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Gravação e Edição no PC

VIII. Seqüenciando a bateria

Sérgio Izecksohn


No artigo anterior, fizemos o rascunho de nossa produção. A partir deste, vamos gravar cada instrumento nas pistas de um programa, começando pela programação da bateria. Tomamos como exemplo o Cakewalk Pro Áudio, por ser a mais usada estação de trabalho para áudio e MIDI. Com uma interface MIDI instalada no micro, um instrumento controlador (teclado ou outro) e um gerador de som (módulo ou o próprio teclado controlador), o Cakewalk já está em condições de seqüenciar a bateria.

Os sons podem ser gerados por um teclado ou um módulo sintetizador, um sampler, uma bateria eletrônica ou até, para quem está começando, uma placa de multimídia. Aliás, cada som (tambor ou prato) pode vir de um instrumento diferente. A maioria desses aparelhos exige o uso do canal MIDI 10 para os sons percussivos. Com um sampler ou um sintetizador mais profissional, podemos escolher um canal MIDI para cada peça, se quisermos.

Sons.
Escolhemos um drum set, ou kit, que é um conjunto de tambores e pratos do gerador de sons. Em cada nota do instrumento controlador, acionamos o som de uma diferente peça. Por exemplo, no kit General MIDI (GM), presente em muitos teclados, o padrão inclui: nota C1 = bumbo, C#1 = aro, D1 = caixa, F#1 = contratempo fechado, G#1 = pedal de contratempo, Bb1 = contratempo aberto, C#2 = crash, Eb2 = prato de condução, e por aí vai.

Na janela <Track> do Cakewalk (Figura 1), indique nas colunas apropriadas o nome de cada pista onde vamos registrar bumbo e caixa, contratempo etc, o canal MIDI (e a porta MIDI, quando for o caso) e o Patch, que no caso é o drum set do instrumento gerador de som. Se os programas de som desse instrumento forem agrupados em bancos, indique o valor na coluna <Bank>.

Quando toda a bateria usa um mesmo canal MIDI, mesmo que ela seja seqüenciada em várias pistas, só indicamos na primeira pista os valores das colunas Patch e Volume. Como são parâmetros do canal MIDI, caso ajustássemos volumes diferentes em cada pista o instrumento só poderia obedecer a um desses comandos, já que cada canal só tem um volume, um patch etc. Evitamos a confusão deixando essas colunas em branco nas pistas subseqüentes. Mais adiante, veremos como ajustar o volume de cada peça da bateria.

Forma e marcadores.
A forma da música é a sucessão de partes tais como introdução, A, B, e refrão. Como vimos no artigo anterior, os marcadores (Figura 2) nos permitem navegar facilmente ao longo da música. Para seqüenciar ou gravar qualquer trecho, basta clicar no lado direito da janela <Track>. O local exato a clicar é indicado por esses marcadores. Assim, não perdemos tempo procurando um determinado ponto da música. Com o cursor (a linha vertical) no ponto desejado, acione <play> ou <rec>. Para montarmos a música toda, principalmente a bateria, é fundamental o uso dos marcadores.

Ensaio.
Antes de começar a fazer a bateria, procure praticar o ritmo. Ouça o esboço da música que já tiver sido feito, e toque junto. Se preferir desligar a bateria-guia, acione <mute> clicando no botão com a letra <M>.

Podemos seqüenciar a bateria através de pads, teclado, outros controladores e até com o mouse, como veremos. Mas é importante estarmos com os ritmos na cabeça (e nas mãos!).

Tocando as levadas.
Quase toda música tem um ritmo condutor, apelidado de levada, que sofre variações de uma parte pra outra. As entradas de novas partes podem ser acentuadas, precedidas por alterações nesse ritmo, as chamadas viradas. Podemos tocar ou escrever com o mouse. Usemos um exemplo misto, tocando as levadas num teclado controlador e escrevendo as viradas na tela <piano-roll>.

Primeiro, escolhidas as notas MIDI que acionam o bumbo e a caixa, vamos tocar o ritmo junto com a música. Alguns preferem começar pelo contratempo ou hi-hat, dá no mesmo. Então, clicamos na letra <R> da pista onde vamos gravar até o quadradinho ficar vermelho. Teclando <W>, voltamos a música ao início. Ao teclarmos <R>, começa a gravação, ou melhor, o seqüenciamento da bateria. Ouvimos o metrônomo e começamos a tocar no teclado, observando a posição dos marcadores na tela do computador. Tocamos os compassos necessários para definir a levada de cada parte da música, com todas as suas variações. Depois de tocar, teclamos <barra de espaço> para parar a música. Depois, <W> para voltar e <barra de espaço> para ouvirmos o que foi feito.

Se o trecho recém gravado não agradou, clicamos em <Edit> e <Undo> ou tecle <Ctrl> <Z> para desfaze-lo e recomeçamos a operação. Se ficou bom, provavelmente há algumas imprecisões de ritmo, que agora vamos corrigir na quantização, como vimos no último artigo. Desde que toquemos com a dinâmica variada e bem definida, a quantização em nada retira o aspecto “humano” da bateria. Afinal, a precisão rítmica é o maior requisito de todo baterista.

