro em sinais elétricos e depois em
informações digitais. E para usarmos bem toda essa
tecnologia cada dia mais disponível, um pouquinho de
teoria ajuda. Engorda e faz crescer o nosso som.
Ondas sonoras. Primeiro, recordemos alguns princípios
da física do som. Tudo o que chamamos de som são vibrações
dos meios físicos, como o ar. Uma corda de violão ou
nossas cordas vocais movimentam-se e pressionam o ar em
vaivém. Uma vibração ou um ciclo ocorre quando o ar
é comprimido e rarefeito, voltando depois ao estado
original. Quando estas vibrações ocorrem entre 20 e 20
mil vezes por segundo ouvimos um ou mais sons. O físico
Hertz deu seu nome à medida ‘ciclos por segundo’.
Ouvimos então, do grave pro agudo, vibrações nas freqüências
de 20 Hz até 20 kHz, aproximadamente.
O gráfico com o desenho de ondas sonoras ou oscilograma,
presente em muitos programas de gravação, mostra a
compressão e a descompressão do ar ao longo do tempo.
Na vertical, a variação na pressão do ar determina os
volumes do som. Na horizontal, o tempo decorrido.

Som analógico. Um microfone tem uma membrana que
acompanha as vibrações do ar e um circuito que gera
uma corrente elétrica. A tensão ou voltagem dessa
corrente varia, oscilando junto com as vibrações da
membrana. Uma boa comparação com a variação da
voltagem é o movimento de abrir e fechar suave e
sucessivamente uma torneira. Ou, se você usar um dimmer
para clarear ou escurecer um ambiente, você, ao girar o
botão, estará deixando passar mais ou menos corrente
para a lâmpada. Estará fazendo oscilar a voltagem ou
tensão elétrica que chega à lâmpada, fazendo-a
iluminar mais forte ou mais fraco o ambiente.
É isso o que o microfone faz. Todas as vibrações
sonoras que ele consegue captar do ar com sua membrana são
transformadas em oscilações na voltagem da corrente
que ele manda pelo cabo até o amplificador. De lá até
o alto-falante, trabalhamos com variações de tensão
elétrica. Quando o sinal elétrico do áudio chega ao
alto-falante, este faz o movimento inverso ao do
microfone: seu cone vibra acionado pelas variações elétricas
e, assim, põe o ar em movimento, produzindo novamente
som mecânico.
Entre a membrana do microfone e o cone do alto-falante
temos o sinal elétrico do áudio, ou o som analógico.
Analógico e não análogo, que quer dizer parecido.
Analógico por se basear numa analogia, ou semelhança,
no caso entre as vibrações do ar e as oscilações da
voltagem.
Som digital. Quando mandamos o som analógico para
uma placa de som de computador ou para uma mesa digital,
o sinal elétrico terá que ser digitalizado, ou
convertido em informações expressas em números. Na
entrada do aparelho onde plugamos o cabo há um
conversor analógico/digital, ou AD. Na saída do
aparelho, existe um respectivo conversor DA,
digital/analógico. O AD precisa transformar voltagens
em números. O DA faz o contrário, recriando o som analógico
depois dele ter sido processado pelo computador para que
o alto-falante possa nos mostrar o resultado.

O
conversor AD colhe amostras periódicas da pressão
sonora
O conversor AD transforma as vibrações sonoras em números
por um processo de amostragem. Milhares de vezes por
segundo, ele “anota” o estágio da oscilação e lhe
atribui um valor numérico. São, na verdade, milhões
de números anotados numa pequena canção. Ao ser
representada graficamente, essa lista de números
adquire uma forma de onda semelhante ao gráfico do som
original. Porém, se olharmos de perto, veremos que as
curvas da oscilação parecem uma escadinha, a onda faz
um ziguezague. De fato, o som digital não é contínuo,
ele é como um pisca-pisca muitíssimo rápido. Quanto
mais vezes por segundo são colhidas as amostras da
oscilação do som, mais o som digital se assemelha ao
som original.

Aspecto
da onda sonora depois de digitalizada
Taxas de amostragem. A colheita de amostras também
é medida em Hertz. Examinemos o que aconteceria com três
diferentes sons digitalizados em 10 mil amostras por
segundo. Dizemos que essa taxa de amostragem é de 10
kHz. Um som grave de 100 Hz, um som médio de 1 kHz e um
agudo de 10 kHz. Cada ciclo da onda sonora de 100 Hz terá
cem amostras, já que são 10 mil amostras para 100
ciclos. Com 100 amostras, este ciclo será razoavelmente
bem representado por uma “escadinha” quase curva.
Cada ciclo da onda de 1 kHz terá apenas dez amostras, o
que não chega a definir tão bem o seu desenho ao longo
do tempo. Mas repare que cada ciclo de onda do som de 10
kHz terá apenas uma amostra, já que são dez mil
ciclos de onda e dez mil amostras em um segundo. Se
temos apenas uma amostra por ciclo, elas não permitem
visualizar (nem ouvir) uma oscilação. Quando o
conversor DA for ligar essas amostras para que o
alto-falante nos mostre o som, teremos ausência de
oscilação, o que significa silêncio: aquela freqüência
não será ouvida. No desenho das ondas sonoras ao longo
do tempo, uma linha horizontal equivale a uma corda de
violão parada, sem produzir som.

