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Piratas à Vista!

O arquivo de som MP3 se torna símbolo da liberdade de expressão.

Sérgio Izecksohn

O MP3 tem suscitado um feroz debate na Internet, na mídia impressa e até nos parlamentos do Primeiro Mundo. Com qualidade próxima ao CD, 12 vezes menor que os arquivos WAV, o MP3 é ideal para a transmissão de som pela Internet. Com ele, um home studio, além de gravar e finalizar um trabalho musical, pode ainda divulgá-lo e distribuí-lo diretamente ao público, sem intermediários. Mas são justamente esses intermediários, as grandes gravadoras, que têm tentado todas as formas de banir o MP3, alegando estímulo à pirataria. Lutam ferozmente para garantir a própria sobrevivência.

Só quem tem o direito de julgar o seu talento é você mesmo e o seu público, certo? Errado. Ao longo de todo o século XX este julgamento coube aos executivos de algumas gravadoras multinacionais. Para um artista ou uma banda tentar o sucesso, é preciso que um diretor artístico aprove o seu trabalho e autorize o seu lançamento em disco. Para algumas centenas de artistas de sucesso no show business brasileiro, quantos milhares (milhões?) ficaram de fora, muitos até desistindo da profissão? Sem o respaldo da indústria, a maioria se desestimula e o público nem chega a conhecer seus trabalhos.

O MP3 - ou os formatos que o sucederem - é a grande revolução democrática no universo ditatorial da indústria do disco. Cada artista é sua própria gravadora e distribuidora, usando um home studio e uma conexão à Internet. Como toda revolução, esta também tem sua reação: a indústria, defendendo o seu monopólio, e vários artistas de renome, equivocados ou pensando mais em seu quinhão do que na liberdade de expressão, vêm brandindo a bandeira da luta contra a pirataria. Trata-se de uma jogada de marketing que tenta desmoralizar (para poder proibir) os arquivos de som com fácil trânsito na Grande Rede. O que está em jogo aqui não é a pirataria, mas a previsível redução da influência dessas empresas sobre o mercado. Seu poder de fogo é grande, mas a maioria silenciosa já se prepara para reagir à altura.

Há semanas, a editora do caderno "Informática etc." do jornal O Globo, Cora Rónai, vem desmascarando a duvidosa ética da indústria a respeito do MP3. Em 28 de junho, publicou uma carta-manifesto de John Perry Barlow, letrista da banda Grateful Dead e professor de Direito em Harvard, além de diretor da Electronic Frontier Foundation - EFF -, que luta pela liberdade de expressão na Web. Abro aspas para ele:

"Graças à efervescente popularidade do formato MP3, a indústria fonográfica está tentando, desesperadamente, pôr uma tampa no verdadeiro caldeirão de música líquida que, de repente, apareceu na Internet. Sempre parasítica, esta indústria (...) vem se aproveitando do natural desejo dos músicos de serem ouvidos para impor-lhes contratos que os separam da propriedade intelectual dos seus trabalhos. Como essas entidades gigantescas controlam a única mídia disponível para uma ampla distribuição desses mesmos trabalhos, a maioria dos criadores aceita, passivamente, o roubo do vinho pelos engarrafadores. Os contratos estabelecem, como pagamento pelas suas obras, pouco mais de 5% do valor gerado pelas vendas.

"Pois isso está para mudar, e mudar rápido. Com a Internet, há uma ligação direta entre os artistas e o público. Os músicos podem interagir diretamente com os fãs, conservando o copyright dos seus trabalhos e, eventualmente, ganhando a vida com um volume de vendas que as grandes gravadoras considerariam pequeno demais para valer a pena.

"No ano passado, as gravadoras conseguiram passar pelo Congresso dos EUA diversos projetos de lei grotescos, criminalizando o que elas determinam ser violações de direitos autorais. (...) Pior: as empresas tentaram impedir, judicialmente, até mesmo a divulgação de arquivos de MP3 de domínio público.

"Acontece que ninguém pode ser dono da liberdade de expressão, a menos que a expressão em questão seja de sua própria lavra. Para impedir este holocausto artístico, a EFF deu a largada num movimento chamado CAFE (sigla, em inglês, para consórcio para a liberdade de expressão audiovisual), para organizar artistas, público e provedores de mídias virtuais contra as indústrias de gravação e divulgação. Há mais informações em <www.eff.org/cafe/>.

"Algo realmente importante está acontecendo. E está mesmo. Mas precisamos da ajuda de todos para que continue assim. A EFF tem tido um sucesso fantástico no processo de impedir que diversas nações e estados calem o ciberespaço com mordaças legislativas. Eles podem ser maiores do que nós, mas ainda há certas vantagens em se estar com a razão."

Bem, depois disso, só me resta perguntar às gravadoras: quem é o pirata, Cara-Pálida?


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 1999