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Gravação
e Edição no PC
XI.
Gravando as vozes
Sérgio
Izecksohn
A
voz é o instrumento principal de qualquer canção.
Mesmo que uma banda disponha de um guitarrista ou
tecladista virtuoso, é o canto que contém o principal
da música, que são a sua melodia e a sua letra. É ele
também que define a emoção com que a música é
transmitida. A ele vamos, pois, dedicar a maior atenção
ao gravar.
Prosseguindo em nosso
passo-a-passo da gravação no computador, vamos aqui
gravar as vozes. Nos artigos anteriores, configuramos
nosso sistema para gravar no Cakewalk Pro Audio, seqüenciamos
a bateria e os teclados e gravamos as guitarras, o baixo
e o violão. Neste, veremos todos os passos necessários
para garantir um som o mais fiel possível às vozes dos
cantores e vocalistas.
Vozes. Definir quem vai cantar e como é a primeira
tarefa de uma produção. Todo o arranjo e a sonoridade
obtida com os recursos que estamos estudando dependem
disto. Os timbres dos instrumentos utilizados têm que
“vestir” bem o timbre da voz do cantor. A tonalidade
escolhida deve ser a mais confortável e interessante,
para que todas as notas emitidas o sejam sem esforço. E
por aí vai. Jamais entre nessa de gravar a música num
tom só porque é o “tom original”, aquele em que
ela foi composta ou foi gravada pela primeira vez. O tom
de uma música é o tom daquele solista, e neste artigo
o solista é o cantor.
Escolha o tom da seguinte forma: anote a nota mais grave
e a mais aguda que o cantor emite sem muito esforço.
Anote também a nota mais grave e a mais aguda da
melodia da canção. Transponha o tom da melodia até
que ela se “encaixe” na região confortável da voz.
Transponha igualmente o tom da harmonia, de preferência
cifrando novamente os acordes da partitura. Adapte o
arranjo ao novo tom. Por mais diferente que possa ficar
o arranjo em relação à sua idéia original, sempre é
melhor que ouvir um cantor forçando sua voz nos agudos
ou perdendo corpo nos graves. Estes procedimentos, aliás,
também valem para qualquer solista de música
instrumental.
Outras vozes, como o backing vocal, devem ser bem
escolhidas, para combinar com o timbre do cantor
principal. Vamos gravar uma a uma para termos recursos
de nivelamento durante a mixagem. Ou grava-las juntas,
mixando os sons de acordo com as distâncias dos
microfones para os vocalistas. Podemos dobrar vozes,
gravando em novas pistas o canto principal ou os vocais,
para dar mais corpo. Nesse caso, a emissão deve ser
precisa e de acordo com o ritmo da melodia principal,
conforme a execução do cantor. Este, aliás, pode
fazer o papel de vários vocalistas, mas o timbre fica
mais unitário, o que pode ser bom em certos casos e mau
em outros.
Espaço. O ideal é o cantor ficar isolado num
ambiente só para ele e o microfone. Além de evitar a
captação desnecessária de ruídos, isto permite que o
produtor monitore a gravação com mais conforto através
das caixas de som. Se for possível, prefira o cômodo
de melhor acústica da casa, que é aquele onde a voz
soa mais natural. Neste cômodo, que acaba de virar uma
cabine de voz, escolha o ponto onde ela soa melhor.
Tente abafar um pouco as reflexões das paredes
cobrindo-as com algum material absorvente acústico.
Tecidos, cortinas, carpetes e espumas são as soluções
mais comuns. Lã de vidro e Sonex, as mais clássicas.
Se você tem apenas um cômodo disponível em sua casa,
desligue a televisão, ponha a família e o papagaio pra
dormir e corte o som das caixas. Todos os envolvidos com
o trabalho terão que usar fones de ouvido, que devem
ter boa vedação.
Microfones e captação. Nos lugares mais
barulhentos, usamos microfones dinâmicos, sensíveis o
suficiente para bem captar o que está a poucos centímetros
de distância. Os mais comuns são os Shure SM58 e SM57.
Em um quarto silencioso, podemos captar vozes com
microfones a condensador, mais sensíveis, como os
modelos AKG C414 e Neumann U-87. Estes precisam ser
alimentados pelo phantom power da mesa de som, uma
corrente elétrica de 48 volts que alimenta o microfone
através do próprio cabo de áudio ao pressionarmos o
botão correspondente na mesa.
