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Gravação e Edição no PC

IX. Seqüenciando sintetizadores MIDI

Sérgio Izecksohn


Continuando a produção de nossa música, que vem sendo tratada passo a passo nesta série, vamos registrar os instrumentos eletrônicos em um seqüenciador MIDI. Já tendo seqüenciado a bateria no último artigo, temos que planejar quais instrumentos do arranjo serão gravados e quais serão seqüenciados, simulados por samplers e sintetizadores. A partir daí, podemos enfim gravá-los.

Dependendo do instrumento ou instrumentos que cada um de nós toca, pode ser mais cômodo ou mais complicado trabalhar de uma maneira ou de outra. Assim como um tecladista pode preferir seqüenciar quase todos os sons, um baixista pode querer programar a bateria, gravar o áudio do seu baixo e convidar um tecladista e um guitarrista para tocar seus respectivos instrumentos. Um violão ou uma guitarra MIDI podem controlar o sistema de modo quase tão versátil quanto um teclado.

Cada instrumento acústico tem suas peculiaridades no que tange à execução musical, timbre, dinâmica e outros fatores. Assim, enquanto uns soam bastante realistas quando simulados eletronicamente, outros são quase impossíveis de imitar com a mesma qualidade artística. Quase todo mundo acha, em geral, muito melhores as imitações de piano, flauta, baixo e bateria por um teclado do que de um sax ou guitarra solo. Por outro lado, nem sempre os instrumentos eletrônicos, como o sampler e o sintetizador, são programados com eficácia, embora muitas outras vezes impressionem os ouvintes mais exigentes. De qualquer forma, já ouvi de um baixista que os synths são bons imitadores, menos dos sons do baixo. E um violonista me disse: “– os sintetizadores, em geral, substituem bem os instrumentos, menos o violão!” Acredito que alguns flautistas tenham também alguma ressalva quanto aos sons de flauta, e assim por diante. A intimidade com o instrumento nos torna mais exigentes, o que é natural. Seja como for, alguém aqui está em condições de contratar uma orquestra de cordas? Pois é... Além disso, um instrumento mal captado (microfonado) pode soar pior do que se ele for bem sampleado e bem seqüenciado.

A habilidade do instrumentista é outra questão. Não dá pra tocar violão num teclado como quem toca piano. É preciso pensar no teclado como se fosse nas cordas do violão. Como, aliás, todo instrumento que queremos simular. Agora, impossível mesmo é querer fazer um violão eletrônico tocando num controlador de sax ou pads de bateria. Dependemos também das possibilidades do instrumento controlador MIDI.

Todos esses fatores fazem a diferença entre as produções que lançam mão do seqüenciador MIDI. Escolher, entre as partes do arranjo, quais vão ser seqüenciadas e quais serão gravadas é uma das importantes tarefas do produtor. Decidimos entre gravar ou seqüenciar cada som de acordo com nossas possibilidades, é claro. Mas, se as sonoridades se equivalem, seqüenciar pode ser mais interessante que gravar, já que, no caso, podemos dispor dos recursos de edição de ambas as tecnologias, MIDI e áudio.

Pra gente começar, vamos usar como exemplo sons de piano, cordas e baixo. Já que este último também pode ser facilmente gravado, vamos tratar do baixo seqüenciado neste artigo e da gravação do baixo elétrico no próximo. Para tanto, estamos usando um teclado Roland XP-50 como controlador e como sintetizador multitimbral e o Cakewalk como seqüenciador.

Nas preliminares da produção, que vimos nos artigos anteriores, seqüenciamos a bateria e gravamos ou seqüenciamos um piano-guia ou um violão-guia. Essas pistas-guia serão apagadas oportunamente, mas servem para definir o tom, a harmonia, o ritmo, a forma e outros parâmetros de nossa canção. No Cakewalk, já marcamos o início de cada parte da música, para facilitar nossa navegação pelo programa.

