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Áudio & MIDI: o Melhor dos Dois Mundos
 
Parte IX: A edição dos eventos MIDI
 

Sérgio Izecksohn

Vamos entrar no penúltimo ano do milênio. E é incrível como, na era dos upgrades e updates, onde versões de programas ficam obsoletas em três meses, a interface MIDI, que já passou dos 15 anos, continua com cara de criança. É verdade! Nesta década e meia o padrão se manteve inalterado, com as mesmas características desde o seu lançamento, embora para muitos ainda seja uma grande novidade. E é. Afinal, editar tudo o que tocamos num instrumento eletrônico, depois de gravado, até hoje parece milagre.
 

O seqüenciador em software foi o maior beneficiário da interface MIDI. Com uma evolução frenética e incessante, os melhores modelos acabaram tendo que abrir uma nova frente, ou ficariam muito parecidos. Já não tendo muito para onde correr na disputada concorrência, incluíram a gravação de áudio multipista. A briga recomeçou, agora no terreno do áudio. A MIDI não precisou ser atualizada, mesmo com seus 8 bits, por ter previsto a capacidade de evolução dos instrumentos eletrônicos, deixando espaço livre para os recursos que foram surgindo.
 
Como o seqüenciador registra simples comandos musicais ao longo do tempo, e não o som, é fácil editar todos eles. Cada nota é adiantada, atrasada, excluída ou incluída com poucos cliques no mouse. Um instrumento pode ter seu timbre modificado depois de gravado, e podemos variar o andamento sem mudar o tom. Tudo é simples, com as telas de edição gráfica. Não importa se você é um virtuose no seu instrumento ou se não domina a técnica: o mouse e as telas de edição são grandes ferramentas para todo arranjador.
 
Na tela principal de cada programa, vemos as pistas de gravação e suas características, como canal MIDI, programa (timbre) do instrumento, volume, mute, solo, mais play, rec, stop, compasso, andamento, contadores e marcadores de tempo. Podemos alterar todos eles a todo instante, e também alterar trechos que marcamos com o mouse. Uma edição minuciosa permite grande aperfeiçoamento da performance original.
 
Marcamos um trecho arrastando o cursor do mouse sobre um grupo de eventos. Copiar, cortar, colar, quantizar (tornar os ritmos precisos), mudar durações e alturas são alguns dos comandos do menu de edição.
 
Para ajustar cada evento, como uma nota, um controle ou uma troca de timbres, usamos basicamente três telas. A mais antiga (e a mais complicada de operar!) é a lista de eventos: cada linha (como numa folha de caderno) contém todas as informações de um evento. É onde fazemos variar timbres e outros parâmetros mais gerais. Uma nota ocupa duas linhas, note on e note off.
 
Para mexermos nas notas e controles, as telas da partitura (staff) e do piano-roll permitem uma visualização infinitamente melhor. Vemos a música enquanto a ouvimos, seja no pentagrama ou num gráfico onde as notas são traços. Herdeiro dos rolos de papel perfurado das pianolas movidas a corda, o piano-roll é uma maneira mais cartesiana de lermos a partitura. O comprimento do traço é a duração da nota e sua altura na tela é a própria altura musical ou o pitch. Abaixo ou acima, outra tela mostra variações nos controles MIDI na mesma hora em que vemos as notas no piano-roll. Com o mouse desenhamos variações de volume e pan, cortamos notas erradas, mudamos a afinação, a duração, o momento do ataque ou a intensidade de cada nota, editando glissandos, pedais de sustain e muitos outros recursos. É o gráfico mais completo e preciso. Na partitura, apesar da leitura mais direta (para os que a lêem), editamos parâmetros das notas e alguns outros. Essas partituras também são editadas para impressão. Além destes, temos gráficos (curvas) de andamentos, compassos, tonalidades e outros.
 
A edição dos eventos MIDI, simples como um video-game, tem uma incomparável gama de recursos. Afinal, não estamos mexendo diretamente com os sons, mas com a forma deles serem tocados. O que simplifica tudo, embora por muito tempo ainda, para muita gente, vá parecer milagre.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 1999