Loops.
Os trechos que se repetem em ostinato, isto é, repetidos sem variações, podem ser organizados em loops. Por exemplo, se o bumbo e a caixa tocam sempre a mesma coisa em todos os compassos da parte A, basta tocarmos um compasso. Depois, selecionamos o clip (o retângulo amarelo que contém o trecho gravado) e o quantizamos. Então, copiamos aquele compasso o colamos em seguida, quantas vezes for preciso para completar aquela parte da música.

Podemos montar, assim, todas as levadas das diversas partes da música. Tocando trechos curtos, nós os editamos e vamos colando suas cópias nos trechos equivalentes. Repetindo a operação ao tocarmos o contratempo e o prato de condução, temos, em pouco tempo, toda a condução da música.

Em algumas partes da música, podemos combinar os trechos das várias peças da bateria que foram feitos para outras partes. Simplesmente copiando e colando, montamos interessantes variações do arranjo aproveitando levadas de diferentes peças e diferentes trechos. Exemplo: na parte C juntamos as levadas do bumbo e da caixa da parte A com o contratempo da parte B..

Escrevendo as viradas.
Os acentos e as viradas são mais detalhados e menos repetitivos que as levadas. Para seguir o exemplo, em vez de tocar, vamos escrever na janela <Piano-roll> do Cakewalk (Figura 3). Nela, à esquerda vemos os nomes das peças da bateria. A parte direita da janela mostra os toques dessas peças. As linhas verticais são os tempos dos compassos. Embaixo, as linhas mostram a intensidade (velocity) de cada toque. Com as ferramentas lápis e borracha, podemos escrever ou apagar cada toque, simplesmente ao clicar no ponto exato. Por exemplo, apagamos o toque do hi-hat no início de um compasso para, em seu lugar (isto é, naquele exato tempo), escrevermos o toque do crash.

Ao tocar ou escrever uma bateria, em geral procuramos faze-la soar como se fosse um baterista tocando de verdade. É importante conhecer certos princípios básicos da técnica baterística. Por exemplo, se o contratempo está conduzindo e fazemos uma virada com a caixa ou os tom-tons, não há como o baterista tocar tudo junto com apenas duas mãos. No caso, apagamos os toques correspondentes do contratempo. O mesmo acontece no toque do crash ou outro prato de ataque: apagamos o toque do contratempo naquele momento para que os dois não soem juntos. Se você ainda não tem prática, observe bem os movimentos dos bateristas em ensaios e shows ou, melhor ainda, convide seu baterista para seqüenciarem juntos a bateria.

Separando cada peça numa pista.
Para facilitar a execução, podemos tocar várias peças de uma vez, seqüenciando-as numa mesma pista. Porém, pode ser mais útil editarmos cada peça em separado. Para isto, precisamos que cada pista contenha o material seqüenciado de uma só peça. O Cakewalk tem um recurso que permite separar as peças da bateria, alocando cada uma numa diferente pista.

Clique em <Edit>, <Run CAL>, <Split note to tracks.cal> e <Abrir>.
Indique o número da pista original, clique <OK> e agora escolha o número da primeira pista de destino, a primeira pista livre. Indique também o canal e a porta MIDI. Clique <OK> e aguarde o processamento. Agora temos uma pista só com o bumbo, outra só com a caixa e por aí vai (Figura 4). Claro que o contratempo vai ter diferentes pistas para o toque fechado, aberto e pedal, já que são diferentes notas MIDI. Procure mixá-las, o que é possível de várias maneiras; por exemplo, recortando e colando.

Como cada peça é sempre tocada por uma mesma nota MIDI, o programa separa as peças criando uma pista para cada nota utilizada. Se o bumbo é sempre a nota C1, ele cria uma pista chamada C1 com todos os toques do bumbo. Assim, ele dá o nome de cada nota às novas pistas. Convém rebatizar as pistas com os nomes das peças correspondentes. Isto evita confusões, até porque o Cakewalk insiste em chamar C1 de C3, C#1 de C#3 e assim sucessivamente.

Mixagem.
Para ajustarmos os volumes e o panorama estéreo de tambores e pratos MIDI, esbarramos em algumas peculiaridades. Quando trabalhamos com um sampler ou um sintetizador profissional, podemos endereçar cada nota, com um tambor ou um prato, para um diferente canal MIDI. No caso, controlamos os volumes de cada peça pela coluna <Volume> da janela <Track> do Cakewalk.. Ou então, endereçamos cada nota por uma diferente saída de áudio para os canais da mesa. Aí temos controle absoluto de todas as peças, tanto pelo programa quanto pelos recursos da mesa de som.

Os geradores de som mais usados são os sintetizadores de teclado. Muitos deles impõem o uso do canal MIDI 10 para a bateria e têm poucas saídas de áudio. Se escrevemos um volume para cada pista, o canal 10 só vai obedecer ao último comando, adotando este nível para toda a bateria. Neste caso, só há duas maneiras de mixar a bateria. A melhor é controlar os volumes de cada nota MIDI no próprio sintetizador. E a mais simples consiste em atenuar ou incrementar os valores na coluna <Velocity> da janela <Track> do Cakewalk.

Na verdade, quando mudamos a velocidade do toque de um som de sintetizador, podemos afetar o volume, mas também o timbre. Por isso, se queremos mudar só os volumes, o mais seguro é altera-los no instrumento.

No próximo artigo, vamos seqüenciar os teclados.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2000