A Escola | Cursos | Professores | Artigos | Links
 


Gravação e Edição no PC

VII. Preliminares de uma produção

Sérgio Izecksohn


A mais bela das músicas precisa passar por um período em que mais parece um Frankenstein ou uma caricatura de si mesma. Como em toda arte, é preciso fazer um esboço do que pretendemos criar e registrar. No artigo anterior, vimos a necessidade de traçar um roteiro sonoro antes de começar a gravar as pistas de áudio e MIDI de nosso projeto. Vejamos aqui como gravar as pistas-guia, que servirão como referência rítmica, harmônica e melódica de toda a produção.

No processo tradicional de gravação, ou gravaríamos de uma vez toda a base instrumental ou começaríamos pela “cozinha”, a gravação da bateria e do baixo. Acontece que gravar uma bateria acústica costuma sair mais caro que todo o resto do investimento num home studio. Mesmo com alto investimento em equipamentos, quem grava uma bateria com pouca experiência freqüentemente tem dificuldades na captação. Os problemas mais comuns são timbres pouco definidos e vazamentos de som, que tornam difícil a etapa da mixagem. Com exceção dos estúdios caseiros mais avançados e dos que pertencem a bateristas, a maioria usa sons eletrônicos seqüenciados (“bateria eletrônica”) em vez de gravar uma bateria acústica. Muitas vezes, eles obtêm excelentes resultados, desde que sejam usados bons timbres e a bateria seja programada com criatividade e conhecimento de causa.

O uso de bateria programada permite gravarmos os demais sons na ordem mais conveniente. Não existindo necessidade de gravar baixo e harmonia junto com a bateria, podemos gravar as pistas na ordem que quisermos.

Começamos, então, com um loop (trecho repetido em ostinato) com a levada básica da música, suficiente para definirmos o ritmo, a harmonia e a forma da canção. Muitas vezes, basta seqüenciar um compasso com bumbo, caixa e contratempo (hi-hat ou “chimbal”), que será repetido ao longo da música através de comandos tão simples como “copiar” e “colar”.

Podemos usar os sons de um sampler, um sintetizador ou uma bateria eletrônica, tocando em qualquer tipo de controlador MIDI, como guitarra, sopro, teclado ou uma bateria trigada, com sensores e conversores. Em nosso exemplo, estamos usando um teclado sintetizador que contém sons de bateria. Ele é ligado à placa MIDI do computador por dois cabos MIDI. Ligue a saída (out) do teclado na entrada (in) da placa e a saída da placa na entrada do teclado. Trabalhe com o teclado ajustado em MIDI Local off. Usamos um programa que contém seqüenciador MIDI e gravador multipista de áudio. O Cakewalk é o exemplo mais comum.

Primeiro, defina o andamento ou tempo da música. No Cakewalk, clique em <Insert Tempo> e digite um valor. Na janela <track> escolha um canal MIDI para a bateria, digitando o seu número (geralmente é usado o canal 10) na coluna <Chn> (Channel, canal) da pista ou track 1. Escolha o seu kit de timbres de bateria (seus tambores e pratos) na coluna <patch>. Em seguida, pratique o ritmo do bumbo e da caixa tocando no seu teclado. É comum o bumbo ser acionado pela tecla C1 (do 1) e a caixa pela D1 (ré 1) ou E1 (mi 1). O aro da caixa geralmente é posto no C#1. É no mínimo curioso, mas a Roland chama a nota do 1 de “C2” e o Cakewalk de “C3”! A primeira tecla de um teclado de cinco oitavas é o C1. C3 é o do central, que o Cakewalk chama de C5.

Seqüenciando um loop.
Clique no botão <Record> ou na tecla de atalho <R>, ouça o metrônomo e comece a tocar o bumbo e a caixa. Bem ensaiado, basta um compasso. Depois, aperte a barra de espaço para parar. A barra serve para as funções <Play> e <Stop>.

Marque o trecho clicando nele com o mouse. Para que fique ritmicamente preciso, temos que quantizá-lo. Quantizar é baixar a resolução rítmica para mover as notas MIDI no tempo com o objetivo de acertar o ritmo. A resolução escolhida é a menor figura (colcheia, semicolcheia) do trecho. Clique em <Edit>, <Quantize> e escolha a resolução. Agora ouça novamente o trecho. Se estiver errado, primeiro desfaça a operação (<Edit> <Undo>) e a refaça usando outra resolução. Se não tiver jeito, aperte a tecla <Delete> e comece novamente a gravar.