O cantor grava sempre em pé, com o microfone no
pedestal, nunca na mão. Este deve ter uma suspensão elástica,
como a brasileira Sabra Shock Mount, que evita
transmitir trepidações do chão para o microfone pelo
pedestal. O microfone a condensador fica a algumas
dezenas de centímetros da boca do cantor, com um filtro
anti-pop. O dinâmico fica a poucos centímetros, mas não
totalmente de frente para o cantor. Incline-o para um
lado, sempre apontando para a boca. Assim, evitamos que
as consoantes bilabiais “p” e “b” explodam na
frente da membrana e inutilizem a gravação.
Conexões. Plugue o microfone a um canal da mesa,
de preferência com conectores XLR (Canon). Da mesa,
mande uma saída direta do canal ou de um subgrupo para
uma entrada da placa de som. Para monitorar, ligue uma
saída da placa a outro canal da mesa. No Cakewalk,
indique a entrada <Source> e a saída <Port>
da placa que estão sendo utilizadas para gravar nesta
pista.
Provavelmente, o cantor vai precisar ouvir alguma
reverberação no fone. Não devemos gravar este reverb,
para poder regulá-lo direito na mixagem. O reverb
fantasma é aquele que é monitorado mas não gravado.
Usando um reverberador conectado à mandada e ao retorno
auxiliar de sua mesa, mantenha este retorno endereçado
somente ao máster. Assim, o efeito não sai pelo cabo
que envia o som da voz para o PC. Ajuste a intensidade
da reverberação pelo controle auxiliar do canal de
entrada ou de monitoração, tanto faz. Embora o efeito
seja controlado no próprio canal da voz, seu som não
sai dali. Ele entra pelo retorno auxiliar e sai pelo máster
estéreo somente para os monitores e fones.
Passando o som. Peça ao cantor que entoe o trecho
mais forte da música. Ponha os faders do canal e do
master da mesa na marca de zero dB (“0” ou “U”).
Vire o botão de ganho do canal até que o LED chegue próximo
ao limite. Ajustado o nível de entrada, abra a mesa
virtual do Cakewalk em <View> <Console>.
Localize o canal virtual que corresponde à pista da voz
a gravar. Acione <R> (Arm) neste canal e observe o
LED se mover na tela, ajustando o volume de gravação
próximo ao limite, mas com alguma folga, para o caso do
cantor se empolgar. Use para isto o fader do submaster
da mesa ou, na ausência deste, o fader virtual do canal
do programa.
Ponha a música para tocar e peça que o cantor o
oriente sobre quem está muito alto e quem está muito
baixo, de forma a deixa-lo ouvir a si e aos outros sons
confortavelmente. Faça os ajustes necessários na mesa
de som. Se, durante a gravação, o nível estiver mal
ajustado, interrompa e reinicie todo o processo. Durante
a gravação, não mexemos em nenhum controle, além de
<Record> e <Stop>. Repita os procedimentos
ao gravar cada voz.
Gravando. Após tocar algumas vezes a música para o
cantor ensaiar e ajustarmos os níveis de entrada, gravação
e monitoração, podemos gravar. Use as teclas <R>
para gravar e <barra de espaço> para parar. Use
também a <barra de espaço> para tocar e
<W> para voltar ao início.
Se algumas frases não ficarem ideais, podemos fazer
emendas, desde que o cantor consiga manter o clima da
outra tomada, a mesma distância do microfone etc.
Mantendo a pista pronta para gravar, tocamos a música
ou um trecho bom e pedimos ao vocalista que cante da
mesma maneira que antes. Com a música sendo executada,
acionamos <Record> teclando <R> logo antes
da(s) frase(s) a emendar. Logo após o trecho emendado,
teclamos novamente <R> para voltar ao modo
<Play>. Paramos a música e tocamos novamente o
trecho para conferir se ficou perfeito. Essas emendas são
perfeitamente viáveis, desde que acionemos a opção
<Overwrite (Replace)> da janela <Record Options>
do menu <Realtime>, para apagar sempre o que
estava gravado por baixo da emenda.
Grave cada voz numa pista, sempre que possível. Assim,
você terá muito maior liberdade durante a mixagem.
No próximo artigo, vamos gravar os instrumentos de
percussão.
Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br)
é músico, produtor e professor dos cursos do Home
Studio
Publicado na Revista
Backstage em 2000
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