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TRATAMENTO
ACÚSTICO
Sérgio Izecksohn
A política de boa vizinhança pode ser seriamente
ameaçada depois que montamos nossos estúdios. Primeiro
por um motivo óbvio, o barulho que começamos a fazer.
O que nem sempre imaginamos é quanto os vizinhos podem
nos incomodar. Alguns barulhinhos que já faziam parte
da paisagem podem se tornar insuportáveis durante uma
gravação. Em muitos casos, alguns truques podem
minimizar o problema. Em outros, só com uma obra mais séria.
De um modo ou de outro, precisamos conhecer os princípios
e as técnicas mais usuais da acústica de estúdios.
A grande maioria dos
home studios opera em um ou dois cômodos da casa ou
apartamento sem tratamento algum. Para muitos deles,
isto não chega a trazer inconvenientes. É o caso, por
exemplo, de estúdios que produzem música instrumental
eletronicamente, como os estúdios MIDI que produzem
trilhas sonoras. Sem vazamentos no som, basta mixar em
baixo volume, para que as reflexões do ambiente não
confundam o produtor.
Com
microfones duros, pouco sensíveis, como os dinâmicos,
podemos gravar com qualidade razoável em ambientes
menos barulhentos. Contudo, para captarmos vozes e
instrumentos com os microfones adequados, assim como
para trabalhar com volumes mais altos, algum tratamento
é necessário.
Se
você pretende realizar uma obra em seu estúdio, é
fundamental contratar um especialista em acústica de
estúdios. Engenheiros e arquitetos em geral são
excelentes para construções e reformas de nossas
casas, mas experiência em acústica é uma outra história.
Uma obra ineficaz só se resolve botando abaixo e começando
tudo de novo. É um investimento muito alto para se
arriscar.
Conhecendo
as principais técnicas, podemos improvisar soluções
criativas que reduzem alguns problemas do ambiente.
Primeiro, precisamos desfazer alguns mitos e compreender
que temos duas questões distintas no tratamento acústico:
isolamento e revestimento.
Isolamento.
Aqui, queremos evitar incomodar os vizinhos e evitar que
os vizinhos nos incomodem. Quem puder, opta pelo quarto
mais silencioso da casa. Ou por uma casa isolada do
mundo. Não nos iludamos: espuma, isopor, caixa de ovo,
lã de vidro, carpete ou cortiça não são exatamente
isolantes acústicos. Uns ou outros podem ser úteis no
revestimento, que veremos a seguir, mas o que isola
mesmo um ambiente é a massa do material usado em torno
dele. Pedra, alvenaria, madeira, sim, são bons
isolantes, quando usados com a espessura necessária.
A
pressão sonora de nossos estúdios não é a mesma de
um estúdio tradicional que gravava big bands nos anos
40, com a orquestra atacando junto com o cantor, o coro,
mais piano, guitarra, baixo e – ahá! – a bateria.
Para um estúdio desses, só paredes com quase um metro
de espessura. Uma parede fina, com toda essa pressão,
se comporta como uma membrana, vibrando e fazendo vibrar
o ar do lado de fora.
A
idéia do estúdio flutuante (box in a box, ou uma caixa
dentro da outra) se tornou a tendência predominante nos
grandes estúdios: em vez de uma parede muito grossa,
duas paredes com uma camada de ar entre elas. Quando a
parede interna vibra com o som, o ar que está entre as
paredes é elástico demais para transmitir as vibrações
à segunda. A partir deste conceito, constroem-se um
piso suspenso sobre um molejo, paredes duplas apoiadas
sobre o piso suspenso e teto rebaixado apoiado nas
paredes internas. De fato, uma caixa dentro da outra. O
estúdio flutuante só tem contato com a sala onde foi
construído pelos molejos ou pelo ar.