Depois, enquanto ouve o bumbo e a caixa já gravados, pratique o ritmo do contratempo. Quase sempre são usadas as teclas F#1 (fechado), G#1 (pedal) e A#1 (aberto). Na pista 2 do Cakewalk indique apenas o canal 10 na coluna <Chn>. Com o mesmo canal, seu teclado vai acionar o mesmo kit de bateria da outra pista. Volte a música ao início (botão <Rewind> ou tecla <W>) e acione <Record> ou <R>. Toque o contratempo junto com o bumbo e a caixa e depois mande parar com a barra de espaço. Marque e quantize como já descrito.

Quando estiver bom, marque o compasso inteiro que contém o loop arrastando o mouse sobre a faixa cinza no alto da janela <Track>, a que tem os números dos compassos. Certifique-se de marcar o compasso inteiro, e não somente o loop, caso contrário as cópias se emendarão, causando “quebras” no ritmo. Clique nos números das pistas 1 e 2 arrastando o mouse sobre a primeira coluna da janela <Track> e o trecho recém gravado estará marcado. Clique sobre este trecho com o botão direito ou use as teclas <Control> + <C> para copiar. Agora, clique com o botão direito (ou <Control> + <V>) no próximo compasso da mesma pista para colar. Digite um número para a quantidade de repetições. Por exemplo, um valor igual à quantidade de compassos da música. Ok. Temos o rascunho da bateria para servir de guia. Esta será a referência rítmica para podermos aplicar os instrumentos com a harmonia.

Seqüenciando uma harmonia-guia.
O ritmo seqüenciado, mesmo que provisoriamente, serve de base para a inserção de um instrumento harmônico. Este, por sua vez, será a referência para os demais, inclusive o baixo, a voz-guia e para a marcação das partes da música, que facilitará a nossa navegação pelo programa, como veremos adiante.

Escolha um outro canal MIDI (por exemplo, o canal 1) para a próxima pista e um timbre de instrumento harmônico, como piano, órgão, guitarra ou violão. Para isso, use as colunas <Chn> e <Patch> da nova pista a gravar.

Ponha para gravar a música do início e, enquanto ouve a bateria, toque a harmonia no teclado. Você pode gravar a música do início ao fim ou por partes. Pode também quantizar este novo instrumento e marcar as partes da música.

Inserindo marcadores.
Abra a janela dos marcadores clicando em <View> e <Markers>. Adicione o nome da cada parte após clicar no compasso onde ela se inicia na janela <Track>. Na janela <Markers>, clique no botão mais à esquerda e digite o nome da parte (por exemplo, “Intro”, “A”, “B”, “Refrão” etc.). Este nome também ficará escrito sobre o número do compasso em que cada parte começa.

Com as partes definidas, é fácil copiá-las para outros momentos da música. Novamente, arraste o mouse na barra cinza com os compassos (ou simplesmente clique sobre o nome da parte na janela <Markers>), clique no(s) número(s) da(s) pista(s) a copiar e confira se o trecho ficou marcado com a cor preta. Agora, copie-o e, depois de clicar no primeiro compasso da primeira pista onde vamos colar o novo trecho, cole-o.

Podemos, assim, registrar a pista com a harmonia-guia usando a gravação linear (do início ao fim) ou montando-a com o recurso de copiar e colar. Para isto, nos valemos dos marcadores.

Gravando a voz-guia.
Tudo o que seqüenciamos até agora servirá apenas como referência para começarmos a gravar o material que realmente será aproveitado no produto final. É um esqueleto, um monstrengo necessário para desenvolvermos nosso arranjo da melhor maneira possível. Para que os instrumentos sejam bem aplicados, precisamos agora de mais uma referência: a melodia. Ela pode ser tocada no teclado, mas fica ainda mais útil gravarmos uma voz-guia.

Clicando duas vezes na coluna <Source> abrimos a janela <Track Properties>. No item <Source> escolhemos a entrada da placa de som e no item <Port> a sua saída. Monitoramos o nível do sinal de um microfone pré-amplificado (em geral, pela mesa de som) através do LED que aparece no canal da voz, na mesa virtual da janela <Console view>. “Passe o som” da voz cantando a melodia enquanto observa o LED, para impedir excesso ou escassez de nível. Controle o volume pela saída da mesa “física” ou pela entrada da mesa virtual, ao lado do LED.

Ajustado o volume, volte a música ao início, acione <Arm> na pista da voz e grave-a do mesmo modo que antes. Ao terminar, acione <Stop>, espere o desenho do áudio (as ondas sonoras) se completar na tela e salve o arquivo. Aliás, salve sempre o arquivo, clicando no disquete ou digitando <Control> <S>. Volte e ouça. Se for preciso, grave a voz-guia por partes. A operação de copiar e colar, aqui, é semelhante à que fizemos com os eventos MIDI.

Bem, o Frankenstein está vivo. Falta transforma-lo em arte, gravando as pistas que vão valer. Mas este é o assunto dos próximos artigos.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 2000