Vamos então seqüenciar o piano. Clique na letra <M> (mute) para desligar o som das pistas-guia, de modo a ouvir só a bateria e a voz-guia. Não vamos deletá-las ainda, pois podem ser úteis. Numa pista disponível, escreva “Piano” na coluna <name>. Dê um clique duplo na coluna <port> para abrir a janela <Track Properties>. Escolha o canal 1 em <Channel> e um som de piano em <Patch>. Aqui você escolhe o número ou o nome do patch, caso seu programa esteja configurado para mostrar esses nomes. Neste caso, para que o Cakewalk informe a lista de patches do seu sintetizador, clique em <Instruments>, <Define>, <Import> e escolha um arquivo <*.ins> no diretório do Cakewalk. Abra o arquivo, escolha o nome do seu instrumento e dê <OK>. Depois, feche a janela clicando em <Close>. Na janela <Assign Instruments>, clique em cada canal MIDI (no lado esquerdo) e, em seguida, no nome do seu sintetizador, no lado direito, para o programa associar cada canal ao instrumento desejado. Depois, clique em <OK> e escolha o patch. Talvez você precise indicar primeiro o banco de patches em <Bank>. Deixe os outros valores como estão, por enquanto. Clique em <OK>.

De volta à janela <Track>, clique na letra <R> (arm), depois em <Record>, ouça o metrônomo ou a bateria e toque. Se não souber tocar, peça a um amigo músico ou vá acrescentando todas as notas com o mouse na tela piano-roll, como alguns fazem.Você pode ir seqüenciando trechos ou tocar a música toda de uma vez, a seu critério. Se quiser tocar cada parte e depois copiar e colar as partes repetidas ou os loops, é bom quantizar cada uma delas antes de copiar. Senão, podemos perder as primeiras e as últimas notas do trecho copiado. Localize o ponto exato onde colar os trechos pelos marcadores (<View> <Markers>). Para colar, clique com o botão direito no início do compasso e na pista onde ele vai ficar e aí clique em <Paste>.

Podemos quantizar certas partes e deixar outras naturais, com o ritmo original. Ao quantizar, preste atenção à resolução usada em cada trecho. Por exemplo, pode acontecer que um trecho seja subdividido em colcheias, mas durante um compasso ou outro termos tercinas (quiálteras) de colcheias e em outros, semicolcheias. Selecionamos um trecho de cada vez, clicando e arrastando o mouse pela barra horizontal cinzenta com os números dos compassos na janela <Track> e em seguida clicando no número da pista para que somente o trecho fique escurecido, e o quantizamos pela resolução adequada. Ao terminar de gravar, clique na letra <R> para desarmar a pista do piano para gravação.

Depois do piano, é a vez do baixo. Escolha outra pista livre, digite “Baixo” na coluna <name>, repita os passos anteriores para escolher o canal 2, o patch do baixo e armar a pista para gravar. Volte a música ao início clicando em <Rewind> ou teclando <W>. Ponha para gravar clicando em <Record> ou teclando <R>. Toque o baixo no teclado controlador. Depois, clique em <Stop> ou tecle <barra de espaço> e, na maioria das vezes, quantize o baixo. Se quiser, monte a linha do baixo copiando as partes que se repetem.

Para seqüenciar as cordas (ou strings), repita os passos preliminares, escolhendo nova pista, canal MIDI e patch. Grave tocando no teclado. Talvez não valha a pena quantizar as cordas, dependendo de como elas estiverem tocando. Se não quantizar, muito cuidado ao copiar e colar trechos para não perder as primeiras e as últimas notas.

Edite seu piano, seu baixo e suas cordas até que fiquem perfeitos. Qualquer trecho marcado pode usar os recursos do menu <Edit>, como <Quantize>, <Length>, para mudar a duração de certas notas,  <Transpose>, para mudar o tom ou a oitava de um trecho, ou <Scale Velocities>, para incrementar ou atenuar a dinâmica. Na janela <Piano-roll> podemos modificar cada detalhe da execução instrumental, usando as ferramentas lápis e borracha tanto sobre as notas quanto sobre os valores dos diversos controles MIDI, que aparecem na janela de baixo do <Piano-roll>.

Nos próximos artigos, vamos gravar áudio à vera, começando pelo baixo, violão e guitarras.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2000