Fantástico,
porém fora de cogitação para a grande maioria. O espaço
de um quarto é muito pequeno para ser reduzido assim. Só
que esta técnica pode ser adaptada, por exemplo, se
construímos paredes de madeira. Podemos alternar
camadas de madeira, ar e lã de vidro, que contribui na
absorção do som. Engrossamos a parede sem reduzirmos
muito a área do estúdio.
Um
item fundamental é não deixar frestas. Onde passar o
ar, passará o som. Preencha as frestas inevitáveis com
silicone. Cuidado com os visores entre as salas, que
podem causar vazamentos de som. Use vidros grossos e
duplos, formando um ângulo de um para o outro e com ar
entre eles.
Revestimento.
Uma vez isolado o estúdio, queremos evitar reflexões
excessivas. Se a sala reverbera muito, como vamos dosar
a intensidade dos reverberadores numa mixagem? Por outro
lado, não podemos abafar a sala ao ponto de não
reconhecermos nossa própria voz. O som deve ser
natural, ao mesmo tempo suficientemente vivo e sem
excesso de reflexões.
Alternamos
materiais absorventes e reflexivos numa proporção que
garanta o sucesso de nossos objetivos. Das quatro
paredes, mantemos uma reflexiva e revestimos as outras
três com materiais absorventes. A parede reflexiva é
sempre a frontal (junto aos monitores) ou a traseira. A
outra e as laterais podem ser revestidas de lã de vidro
coberta por carpete ou tecido. Em casos mais simples,
pode ser só um carpete bem fofo, ou até espuma.
A
lã de vidro deve ser aplicada com cuidado, pois causa
forte coceira e pode cegar. Antes de fixar as placas de
lã de vidro numa parede, monte um xadrez com ripas de
madeira e aparafuse-o à parede. As placas da lã serão
encaixadas entre as ripas para melhor fixação à
parede. Depois de cobrir a parede com uma ou duas
camadas de lã, cubra-a com tecido ou carpete.
Quanto
ao teto e ao chão, um dos dois é reflexivo e o outro
absorvente. Se usar carpete no chão, deixe o teto
reflexivo (usando alvenaria, madeira, fórmica). Se o
piso for de material reflexivo (duro), cubra o teto com
um material absorvente.
Evite
deixar ângulos retos nos cantos da sala, quebrando-os
com madeira ou outro material. Ângulos e paredes
paralelas causam diversas reflexões indesejáveis.
Ar
condicionado. Nos estúdios maiores, com o
rebaixamento do teto, construímos uma cabine isolada e
instalamos nela um condicionador de ar central. Da
cabine até o centro de cada sala, passamos um duto
sobre o teto rebaixado. Esses dutos, que se abrem no
centro de cada teto, realizam as trocas de ar e mantêm
o isolamento acústico graças às curvas que descrevem
no caminho até as salas. O som não se propaga pelas
curvas dos dutos.
Os
estúdios menores, mesmo sem rebaixar o teto, precisam
de ar condicionado. A solução é escolher aparelhos
silenciosos e, se preciso, desligá-los durante os
momentos em que gravamos com microfones, religando-os em
seguida. O problema é que o som do exterior vaza para a
sala através do condicionador de ar. Podemos construir
um caixote para cobrir o aparelho na hora de gravar.
Há
muitas outras técnicas que merecem ser estudadas, para
evitarmos diversos problemas com as reflexões do som.
Mas essas que abordamos podem ajudar na criação de
soluções pessoais que sirvam aos estúdios pequenos e
médios.
Para
quem vai partir pro quebra-quebra, nunca é demais
insistir que uma obra desse vulto precisa da orientação
de um especialista. Para evitar um possível grande
prejuízo, invista na contratação do melhor
profissional que encontrar. E que ele tenha como indicar
operários experientes na construção de estúdios. Nos
grandes centros, contamos com excelentes profissionais.
Visite outros estúdios, sinta o som e peça indicações.
Depois
de sofrer algumas semanas com sua obra, vá à forra.
Som na caixa. Aumenta que isso aí é rock’n roll!!!
Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor dos cursos do Home
Studio
Publicado na Revista
Backstage em 2001
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