Uma onda
complexa tem freqüências perdidas numa baixa taxa de
amostragem
Para permitir a audição de uma oscilação numa certa
freqüência, a amostragem deve ser de, no mínimo, o
dobro daquela freqüência, o que, pelo menos, já
caracteriza uma oscilação: uma amostra para algum
ponto do “morro” e outra para um ponto do “vale”
que formam o ciclo. Assim, se ouvimos freqüências até
20 kHz, a indústria, ao criar o CD, teve que adotar uma
taxa de amostragem superior a 40 kHz. Escolheu 44.1 kHz,
ou 44 mil e cem amostras por segundo, que deve ser a única
amostragem utilizada na confecção de um CD de áudio.
Já a indústria da multimídia sonoriza programas em
CD-ROM com amostragens mais baixas, como 22.05 kHz, para
desobstruir o tráfego de informações entre o leitor
de CD-ROM e a memória do computador. O resultado é um
som abafado, quase sem agudos, já que em 22.05 kHz só
ouvimos freqüências até 11.025 Hz. Procure os pratos
da bateria na música do seu jogo preferido em CD-ROM.
Por outro lado, o DVD-Video usa 96 kHz e o DVD-Audio vai
a 192 kHz. O resultado são agudos mais precisos.
Você não consegue melhorar o som aumentando a taxa de
amostragem após ele ter sido digitalizado. Mas consegue
piorá-lo se diminuir.
Bits. Cada amostra digital é um ponto que marca a
posição da oscilação sonora num certo instante. De
tanto em tanto tempo (por exemplo, num CD, a cada
1/44100 de segundo ou 0,000023 seg) o conversor AD marca
se a voltagem subiu ou desceu. Indica com um valor numérico
uma variação na amplitude da onda, uma variação no
sentido vertical do desenho. Quantos valores podemos
usar para expressar essa variação na amplitude da
onda? Depende do conversor AD e do programa utilizado.
Ele pode usar uma quantidade maior ou menor de valores,
o que vai interferir na dinâmica, na variação dos
volumes dos sons.
A quantidade de valores possíveis para indicar a
amplitude em cada amostra da onda é expressa em
‘bits’. Isto porque o computador, para fazer seus cálculos,
usa o sistema binário. Como temos dez dedos, geralmente
usamos o sistema decimal, com dez algarismos, para
fazermos contas. Com um dígito formamos dez números:
0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9. Com dois dígitos, cem números,
00 a 99; três dígitos, mil números e a cada dígito
multiplicamos o total de valores por dez.
No computador, um bit é um instante em que ele verifica
a presença ou ausência de eletricidade e ele
representa as duas opções com os dígitos zero e um.
Como só dispõe de dois algarismos, 0 e 1, em um bit, o
computador forma o número zero ou o número 1. Mas em
dois bits, forma quatros números, 00, 01, 10 e 11, que
correspondem a 0, 1, 2 e 3. Com três bits, 000, 001,
010, 011, 100, 101, 110 e 111, temos oito números, de 0
a 7. Em quatro bits, de 0000 a 1111, formamos números
de 0 a 15. Cada bit a mais dobra a quantidade de valores
possíveis.
Já que 8 bits permitem formarmos 256 números, o som
digitalizado em 8 bits só tem 256 volumes possíveis ao
longo do tempo. E a dinâmica do ouvido humana é muito
mais sofisticada, conseguindo distinguir desde o bater
das asas do mosquito até uma turbina de avião, som
milhões de vezes mais forte.
Em 16 bits, que é o formato usado nos CDs de áudio,
temos 65536 volumes possíveis, o que já é um salto
qualitativo. Os 24 bits usados no DVD permitem
16.777.216 variações na amplitude. Podemos trabalhar
com arquivos maiores, como 20 ou 24 bits e depois
converter para 16 ou menos bits, já que esses valores são
múltiplos uns de outros.
Cabos
digitais. Entre
dois dispositivos digitais, como uma mesa e um gravador
ou placa de som, o som pode transitar já digitalizado,
economizando conversões desnecessárias no meio do
caminho. Para isso, são usados diversos cabos,
conectores e formatos. Os mais comuns são o AES/EBU,
estéreo profissional com plug XLR; S/PDIF, estéreo doméstico
em cabo RCA ou ótico; ADAT, com oito canais em um cabo
ótico e TDIF, também de oito canais num cabo
multipinos.
Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor dos cursos do Home
Studio
Publicado na Revista
Backstage em 2001
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