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Áudio & MIDI: o Melhor dos Dois Mundos
 

Parte V – Tudo no Computador?
 

Sérgio Izecksohn

Nesta nova era das gravações multipista no PC, com as interfaces de áudio explodindo em recursos e seus preços descendo a ladeira, cabe uma pergunta: ainda precisamos de todos aqueles equipamentos em nossos estúdios? Ou chegou a hora de aposentar a parafernália?
 
Muita gente pergunta se ainda é necessário adquirir uma mesa, processadores e módulos de som quando seus programas e interfaces dispõem dos mesmos recursos. Se as placas multimídia contêm um sintetizador multitimbral, por que haveríamos de comprar outros sintetizadores? E se os programas de gravação de áudio e seqüenciamento MIDI têm um mixer virtual, não podemos mixar tudo no micro e dispensar a mesa de som?
 
Como toda revolução, esta vive sua fase de transição. Apesar das enormes inovações, nem tudo mudou e ninguém sabe ao certo aonde vamos parar. É um período de novidades, esperança, mas também de instabilidade. Os computadores domésticos, de fato, já gravam áudio profissional em vários canais, mas ainda é difícil encontrar um que funcione com esses recursos o tempo todo, sem dar sustos periódicos em seu dono.
 
Entradas para microfones. Com tantas opções de interfaces e programas, seus usuários recorrem a diferentes soluções para suas questões. Muitas placas e interfaces de áudio só têm entradas em nível de linha, o que nos impõe o uso de uma mesa ou de pré-amplificadores para os microfones. Algumas interfaces já dispõem dessas entradas pré-amplificadas, mas usam conectores de ¼” (banana), inferiores ao padrão XLR (Canon) usado nos estúdios. Este só é encontrado em sistemas muito caros, para estúdios de maior porte.
 
O processamento em tempo real traz outras questões para a maioria dos sistemas: como entrar com um sinal comprimido no computador? E como usar reverberação “fantasma” para gravar uma voz seca, porém dando conforto ao cantor na hora de gravar? São necessidades típicas dos estúdios, que somente uma interface com um processador de sinal em separado (DSP) pode satisfazer. Mesmo assim, a velocidade dos processadores atuais nem sempre é suficiente para realizar todas as tarefas ao mesmo tempo. E experimentar vários efeitos girando botões continua a ser muito mais prático que determinar valores dos parâmetros com o mouse e esperar o processamento para só então conferir o resultado.
 
Os sintetizadores têm recursos que ainda não foram contemplados pelas placas multimídia. Algumas contêm timbres de alta qualidade, mas não em quantidades comparáveis aos teclados e módulos atuais. Também ainda são raros os recursos para a edição de novos timbres. Por outro lado, vêm surgindo novos programas que permitem tocar e seqüenciar amostras do áudio gravado via MIDI, transformando o PC num poderoso sampler.
 
A mixagem é um outro problema. É comum misturarmos na mesa os sons dos sintetizadores MIDI seqüenciados com os das pistas gravadas. Aproveitamos assim os recursos do estúdio para todas as fontes sonoras. As interfaces e os programas atuais permitem a mixagem interna, isto é, sem que o áudio “saia” do computador, mas para isso precisamos gravar o áudio dos teclados em novas pistas.
 
Backup. Seus clientes pretendem guardar as pistas de áudio para remixar em outro estúdio. Você pode arquivá-las em um CD-ROM, mas, às vezes essas pistas só rodam num determinado sistema. Nesse caso, para mixar em outros sistemas, você terá que converter cada pista em um arquivo .wav. Gravadores como o ADAT ainda são o padrão mais freqüente, o que leva muitos clientes a solicitarem um backup em fita.
 
Conclusões. Muitas funções do estúdio já podem ser transferidas para o computador. Algumas têm o desempenho muito melhorado com a edição não-linear. “Ver” um gráfico de áudio ajuda em muito o trabalho de produção. Recursos como recortar, copiar e colar trechos do áudio são muito facilitados com o uso do computador. Mas ainda não chegamos ao ponto de dispensar os outros equipamentos do estúdio. Continuamos a usar a mesa, os processadores e módulos de som, e até mesmo gravadores de fita, uma mídia ágil e barata. Pelo menos, ainda por alguns anos.


Sérgio Izecksohn (sergio@homestudio.com.br) é músico, produtor e professor dos cursos do Home Studio


Publicado na Revista Backstage em 1998